Moda e Beleza

“Você pode usar uma peça várias vezes, isso é sustentabilidade”, explica Telma Lima, empreendedora do ramo slow fashion

Telma Lima

Proprietária e idealizadora da Suriel Slow Fashion fala sobre consumo consciente e como a marca contribui para reduzir impactos ambientais

Em 30.07.22

A moda sustentável se tornou assunto prioritário e urgente no setor fashion. Isso porque a indústria têxtil é uma das que mais causam impactos ambientais, devido aos resíduos produzidos com a confecção de roupas, calçados e acessórios.

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Conforme dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), o setor gera mais de 160 mil toneladas de lixo têxtil por ano. Além disso, há um consumo desenfreado com alta rotatividade de tendências, que surgem frequentemente com o modelo de fast fashion (moda rápida) e afetam principalmente as mulheres.

Elas representam 75% da cadeia produtiva da moda no Brasil. Em muitas regiões, a mulher ainda é explorada e sujeita a condições degradantes de trabalho forçado e exaustivo para atender à demanda. Isso também acontece em outros continentes, especialmente em países asiáticos.

Diante de fatos alarmantes, muitas marcas estão produzindo roupas focadas no movimento slow fashion, que visa a utilização de recursos naturais e sustentáveis, além de valorização das colaboradoras em suas produções. A Suriel Slow Fashion é uma das empresas engajadas no assunto e produz peças com essa proposta. Em entrevista ao Dicas de Mulher, Telma Lima, fundadora e proprietária da marca, falou sobre o processo de produção, moda sustentável e consumo consciente. Confira!

Dicas de Mulher – Você é proprietária e idealizadora da Suriel Slow Fashion. Fale um pouco sobre sua história como empreendedora de sucesso e como se interessou por sustentabilidade?

Telma Lima – Eu venho de família simples, a minha adolescência foi um tanto quanto dolorida quando o assunto era roupa, porque eu não tinha condições de usar as mesmas roupas bonitas e descoladas que minhas amigas usavam. Então, comecei a fazer minhas próprias roupas. Aprendia tudo que podia com pessoas próximas a mim, como fazer o molde, cortar, costurar, já que, naquela época, eu não tinha condições de cursar Moda. Então, eu aproveitava todo o aprendizado que estava ao meu dispor, e assim começou minha jornada no empreendedorismo. A paixão começou a crescer e investi todos os meus esforços na produção de lingerie, com o que trabalhei por exatos 20 anos. E nisso minha bagagem de empreendedora se tornou extensa, caindo e levantando, ganhando e perdendo. Quando chegou a pandemia, percebi que ali se encaixava um novo negócio, na necessidade que as pessoas tinham de estarem confortáveis para trabalhar em home office. Isso tudo tinha a ver com as roupas que eu gostava e fazia para mim: básicas, atemporais e confortáveis. Sempre foi minha escolha ter peças de roupas que pudessem ser usadas várias vezes e de formas diferentes, e isso é o verdadeiro consumo consciente. Assim, foi com esse sentimento que decidi criar minha marca de roupas slow fashion e poder expandir essa consciência de moda sustentável.

A Suriel produz peças que valorizam os recursos naturais locais e os produtos sustentáveis. Como foi o processo de criação de uma empresa voltada para sustentabilidade, conforto e versatilidade na moda?

Na verdade, essa consciência sustentável sempre fez parte de quem eu sou e, há dois anos, quando nasceu a Suriel, deixei essa consciência tomar forma e falar mais alto que qualquer lucro que eu possa ter. Temos um molde que se encaixa no entremeio dos cortes, e dali já saem pedaços de tecidos que podem ser utilizados para a produção de muitas outras peças. Uma delas é a nossa jaqueta Bomber Sustentável, feita com os pedaços de três a cinco cores diferentes, formando desenhos padronizados e que pode ser usada dos dois lados. E incentivar nossas clientes a usar uma peça que mostra verdadeiramente na pele a preocupação com o meio ambiente. Essa foi uma das nossas iniciativas para utilizar esses tecidos, além de falar mais sobre sustentabilidade na moda. Foi sucesso total, com uma extensa lista de espera.

O slow fashion preza uma moda com consumo consciente, respeitando todos os envolvidos no processo de produção. Como conscientizar as pessoas sobre essa importância e incentivá-las a adquirir marcas engajadas com esse propósito?

Na entrada da nossa loja, temos um minijardim vertical feito com cones de fios que seriam descartados na natureza. E, em cada vaso cone, tem uma planta que foi um presente de um cliente, um amigo ou um vizinho, e doamos esses cones para que as pessoas possam fazer o mesmo em suas casas. Em todo nosso atendimento, mostramos a importância de um consumo consciente e de ter um guarda-roupa inteligente, com peças que conversam entre si, e assim multiplicar seus looks e produções. Mas não é fácil conscientizar as pessoas e disputar com fast fashion, que trabalha com uma moda descartável, barata e na palma das mãos.

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Você acredita que a moda lenta, ou slow fashion, é um movimento ou um mercado para a moda? Qual sua opinião sobre isso?

O slow fashion é muito necessário, visto que a indústria da moda é uma das que mais poluem o meio ambiente. Acredito que esse movimento, a cada dia, ganha mais força e credibilidade. E também, aos poucos, as pessoas estão mudando e entendendo essa necessidade.

Os impactos da indústria têxtil já estão sendo sentidos e os números são preocupantes. Você acredita que a sustentabilidade se tornou uma questão central para esse setor ou ainda está longe do ideal?

Está muito longe do ideal! O planeta pede socorro, e as pessoas agem como se não houvesse amanhã, esquecem que não existe o “jogar fora”, porque fazemos parte de um todo e o mundo é o nosso quintal.

O Brasil produz cerca de 160 mil toneladas de resíduos de tecidos por ano. A Suriel recicla esses resíduos para produção de novas peças? Como é esse processo?

Reciclamos tudo o que podemos. Já falei um pouco sobre o nosso projeto de upcycling. A princípio, teremos ecobag, blusas e necessaire, que já são peças escolhidas para entrar na produção, além da nossa Bomber Sustentável. Mas, como é um trabalho totalmente artesanal, ainda vai demorar um pouquinho para serem comercializadas.

O slow fashion tem se popularizado no Brasil, com marcas que buscam o consumo consciente e, consequentemente, a concorrência também aumenta. Como a Suriel se destaca nesse meio e o que a marca busca transmitir para as consumidoras com essa prática?

Quando criamos um modelo novo, pensamos, em primeiro lugar, no conforto que essa peça vai trazer para a consumidora e colocamos todo nosso coração nisso. Isso é uma das grandes vantagens de trabalhar com o slow, poder se envolver em todos os processos e colocar sentimentos neles. E acredito que esse seja nosso diferencial, pois estamos ganhando, aos poucos, a admiração das clientes.

O consumo desenfreado na moda ainda é preocupante devido às diversas tendências que surgem todos os anos. Como você influencia as suas consumidoras a adaptarem o guarda-roupa ao movimento slow fashion para terem um consumo consciente?

Nosso propósito é trabalhar de forma honesta e mostrar a cada cliente as vantagens de ter uma peça nossa em seu armário. É comprar e entender que você pode usar essa peça várias vezes sem se cansar, isso é uma forma de sustentabilidade.

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Formada em Letras e pós-graduada em Jornalismo Digital. Apaixonada por livros, plantas e animais. Ama viajar e pesquisar sobre outras culturas. Escreve sobre diversos assuntos, especialmente sobre saúde, bem-estar, beleza e comportamento.