“Tenho usado a palavra GORDA sempre tentando ressignificar e normalizar nossas existências”

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Atualizado em 27.04.22

Reprodução / Arquivo Pessoal

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Em 29.03.22 às 17:09

Aline Luppi Grossi ganha a vida “mostrando a bunda e a banha”, conta. Ela é performer, artivista gorda e produtora. E mais: “debochada por natureza, folgada e gostosa, impossível não se apaixonar”.

Além dessa apresentação divertidíssima, vale destacar que Aline tem 28 anos e é formada em Artes Cênicas pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Desde 2014, tem trabalhado em eventos acadêmicos e artísticos por todo país, buscando representar e conhecer pessoas gordas.

Com isso, cria uma rede de trocas, fazeres e saberes artísticos: “É sempre lindo andar em grupo, quando todes são pessoas gordes, é libertador e transgressor ao mesmo tempo”.

A artista também foi destaque como rainha do Carnaval desde 2019, na cidade de Maringá. Fato importante porque busca combater a gordofobia e mostra que pessoas gordas podem e devem ocupar espaços diversos de vivência.

“Ganho a vida pelada, dançando e balançando as banhas”

Reprodução / Arquivo Pessoal

Aline Luppi projeta sua carreira por meio de paixões: “curvas, dobras, banhas e volumes do corpo”. Diz-se fascinada por texturas, marcas, estrias e rugas. Acredita no poder dessas imagens e em sua beleza.

Tem dois projetos de extrema relevância e, com eles, já esteve em 12 estados brasileiros. Um é o espetáculo “Banquete de obscenidades”, no qual aborda a violência contra a mulher e feminicídio durante a quarentena de Covid-19. Seu outro projeto tem como nome “ME CHAMA DE GORDA”, no qual tem uma exposição solo a respeito de sua trajetória artística. Esse trabalho conta, ainda, com palestras e oficinas de nomes relevantes da luta gorda, como Malu Gimenes e Jéssica Balbino, além de show de Jup do Bairro.

O intuito desse segundo projeto, conta Luppi, é “enaltecer nossas vivências e reafirmar nossos direitos e nossas lutas”. Ambos devem acontecer neste primeiro semestre de 2022, na cidade de Maringá-PR.

Um corpo gordo é perfeito!

Durante muitos anos, a performer procurou referências gordas e percebeu que as pessoas não sabiam lidar com um corpo gordo:

“Durante esses anos procurando referências gordas, investigando linguagens e fazeres artísticos me dei conta que as pessoas ao redor não sabiam muito como reagir ou o que fazer com meu corpo em cena. Elas não entendiam, não conheciam essa anatomia, principalmente porque sempre “escondemos” esses corpos”.

Diante disso, Aline Luppi passou a mostrar que seu corpo é perfeito por meio da arte e da representação:

“Passei a desenvolver meus trabalhos a partir do meu ponto de vista, de mostrar para as pessoas que meu corpo também é perfeito e dividir com elas o que de tão incrível e perfeito eu via no meu corpo e nos corpos semelhantes ao meu. Costumo sempre brincar que meu trabalho é o melhor do mundo! Ganho a vida pelada, dançando e balançando as banhas enquanto rio das reações das pessoas”.

Com suas obras, busca ocupar todo espaço que disseram que um corpo gordo não poderia estar, explorando as infinitas possibilidades, não somente como desvio do cômico, mas também pensando diversos contextos sociais do cotidiano:

“Tenho usado a palavra GORDA […] sempre tentando ressignificar e normalizar nossas existências. O problema não é me chamar de gorda, é um fato, sou e gosto quando me identificam como tal. O problema é toda a agressão e o histórico de violência que vem junto a palavra, muitas vezes gatilho pra tantas de nós”.

No entanto, a artista enfrenta diversas questões econômicas, geopolíticas, religiosas, sociais e estruturais a partir dessa criação idealizada de corpo. Relata que, apesar de o Brasil ser o país da “bunda e do futebol”, há marcadores de tamanho, forma, raça e cor e as mulheres passam a vida tentando emagrecer, para caber em um número, uma forma.

Uma de suas maiores batalhas diz respeito a direitos básicos, acessibilidade e visibilidade, para que seja tratada como ser humano. E lida com isso pela mesma postura adotada na arte: enfrentamento! Mas acredita que tem acontecido movimentações significantes na sociedade, por meio de estruturas de apoio se formando e retroalimentando.

Assim, referências de Luppi não podem deixar de ser mencionadas, porque são fontes de afeto e sustentação. São muitas, mas destaca sobretudo a Profa Dra. Ludmila Castanheira, também performer e feminista, por lhe mostrar que a arte pode ser feita com afeto e transgressão, e a Profa. Dra. Malu Jimenes, pesquisadora do corpo gordo, que desperta provocações e reflexões sobre sua existência e discursos dóceis.

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Assuntos: Entrevistas