Sociedade

“Temos esperança no futuro”, diz Márcia Rocha, idealizadora do TransEmpregos, projeto voltado à empregabilidade de pessoas transgêneras

Canva

Projeto conscientiza empresas, auxilia na contratação de pessoas trans e oferece cursos de capacitação sem nenhum custo

Em 31.07.22

Quando falamos sobre a realidade vivida por pessoas trans no Brasil, estamos tratando do enfrentamento de muitos preconceitos, como a transfobia, além de violências que refletem também no acesso dessas pessoas ao mercado de trabalho. Apenas 4% da população trans feminina possui empregos formais no Brasil, de acordo com dados do Dossiê Assassinatos e Violências Contra Travestis e Transexuais Brasileiras em 2021, publicado em 2022 pela ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais).

Publicidade

Enquanto isso, 90% da população de travestis e mulheres transsexuais encontram na prostituição a sua principal fonte de renda. As dificuldades de acesso à educação e ao trabalho formal são os principais motivos de um número tão alto de travestis e transsexuais recorrerem à prostituição. Uma nota da ANTRA informa que, no Brasil, 70% das pessoas trans não concluíram o ensino médio e apenas 0,02% está no ensino superior. Esse cenário mostra em números a dificuldade de acesso da população trans brasileira à formação educacional, causada pelas inúmeras violências enfrentadas por essas pessoas no decorrer de suas vidas.

Além disso, 78% dos assassinatos de pessoas trans foram de mulheres trans e travestis que trabalham como profissionais do sexo, o que mostra como essas pessoas são as mais expostas à violência e ao estigma social. Isso tudo em um cenário em que, a cada 10 assassinatos de pessoas trans no mundo, 4 ocorrem no Brasil, segundo o Dossiê produzido pela ANTRA. Foram catalogados 4.042 assassinatos de pessoas trans no mundo em 2021 pela TGEU (Transgender Europe e.V.), dos quais 1.549 aconteceram no Brasil, que é o país que mais mata pessoas trans.

TransEmpregos: capacitação e contratação de pessoas trans

Márcia Rocha, Laerte Coutinho e Maite Schneider, fundadoras do TransEmpregos / Arquivo TransEmpregos

O TransEmpregos nasceu com o objetivo de conscientizar as empresas para a contratação de pessoas trans. A idealizadora do projeto, Márcia Rocha, conta que a ideia surgiu de um grupo de acadêmicos trans. “Nos juntamos e percebemos que havia pessoas trans capacitadas, qualificadas e que não conseguiam emprego. Algumas delas se assumiram trabalhando e, depois, eram mandadas embora e não conseguiam mais trabalhar”, explica.

A partir disso, surgiu o projeto, fundado por Maite Schneider (Grupo Esperança), Laerte Coutinho (cartunista) e Márcia Rocha (advogada travesti). Além de realizar a conscientização de empresas, o TranEmpregos funciona como uma plataforma de cadastro de currículos que auxilia na contratação de pessoas trans.

Fundado em 2013, é o mais antigo projeto de empregabilidade de pessoas trans no país e, também, o de maior alcance, com milhares de currículos e acessos. O uso da plataforma é completamente gratuito, tanto para pessoas trans buscando oportunidades de emprego quanto para empresas interessadas em contratá-las.

Como funciona o projeto

Quando o projeto começou, as empresas acessavam os currículos das pessoas cadastradas. No entanto, Márcia Rocha conta que houve um poblema: “Algumas empresas de headhunters e agências de emprego começaram a pegar os nossos currículos para vender para as empresas”. Por isso, o funcionamento da plataforma foi alterado e, atualmente, o projeto funciona de forma automatizada.

As empresas realizam o cadastro no site e é solicitada a leitura de uma cartilha, a ‘Agora Vai’, que, como explica Márcia Rocha, foi elaborada em parceria com empresas multinacionais. Depois disso, o anúncio de vagas é gerado automaticamente. “A empresa segue um passo a passo e ela própria gerencia a quantidade de anúncios, e as pessoas trans que acompanham o site mandam os currículos diretamente para as empresas”, informa a advogada.

O projeto conta com 715 empresas parceiras, sendo 111 delas classificadas como TRANSFRIENDLY – empresas nas quais todas as oportunidades são abertas para os(as) interessados(as), sem discriminações. No ano passado, havia 21 mil pessoas inscritas no TransEmpregos. Este ano, Márcia Rocha explica que são pouco mais de 20 mil. “Não sabemos exatamente quantas pessoas já passaram, porque elas entram e saem constantemente. Mas foram dezenas de milhares que já participaram do projeto”.

Publicidade

Com isso, também foram realizadas milhares de contratações. Em 2021, foram 797 pessoas trans contratadas; em 2020, 707 contratações foram realizadas por meio da plataforma. No entanto, a notificação de contratações não é completa, como explica Márcia Rocha. “O número real é maior, porque, às vezes, a empresa ou a pessoa não nos notifica. Então, no mínimo, alguns milhares já foram contratados”.

Quanto ao perfil dos usuários do TransEmpregos, levando em consideração o ano de 2020, 40,2% possuíam ensino superior, nos níveis de graduação, mestrado ou doutorado. O projeto também conta com iniciativas para a capacitação de usuários, como conta a idealizadora. “Algumas pessoas estão inclusive fazendo cursos e pós-graduação gratuitamente através do TransEmpregos, porque o projeto é totalmente gratuito. Não cobra de quem é contratado, não cobra nada das empresas para anunciar. E só fazemos parcerias para cursos gratuitos também.”

Pessoas trans em busca de emprego podem participar de duas formas: fazendo seu cadastro no projeto ou, simplesmente, seguindo o site pare ver as vagas e se inscrever. Márcia Rocha pede, porém, para que quem tem interesse em usar a plataforma realize seu cadastro. Assim, é possível estimar melhor o número de pessoas que estão em busca de emprego.

Pioneirismo e mudanças conquistadas

Canva

Rocha conta que, desde que começaram a iniciativa, foram conquistadas diversas mudanças. Tendo sido o primeiro projeto para empregabilidade de pessoas trans, ela explica que o TransEmpregos era a única ação junto às empresas nesse sentido. “Fazíamos capacitação de RH, palestra de conscientização para funcionários, reuniões com presidente, com CEOs e diretorias para trazer essa conscientização e preparar a empresa para receber pessoas trans”, explica.

Ela conta que se preocupavam muito com o ambiente em que a pessoa trans estaria trabalhando. “Até porque ainda não havia a criminalização da transfobia, que foi conquistada agora em 2018 pelo Supremo Tribunal Federal”. Agora, com a discriminação contra pessoas trans tendo o peso do crime de racismo, a advogada explica que a preocupação diminiu um pouco nesse sentido.

Planos para o futuro

Márcia Rocha compartilha o objetivo de continuarem ampliando a atuação do projeto TransEmpregos. Estão sendo ofertados cursos de capacitação, com escolas e universidades, por exemplo. “Algumas empresas têm pago cursos para a capacitação de pessoas trans na área de TI, principalmente, mas em outras áreas também”, conta.

As oportunidades de vagas e empresas parceiras estão em constante ampliação. De acordo com dados disponíveis no site, 215 empresas se tornaram parceiras do projeto em um período de 2 meses, entre o fim de 2020 e o começo de 2021. No entanto, Rocha acrescenta: “O que mais buscamos são vagas fora de São Paulo”. A grande maioria das parcerias feitas com o projeto é realizada por empresas sediadas em São Paulo. “Temos esperança no futuro” e queremos “levar a conscientização para outros estados, principalmente para as capitais”, finaliza.

Jornalista e produtora de conteúdo. Fã de cultura POP com interesse em Estudos Culturais, tentando acumular o maior número possível de hobbies nas horas vagas.