Dinheiro e Carreira

A tatuagem ainda é um tabu no mercado de trabalho?

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Mulheres de áreas diversas compartilham suas experiências e advogada explica como a legislação enxerga empregados tatuados

Em 28.07.22

Toda pessoa que tem tatuagem, ou que pensar em fazer uma, provavelmente já ouviu de alguém que fazer tattoo torna mais difícil encontrar emprego e ser reconhecida como profissional. Ou, até mesmo, que é um caminho para o desemprego. Essa ideia era ainda mais presente durante os anos 1990 e 2000. Apesar de estar sendo cada vez mais desconstruída, ainda existem meios que enxergam o assunto como tabu.

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Mulheres tatuadas no mercado de trabalho

Luana Leão compartilha que possui sete tatuagens e que todas elas são visíveis. Em relação à sua experiência profissional, ela conta: “como advogada e professora universitária, percebo que as pessoas olham as tatuagens com curiosidade, pois são profissões mais formais e é menos comum pessoas tatuadas. No entanto, nunca recebi olhares ou comentários depreciativos ou negativos”.

A advogada acredita que a cultura esteja mudando. “Hoje as tatuagens estão mais naturais no ambiente de trabalho, as pessoas apreciam esse tipo de arte e entendem que elas representam uma parte da identidade de cada pessoa”, comenta.

No entanto, a melhora da situação não quer dizer que ela desapareceu por completo. Karen Matsen, que trabalha no setor de Recursos Humanos, possui em média 50 tatuagens, a maioria delas sendo visíveis nos braços. Ela conta que já teve problemas por causa disso com uma ex-chefe. “Quando fui na entrevista, a recrutadora me pediu para ir com manga longa nos primeiros dias de trabalho para a diretora da empresa não estranhar, porque ela não gostava muito”, relata.

Ela seguiu o conselho e conta que, por um tempo, até conseguiu esconder. “Porém estava muito quente e um dia fui de manga curta, a diretora fez comentários sobre minhas tatuagens e, uma semana depois, fui dispensada”. Atualmente, Matsen é líder do setor de Departamento Pessoal em uma empresa de contabilidade. Sobre essa situação, ela comenta: “tenho sorte de que é uma empresa de maioria jovens, então não é tão surpreendente”.

Apesar disso, ainda há situações em que ela relata se sentir julgada por suas tatuagens. “Sempre recebo olhares julgadores ou surpresos quando vou atender um cliente ou quando tenho colegas novos”, relata Karen Matsen.

Carreiras mais abertas a tatuagens

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Por outro lado, Janaína Vieira conta que não passa por esse tipo de problema em seu ambiente de trabalho. “Atualmente sou tatuadora, então é muito tranquilo e me sinto mais à vontade pra fazer mais tattoos”. Ela possui em torno de 40 tatuagens e, com essa quantidade, brinca que acaba se tornando sua própria propaganda.

Mesmo quando ela trabalhava em outros setores, nunca encontrou preconceito com as tatuagens. Ela explica que, na época, “trabalhava em outros ramos, tinha bem poucas tatuagens. Elas eram aparentes, mas pequenas”. Também mostrando que o preconceito com tatuagens no mercado de trabalho parece estar diminuindo, Vieira conta sobre sua última entrevista de emprego. “Foi há quase 1 ano e, quando falamos sobre tatuagens, eles foram abertos e não tiveram nenhum preconceito, inclusive tinham também”.

Isso não quer dizer que comentários ou olhares não sejam mais comuns. “Na rua, algumas pessoas ficam encarando ou observando mais, na minha opinião. Também tem pessoas que perguntam por que eu me tatuo ou questionam por que eu fiz tal e tal tatuagem. Enfim, algumas pessoas não gostam, nem concordam muito, mas tem quem goste e elogie também. No ambiente de trabalho, era quase a mesma coisa, quando eu estava em outras áreas”, finaliza Janaína Vieira.

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O que a lei diz sobre tatuagens e mercado de trabalho?

A advogada e professora universitária Luana Leão explica que, “de acordo com a legislação, o empregado não pode ser demitido por justa causa apenas por ter feito uma tatuagem”. Essa informação está presente no artigo 482 da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), que informa quais podem ser os motivos usados para demissão por justa causa.

Assim, uma demissão motivada pelo empregado ter feito tatuagem entra como uma rescisão imotivada. “Ou seja, quando o empregador decide encerrar o contrato de trabalho por sua autonomia privada. Nesses casos, é o empregador que deve arcar com os custos dessa rescisão, como aviso prévio e multa sobre o saldo de FGTS”, informa a profissional.

Leão explica que o empregador pode exigir que tatuagens aparentes sejam ocultadas do público, “desde que não soe discriminatório e seja uma regra válida para todos os empregados, da mesma forma que ocorre com a obrigatoriedade de uso de uniforme”. Isso porque discriminar as pessoas por conta de coisas como tatuagens ou piercings no ambiente profissional é considerado crime pela Lei nº 9.029/95.

Nesse sentido, a advogada explica que “a legislação trabalhista impede que haja qualquer tipo de discriminação na contratação ou durante o contrato de trabalho”. Além disso, também “rechaça qualquer conduta do empregador de proibir o empregado de fazer tatuagens, pois isso fere o direito à liberdade individual”, completa Luana Leão.

Jornalista e produtora de conteúdo. Fã de cultura POP com interesse em Estudos Culturais, tentando acumular o maior número possível de hobbies nas horas vagas.