“Sustentabilidade é diminuir desigualdades sociais”, pontua Amanda Costa, embaixadora da ONU

Diretora-executiva do Perifa Sustentável fala de sua trajetória profissional como ativista e mulher da periferia

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Atualizado em 01.07.22

Amanda Costa

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Em 06.06.22 às 10:59

No último domingo (5), foi celebrado mundialmente o Dia do Meio Ambiente. A data implementada há 50 anos pela Organização das Nações Unidas (ONU), tem o objetivo de não só destacar as riquezas naturais do planeta, mas também de disseminar um alerta para a humanidade sobre os danos causados ao meio ambiente ao longo dos últimos anos.

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Falando especificamente do Brasil, no período de agosto de 2020 a julho de 2021, houve aumento de 21,97% na taxa de desmatamento comparado ao mesmo período do ano anterior, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Junto à isso, uma pesquisa de 2021 publicada pela Carbon Brief mostra o país em quarto lugar no ranking dos grandes emissores de gases poluentes desde 1850, atrás apenas dos Estados Unidos, China e Rússia.

A poluição do solo, a utilização de agrotóxicos, a poluição constante dos rios e mares, a poluição do ar, a alta no desmatamento, as grandes queimadas que marcaram o país no último ano, as secas e as enchentes, a degradação da biodiversidade brasileira e diversos outros fatores, levam o país à uma crise ambiental que precisa de atenção.

E é exatamente por isso que o ativismo da nova geração em prol do meio ambiente se faz importante, não só no Brasil, mas em todo mundo. Um exemplo disso, é a Amanda Costa, de 25 anos. Nascida na periferia de São Paulo e formada em Relações Públicas, a jovem fundadora e diretora-executiva do Instituto Perifa Sustentável, embaixadora da ONU e integrante da lista Forbes Under 30 de 2020, foi recentemente nomeada como conselheira do Pacto Global. Em entrevista ao Dicas de Mulher, a ativista conta sobre os desafios enfrentados em sua carreira, conquistas e como surgiu o Perifa Sustentável. Confira!

Dicas de Mulher – Você cresceu na periferia e atualmente é um nome importante no ativismo no país, mesmo tão jovem. Poderia contar um pouco da sua trajetória pessoal e como se deu seu despertar para liderança?

Amanda Costa – Eu nasci na Brasilândia, no bairro Jardim Almanara, que fica na periferia da Zona Norte de São Paulo. Desde pequena estudei no Colégio Adventista de Vila Nova Cachoeirinha e na escola eu tive um professor que me marcou muito, o Petrio Palosck, de Educação Física. Desde pequena, ele me capacitou, apoiou e ajudou nessa promoção de liderança. Na escola, eu jogava futebol e vôlei, e no vôlei eu tinha uma das posições de líder, de puxar as meninas, de estar junto. Tanto é que fomos pentacampeãs do ENDESCA, o Encontro Desportivo dos Colégios Adventistas. Durante a juventude jogava bola na escola, depois fui para uma escolinha que chama Light Ball. Por conta dessa escolinha, tinha um professor chamado Robson que me indicou para um teste na Portuguesa, fiz a primeira, passei e joguei federada na Portuguesa na categoria sub-17. Jogava no campo. Foi nessa transição de adolescente para jovem adulta que percebi que o futebol feminino não tinha muito futuro no Brasil. Decidi fazer cursinho pré-vestibular, acabei entrando na Anhembi Morumbi, onde estudei Relações Internacionais. Acho que um fato interessante e curioso de trazer é que antes de entrar na universidade, passei num programa que era para ser monitora de um Summer Camp, nos Estados Unidos, num acampamento de verão que é o YMCA Camp Marston. Lá no camp Marston, eu entendi que eu queria [fazer] Relações Internacionais. Eu trabalhei com pessoas de muitas nacionalidades, e isso me encantou de uma forma muito profunda. O principal desafio foi crescer num bairro de periferia, ser fruto de um relacionamento inter-racial, minha mãe é branca e meu pai é preto, e não ter muita consciência de raça na minha juventude. Fui me reconhecer como mulher preta com 23 anos. Isso acabou moldando muito minha visão de mundo, me blindando de algumas coisas, mas também fazendo com que eu fosse submetida a diversas opressões, mesmo inconsciente delas.

Como é a sua experiência e atuação como embaixadora da ONU e conselheira do Pacto Global?

Eu virei jovem embaixadora da ONU no final de 2020 por conta de um programa feito pela UNODC, que é United Nations Office on Drugs and Crime (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes). Essa instância da ONU fez uma parceria com o governo de São Paulo para selecionar jovens agentes de transformação que estavam trabalhando com a agenda 2030, ou seja, a agenda de desenvolvimento sustentável da ONU. Naquela época, eu era coordenadora do grupo de trabalho sobre os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável do Engajamundo), então responsável por coordenar jovens das cinco regiões brasileiras que estavam interessados em territorializar a agenda 2030 e desenvolver projetos nos seus territórios. Acredito que, em grande parte, por conta disso que acabei acessando esse lugar [de embaixadora]. Minha principal missão enquanto jovem embaixadora da ONU é propagar a mensagem dos ODS, da sustentabilidade, trazer essas demandas, desenvolver projetos, espalhar essa agenda [2030] e fazer com que ela fique mais conhecida. Atualmente, menos de 5% da população brasileira sabe o que significa a agenda 2030 para o desenvolvimento sustentável, então ainda estamos numa bolha. Uma bolha branca, elitizada, rica, de uma sociedade que tem acesso à educação e acesso a esse conhecimento epistêmico, ou seja, que está concentrada numa pequena bolha de conhecimento, numa pequena parcela da nossa sociedade. Já enquanto conselheira do Pacto Global da ONU, nomeação feita há pouco mais de um mês, minha responsabilidade é de direcionar os maiores CEOs do Brasil para adotarem práticas mais inclusivas, colaborativas e sustentáveis, que tenham cuidado socioambiental como pilar.

Você entrou para a lista Forbes Under 30. Como foi para você receber esse reconhecimento? E como isso moveu seus projetos de carreira?

Entrar pqra lista Under 30, me deu mais visibilidade para aquilo que eu já estava fazendo, é como se eu recebesse um megafone. Antes eu estava falando para os meus pares, agora estou com o megafone falando para pessoas de uma bolha diferente da minha. Comecei a acessar a galera que lê Forbes, como CEOs, empreendedores e empresários. Ajudou a trazer essa mensagem da emergência climática a partir de um lugar de ativismo e comunicação e gerenciamento de projetos para fora do nicho que eu estava transitando e dialogando, que é o terceiro setor. Acredito que esses cruzamentos são essenciais se queremos cuidar do nosso planeta e enfrentar essa emergência climática. Então, [estar na lista] foi essencial na minha carreira, porque ajudou a trazer mais visibilidade e mostrar para jovens mulheres pretas de quebrada que esse lugar também é nosso, mesmo que a sociedade a todo momento grite que não.

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Como nasceu e qual o principal objetivo do projeto Perifa Sustentável?

O Perifa está se tornando um instituto e já tiramos o CNPJ dele. Ele nasceu comigo, em 2019, como projeto para democratizar a crise climática para as periferias e favelas, porque, enquanto mulher preta da Brasilândia, sei que são os territórios mais vulneráveis que vão ser os principais impactados. Muitas vezes, pessoas desses territórios não são representadas nos ambientes multilaterais de tomadas de decisão, seja numa instância internacional, como a ONU, e a UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas), seja nas instâncias nacionais, como no nosso próprio Congresso, ou em outros espaços representativos de poder. Então, o Perifa nasceu em 2019 por conta desse meu incômodo em relação à percepção: “não me vejo representada nos espaços”. Hoje, como instituto, o Perifa tem a missão de mobilizar a juventude brasileira para criar uma nova agenda de desenvolvimento para nossa nação, a partir da perspectiva de raça e clima, entendendo que não tem justiça ambiental sem justiça racial.

Você disse em algumas outras entrevistas que o Perifa Sustentável é pautado em três eixos. Você poderia explicar quais são eles?

O primeiro é a “educomunicação”. Como são utilizadas as redes sociais, mídias, artigos e vídeos de formas criativas para ampliar o alcance da mensagem climática, ao mesmo momento que apoia a formação de outros jovens educomunicadores. O segundo é “advocacy climático”, que tem o objetivo de pressionar tomadores de decisão para aprovar projetos de leis de emergência climática, porque assim é possível desenvolver planos de adaptação, de mitigação, de contingência para frear a crise climática, ou pelo menos amparar as pessoas mais impactadas. Um exemplo prático, se uma lei dessa é aprovada, a gente consegue destinar recursos públicos para essas áreas mais vulneráveis. Se chove e alaga determinada quebrada, determinado território, a gente consegue construir, com o recurso público, um plano de mitigação para que essas pessoas não percam mais os seus móveis e bens, não sejam tão impactadas. E o último objetivo que mais me encanta, mais orgulha meu coração, é o “ações territoriais”, ou seja, deixar concreto todo esse discurso na quebrada, no território, falar com a população, engajar a sociedade, mobilizar o pessoal do território para fazer parte desse movimento.

Quais são os desafios de liderar uma organização social, sendo uma mulher negra, moradora de periferia?

Acho que o principal desafio é esse amadurecimento muito rápido que eu tive que ter. Eu saio de jovem embaixadora da ONU para me tornar diretora-executiva do Perifa Sustentável, que é uma organização que nasce com esse caráter nacional de trazer essa nova perspectiva para o Brasil. Então, entendendo que alguns vocabulários, algumas posturas, alguns posicionamentos que eu tinha, eu vou precisar selecionar os lugares que eu vou reproduzi-los, porque é isso, enquanto jovem mulher preta que teve essa aceleração social para ocupar esses espaços, é importante que eu traga uma visão de que eu tenho propriedade e domínio sobre aquilo que eu estou falando, sobre aquilo que eu estou trazendo, e não é por conta do lugar de onde eu venho, da minha origem, da cor da minha pele ou da minha pouca idade que eu não tenho capacidade de ocupar determinados espaços, como representar a juventude brasileira numa conferência das Nações Unidas. Só que numa sociedade estruturalmente machista e racista, o lugar da mulher negra é um lugar de subalternidade, ou seja, um lugar de servidão. Então, trazer mudanças, transformações, amadurecimento e, ao mesmo tempo, manter minha essência, meu jeito é complexo. Ainda sou jovem embaixadora da ONU, mas também sou diretora-executiva do Perifa Sustentável, também sou conselheira do Pacto Global da ONU, mas também sou uma mulher de 25 anos, quero ter meus crushs climáticos, sair e trocar ideia com as amigas, fazer “vários nadas” e ser jovem… Encontrar esse equilíbrio é o principal desafio.

Como o racismo estrutural afeta a sustentabilidade?

Eu gosto muito de trazer o termo ‘racismo ambiental’, que foi um termo criado em 1981, pelo Dr. Benjamin Franklin Chavis Jr., que naquele momento estava investigando como que alguns bairros dos subúrbios dos Estados Unidos eram alvos de lixos tóxicos. E quando a gente pensa em racismo estrutural, sustentabilidade, racismo climático, que é um desdobramento do racismo ambiental, percebe que as pessoas residentes em territórios [carentes] são as mais impactadas pela crise climática. Exemplo, quando chove, não é a Av. Paulista ou a Faria Lima que alaga, que inunda, mas é a quebrada, é minha Brasilândia. Então, é preciso entender que isso é fruto de um processo histórico de colonização, em que as pessoas pretas foram trazidas para o Brasil à força, destinadas a um trabalho escravo, e quando esses foram libertadas não tiveram direito a terras. Foram cada vez mais segregados e marginalizados, foram para as periferias das cidades, onde falta de saneamento básico, tem carência na saúde e educação. Essa instabilidade ambiental que afeta a galera de quebrada é fruto desse processo histórico de racismo. E quando a gente pensa nessa parte mais burocrática, nas instâncias de poder, quem que é a galera que está tomando decisão? Qual é a origem dos nossos políticos? Qual é o gênero da maioria? Qual é a cor de pele? Como que eu posso esperar que uma pessoa que não entende essas demandas, legisle para essa população? Enquanto mulher preta de quebrada, da Brasilândia, seria muita inocência e ingenuidade esperar que um homem branco, hétero cisgênero, rico e velho entendesse as carências que me atravessam. Então, o racismo estrutural afeta a sustentabilidade a partir do momento que a gente olha para todo esse histórico de exclusão, de subalternidade, de silenciamento e de opressão de uma forma geral.

Qual a importância da representatividade da mulher negra como sujeito ativo de mudança em uma sociedade que não só nega a crise climática, mas também a presença do racismo?

Ter uma mulher preta nesses espaços é questionar a lógica heteronormativa de supremacia branca dominante, ou seja, é olhar a realidade pré-determinada e conquistá-la. Então, estar nos espaços, ou outras mulheres pretas, é questionar esse lugar que quiseram nos colocar. E as pessoas pretas que ascenderam todo mundo acha que ‘ah, tem que falar de racismo, tem que lutar contra essas práticas’. Então, ter pessoas pretas falando de outras coisas, no meu caso, de sustentabilidade, é mostrar que o nosso lugar não é onde a sociedade quis nos colocar, mas o nosso lugar é onde a gente quer ocupar, seja na política, no meio ambiente, em pautas de direitos humanos, em finanças etc. E também começar criar as estruturas bases para fomentar essa transformação, porque senão fica apenas um discurso bonito que não gera mudança. Então, em primeiro lugar está afirmar que o nosso lugar é onde a gente quiser. Em segundo, buscar ferramentas e caminhos para construir outras possibilidades de futuro, de realidade, pensando no coletivo. Tem uma frase da Angela Davis que diz que quando a mulher preta se movimenta, toda a sociedade se movimenta junto com ela, e é real!

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Quais políticas públicas deveriam ser implementadas para auxiliar na sustentabilidade das periferias?

Eu acredito que a questão principal é porque a gente não discute os planos diretores para os territórios periféricos, no sentido de “Como que a gente cria uma favela sustentável? Como que a gente desenvolve esse debate dentro do nosso próprio território?”. Então, eu acredito primeiro que leis de emergência climática são base, diretrizes, pilares e fundamentos para conseguir ampliar a discussão e o desenvolvimento de ações e projetos. Quando a gente pensa no conceito de sustentabilidade tem o tripé: social, ambiental e econômico. Sustentabilidade é você diminuir as desigualdades sociais, fomentar uma economia inclusiva ao mesmo tempo que você é ambientalmente responsável. Pensar numa política de promoção à saúde é pensar em sustentabilidade na periferia; pensar em ampliar o direito a crédito a partir de um conhecimento básico, ‘para que que esse crédito vai ser usado’, é pensar em sustentabilidade, porque a gente está fomentando uma economia inclusiva; pensar em parques, praças, contenção do lixo, reciclagem, compostagem, pensar em verde urbano, é pensar em sustentabilidade na periferia; pensar em educação climática e ambiental para as crianças, colocar essa pauta na base curricular brasileira, é pensar em políticas para a periferia, políticas de sustentabilidade. Sempre que a gente pensa em diminuir a desigualdade social, fomentar uma economia inclusiva e ser ambientalmente responsável, a gente está pensado em sustentabilidade na periferia. E aí eu deixo um questionamento para encerrar essa resposta: porque que os nossos tomadores de decisão não estão pensando em como fazer bairros, favelas, periferias, quebradas, comunidades suburbanas sustentáveis? O que falta para ter energia solar em cada casa?

E qual a importância da juventude no combate à crise climática?

Eu colocaria três: justiça climática, equidade intergeracional e o próprio direito à vida. Quando se pensa em justiça climática, se está pensando em quem paga a conta por tudo isso que a gente está vivendo. O norte global tem uma dívida imensa em relação ao sul global, só que essa divida ela não está sendo paga na mesma proporção. Tem uma analogia que a gente usa bastante para explicar essa parte. Pensa que você vai num bar com todos seus amigos, e aí cada um pede uma cerveja, e todo mundo está bebendo, compartilhando cervejas e tudo mais. Um precisa ir embora, deixa um dinheiro e vai. Outra também precisa ir embora, deixa mais um dinheiro e vai. Enfim, cada um vai embora e deixa um dinheiro e fica um, o último. Você acha que ele vai ter todo o dinheiro necessário, ou será que esse dinheiro vai faltar e ele vai ter que repor do bolso dele? Geralmente, é a última opção. Então, o último paga a conta. Só que quem é o último dentro da escala global? Os últimos são os países da América Latina e do continente africano, que por conta de toda a colonização foram os últimos a se desenvolverem, a alcançarem um lugar de profundidade nos debates, nas políticas de desenvolvimento e nos próprios processos burocráticos de poder. A importância de ter jovens a frente desse debate é levantar um questionamento que não foi levantado por pessoas mais experientes. Em segundo lugar, tem a equidade intergeracional: minha avó falava que quando era da minha idade podia nadar no rio Tietê, e essa prática para mim, é impensável. Assim, equidade intergeracional seria o direito das novas gerações terem os mesmos acessos às gerações mais experientes. Então, em uma escala global, o direito a acessar a natureza, pois cada dia mais o ser humano está desmatando, queimando, poluindo. Isso não é justo. O terceiro é o direito à vida, plena e abundante. A minha geração sofre de ansiedade, de depressão, de crises do pânico, porque não tem a certeza de um futuro. Muitas mulheres na minha idade não querem ter filhos, e um dos argumentos utilizados é “não sei se meu filho vai ter um planeta para viver, não sei quais são as condições que vamos deixar para essa criança”. Imagina você ter que repensar o seu direito a reprodução por conta de fatores externos… É injusto!