Saúde mental das mulheres é afetada após divulgação de imagens íntimas

Pesquisa da Fiocruz Minas aponta que vítimas expostas sofrem de depressão, fobias, transtorno alimentar, entre outros problemas

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Em 30.03.22 às 14:04

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Em 30.03.22 às 14:04

Divulgar imagens íntimas de mulheres, com cenas de sexo, nudez ou pornografia sem consentimento é crime, conforme o Código de Processo Penal brasileiro. E pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz Minas) assinala que esse ato afeta a saúde de mulheres.

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O estudo foi realizado pelo Grupo de Violência, Gênero e Saúde da Friocruz e está presente na tese de doutorado da pesquisadora Laís Barbosa do Patrocínio, com orientação da Profa. Dra. Paula Bevilacqua.

A análise aponta que mulheres que tiveram suas imagens íntimas divulgadas sem consentimento sofrem não só de violência de gênero, mas têm impactos para saúde mental, tais como: depressão, fobias, automutilação, transtorno alimentar, tentativas de suicídio e alcoolismo.

Além disso, o estudo mostra que as vítimas passam por outros problemas, como dificuldades de se relacionar socialmente e problemas de autoestima, além dos sentimentos de culpa e vergonha.

Os danos causados, muitas vezes, afetam ainda os vínculos com familiares e amigos, uma vez que estes nem sempre deram apoio às vítimas de violência.

Como foi realizado esse estudo?

Em seu trabalho, Laís barbosa Patrocínio entrevistou 17 mulheres, entre 18 e 62 anos no segundo semestre de 2020. Todas passaram por exposições indevidas de suas imagens. Além disso, o estudo contou com dez profissionais de saúde e de assistência social.

Outro dado importante é que a pesquisa abrange 18 cidades de seis estados brasileiros, de pequeno, médio e grande portes. E como as entrevistas foram feitas no primeiro ano da pandemia de Covid-19, aconteceram por vídeo. Isso foi positivo no sentido de poder abranger maior território nacional, bem como vítimas de classe social, etnias e raças diversas.

Essas mulheres narraram as situações de violência pelas quais passaram ao ter suas imagens divulgadas, como foram afetadas e se buscaram ajuda profissional. Por sua vez, os profissionais relataram como foi feito o apoio e quais cuidados foram ofertados às vítimas.

Quais são os tipos de exposições existentes?

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Há mais de uma forma de expor as mulheres. A pesquisa identificou que existem processos de produção, obtenção e divulgação das imagens. Mulheres podem, por exemplo, tanto produzir suas imagens quanto podem tê-las registradas pelo outro, sem consciência de que isso está sendo feito.

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E quais seriam os motivos dessas exposições? Também há variações: pode ser afirmação da masculinidade, pressupondo uma relação de poder; uma forma de controle; meio de condenação; vingança ou até mesmo comercialização e extorsão.

A pesquisa afirma, ainda, que em algumas situações a exposição não é apenas uma vigilância da sexualidade feminina, mas fruto de um descontrole do agressor. Algumas das entrevistadas foram expostas quando o parceiro estava alcoolizado e alterado devido a desentendimentos. Assim, a exposição demonstra uma necessidade masculina de controle do comportamento das mulheres.

Essa exposição é uma violência de gênero?

O Brasil é um país conservador que violenta suas mulheres diariamente de diversos modos. Diante desse cenário, até mesmo o contexto acadêmico tem abordagens antiquadas.

Se por um lado a pesquisa de Laís mostra que a exposição de imagens íntimas sem consentimento se trata de uma violência de gênero, por outro mostra que diversos trabalhos científicos não têm essa abordagem.

Apenas 15% das pesquisas acadêmicas sobre o tema classificam o vazamento de imagens como violência de gênero. Nesse sentido, o trabalho de Laís, alinhado à Fiocriz Minas, mostra-se de grande relevância para refletir sobre nossa sociedade e sua produção intelectual.