Bem-estar

Quais são os desafios enfrentados na maternidade precoce?

CANVA

Compreenda o cenário brasileiro e conheça a história de mulheres que foram mães na adolescência

Em 06.07.22

Enquanto boa parte mundo apresenta uma tendência de queda no número de adolescentes grávidas, a América Latina é a única região que apresenta crescimento. Nesse cenário, o Brasil é o país com maior índice de adolescentes grávidas de toda a região.

Publicidade

São 68,4 bebês nascidos a cada mil meninas adolescentes no país, enquanto a média mundial é de 46 nascidos para a mesma quantidade de mães adolescentes. É o que mostram os dados de um relatório divulgado em março de 2018 pela Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS), Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), com base em dados reunidos entre 2010 e 2015.

20 mil adolescentes dão à luz todos os dias em países em desenvolvimento e 200 morrem por causa de complicações, seja da gravidez ou do parto. No mundo, são 7,3 milhões de adolescentes que se tornam mães todos os anos. Desse total, 2 milhões são menores de 15 anos, segundo pesquisas feitas pelo Fundo de População das Nações Unidas. Dados que são destacados no artigo ‘Maternidade precoce: variáveis sociodemográficas e aspectos reprodutivos de adolescentes gestante’, de 2021, de Andressa Moraes e outros autores.

Causas da gravidez precoce

Com frequência a gravidez precoce está relacionada à falta de conhecimento sobre métodos anticonceptivos, a ausência ou ineficiência da educação sexual nas escolas e em casa e a iniciação sexual precoce. A desigualdade social também é relacionada aos casos de gravidez na adolescência.

Segundo dados do IBGE, de 2015, as maiores taxas de gravidez precoce estão entre jovens mais pobres e com menor escolaridade. A diferença faz com que adolescentes com piores condições socioeconômicas apresentem cinco vezes mais chances de engravidar do que jovens com boas condições econômicas.

Dificuldades da gravidez precoce

São muitos os desafios enfrentados por quem passa pela gravidez na adolescência. Essa é uma fase de formação, idade em que as pessoas enfrentam diversas transformações emocionais e físicas. Um período de busca pela identidade, em que as jovens precisam de um período de aceitação da maternidade, que foge dos planejamentos de passar pela fase de estudante, depois virar adulta e então se tornar, ou não, mãe.

Ao passar pela gravidez nesse período, muitas jovens acabam abandonando os estudos. Isso pode acontecer tanto por causa dos cuidados que precisam dispor aos bebês, quando eles nascem, que dificultam a realização das atividades escolares, quanto por fatores psicológicos, como a vergonha de aparecer grávida na escola.

Essa baixa escolaridade causa impactos nas oportunidades de trabalho que essas mães terão no futuro e, portanto, contribuem para tornar as jovens mães mais vulneráveis à pobreza e à exclusão social.

E o direito ao aborto?

Quando falamos de gravidez na adolescência, é importante destacar que menores de 14 anos são jovens vulneráveis. Assim, estão abaixo da idade de consentimento para práticas sexuais, sendo, em todos os casos, vítimas de situação de abuso e estupro de vulnerável.

No Brasil, é garantido por lei o direito ao aborto quando a gravidez é resultado de abuso sexual ou coloca em risco a saúde da mulher, como estabelecido no artigo 128 do Decreto Lei nº 2.848, de 07 de Dezembro de 1940. O Código Penal recomenda que o aborto legal seja realizado entre a 20ª e 22ª semana de gravidez, mas não coloca um prazo máximo para a interrupção da gravidez nesses casos. Portanto, o direito ao aborto deve ser garantido em todos os casos de gravidez de adolescentes com 14 anos ou menos.

Publicidade

Relatos de mulheres que foram mães na adolescência

CANVA

O Dicas de Mulher conversou com duas mulheres de diferentes realidades e épocas, que tiveram o primeiro filho durante a adolescência.

Helena Maia (nome fictício), 44, conta que ficou grávida aos 15 anos e que “ foi muito difícil, pois não tinha maturidade para definir o que era ser mãe! Temia muito por magoar meus pais, o que realmente ocorreu”.

Ela explica que além disso tinha medo de que isso atrapalhasse seus estudos, que não conseguisse dar boas condições de vida para si e para o filho, que hoje tem mais de 20 anos, além de “todo o preconceito de que uma menina que engravida sofre: somos tidas como fáceis, chamadas de coisas muito desconcertantes, quando na verdade, somos apenas meninas com pouca instrução!”.

Apesar da decepção dos pais, Maia conta que teve muito apoio deles “Eu estudei, me formei, trabalhei e estou muito feliz, e realizada como mulher e profissional! Mas sei que sou menos de 1% das mulheres que conseguiram isso depois de uma gravidez precoce”, compartilha.

Diferente da sua situação familiar, ela relata que o pai do seu filho, que também era jovem, “vivia uma realidade diferente da minha sem apoio da família! Não foi um bom pai! Hoje não falo com ele e tenho zero contato!”.

Já Leonice Caleffi, 63, ficou grávida em 1976, quando tinha 16 anos, conta que o maior desafio foi “o medo porque é tudo novo, você não sabe como vai ser contar para a família, para os amigos, a escola, então é muito difícil, não desejo isso pra ninguém”.

Ela precisou deixar de estudar porque tanto ela, quanto o namorado, e posteriormente marido, não teriam condições de cuidar do filho de outra forma “Nós nos casamos, não tínhamos nada. Compramos um jogo de quarto a prestação e uma cozinha, só”.

Apesar dos desafios, ela relata que “atualmente as coisas estão bem melhores, hoje eu sou uma pessoa completamente feliz, com uma família feliz, com netos e esse casamento durou a vida inteira, graças a Deus, e vai continuar a durando, porque eu sou uma pessoa católica, apostólica e romana e prezo que o amor é um só. A gente amou uma vez e esse é pra sempre”.

Falta falar sobre sexo

Em ambos os casos, elas compartilham a falta de instrução sobre sexo. Leonice conta que “Minha família não falava sobre sexo, imagina isso era um tabu. Ninguém falava nada e eu não sabia, eu era muito nova, muito, assim, ingênua ainda com tudo.”

Publicidade

No caso de Helena, ela recorda que “Na escola era zero abordado e em casa de forma superficial”.

A falta de informações sobre os cuidados necessários ao ter relações sexuais, tanto para prevenir gravidez quanto para evitar doenças sexualmente transmissíveis é um ponto que contribui muito para o número de casos de gravidez na adolescência.

Tratar um assunto importante como esse como um tabu, não contribui em nada para evitar que adolescentes façam sexo, apenas torna mais difícil o acesso ao conhecimento e aumenta o número de pessoas que fazem sexo de forma insegura.

O que elas têm a dizer para outras jovens?

Mesmo que garotas que se tornam mães jovens, Helena aconselha “não parem de estudar, foco em formação, carreira, sempre olhar para o futuro”. Indica ainda que “procurem carreiras que possam dar sustento mesmo que o plano de trabalho dos sonhos fique para depois!”. Além disso, pontua que sigam “amando seu filho, mas não esquecendo de se amar!”.

Já Leonice compartilha que “tomem cuidado se for fazer sexo”. E acrescenta “hoje eu sou contra sexo antes do casamento, mas, se for fazer, que faça com consciência que tome os devidos cuidados”.

Jornalista e produtora de conteúdo. Fã de cultura POP com interesse em Estudos Culturais, tentando acumular o maior número possível de hobbies nas horas vagas.