“Pude me assumir por meio do Carnaval”, conta Camila Prins, primeira rainha de bateria trans de São Paulo

A modelo e dançarina fala da sua experiência pioneira e sobre ser respeitada no mundo do samba

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Em 27.04.22 às 9:30

Reprodução | Acervo Pessoal

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Em 27.04.22 às 9:30

O carnaval de 2022 foi histórico, a primeira folia depois do confinamento gerado pela pandemia foi uma grande catarse coletiva. Um dos marcos que merece destaque é a presença de Camila Prins à frente da bateria da Colorado do Brás, a modelo é a primeira rainha de bateria trans em uma escola do Grupo Especial de São Paulo.

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Sua presença retoma uma posição que foi inaugurada por uma mulher trans: Eloína dos Leopardos foi a primeira a desfilar à frente de uma bateria, em 1976, na Beija-Flor de Nilópolis, a convite de Joãosinho Trinta. Porém, desde então, a presença de mulheres trans tem sido apagada, a esperança é que sua presença seja abre-alas para uma maior representatividade no Carnaval.

Em entrevista exclusiva ao Dicas de Mulher, Camila Prins fala sobre a experiência de estar à frente da bateria, seu trabalho em levar o Carnaval do Brasil à Europa e sobre a influência que a festa teve em sua vida.

Dicas de Mulher – Como foi a experiência de desfilar tanto no Carnaval do Rio quanto no de São Paulo?
Camila Prins – Ambos os desfiles foram incríveis, no de São Paulo eu realmente me senti uma verdadeira rainha, foi incrível, passamos na avenida e fui muito respeitada e aplaudida. No Rio de Janeiro, na Tijuca, também foi um desfile maravilhoso, era destaque central no quarto carro e passamos muito bem na avenida.

Você pode falar um pouco sobre sua relação com o Carnaval? Como começou? Qual a influência do Carnaval em sua vida?
O Carnaval pra mim veio desde a infância, desde de sete, oito anos, eu já fazia parte de bloquinhos do interior de São Paulo. O primeiro ano que eu me vesti de mulher, que eu me assumi, tinha onze a doze anos. No interior tem uma lenda de Carnaval que homens se vestem de mulher e mulheres se vestiam de homem. Foi quando me vesti de mulher, que eu assumi para meus familiares, disse que queria continuar daquele jeito, que pra mim não era uma fantasia. Pude me realizar e me vestir de mulher vinte e quatro horas por meio do Carnaval.

E como foi começar a desfilar em sambódromos?
Em 2000, tive a honra de ser convidada para desfilar pela Camisa Verde e Branco, por um dos maiores carnavalescos que já conheci, o Tito Arantes. Desde então não parei, saí como destaque até 2018, quando pela primeira vez vim à frente da bateria e me tornei a primeira rainha trans do Carnaval de São Paulo.

Você considera o Carnaval receptivo a pessoas LGBT? Foi bem recebida?
Venho conquistando o respeito há dezoito anos para o mundo LGBT, de poder vir em frente a uma bateria, poder levantar minhas bandeiras e sim, hoje, em 2022, me sinto realmente respeitada em qualquer pavilhão, qualquer escola em que eu chego para visitar. Hoje me sinto uma mulher trans respeitada no mundo do samba, que é difícil sim, mas me sinto uma pessoa superrespeitada.

Reprodução | Acervo Pessoal

Quem são suas referências artísticas?
Minhas referências de rainhas no carnaval, as que sempre babei, são Luiza Brunet e Luma de Oliveira. Em são Paulo, Camila Silva (ex Vai-Vai, atual Mocidade Unida da Mooca) e Valeska Reis (Império de Casa Verde). Sempre as admirei muito e tinha muito orgulho delas, tinha vontade de ser como elas, e hoje graças a Deus me sinto como uma delas.

As artistas trans, travestis e drag queens estão em um momento de muita visibilidade, como você se sente sendo uma das referências?
Eu me sinto muito grandiosa de ser essa referência, de poder levantar minha bandeira, poder representar minhas meninas trans, o meu mundo LGBTQIA+. Me sinto muito orgulhosa e honrada de poder fazer isso, e espero que daqui a dois, três, quatro, cinco anos possa ver uma menina trans me representando na frente de uma bateria do grupo especial de São Paulo ou do Rio de Janeiro. Isso pra mim vai ser uma honra, porque sei que estou abrindo as portas pra elas.

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Como consegue manter a ligação com o Carnaval mesmo morando fora do Brasil?
Eu levo o Carnaval pra Europa. Em 2021 eu fui rainha, a Königin do Festival Internacional de Samba realizado na cidade de Coburg, o maior da Alemanha. Também sou madrinha da bateria da Unidos de Lausanne, uma Escola de Samba na Suíça. Também faço muitos shows de samba na Itália, na França, na Alemanha e na Suíça, sou bailarina e trabalho levando nossa cultura brasileira para a Europa.

Qual sua expectativa para os próximos carnavais?
Minhas expectativas para o próximo ano são grandiosas, tenho muitos planos incríveis, estou esperando tudo dar resultados agora. Vou continuar com a Colorado do Brás, talvez como rainha sozinha, mas estamos aguardando o momento certo. Minha expectativa é brilhar ainda mais que brilhei agora.

A Colorado do Brás foi uma das escolas com enredos sobre mulheres, com A Cinderela Negra do Canindé, em homenagem à escritora Carolina Maria de Jesus. Para quem observa bem e vai além das tradicionais musas, o Carnaval mostra a presença de corpos diversos e alegres, conheça algumas das mulheres no Carnaval que constroem a folia.

Assuntos: Carnaval, Entrevistas