Sociedade

Para Karin Vervuurt, cofundadora da ONG Elas No Poder, é preciso “mudar as regras do jogo” da política brasileira

Organização trabalha para aumentar a participação feminina na política por meio de formações e advocacy

Atualizado em 08.08.22

O acesso fácil e gratuito à capacitação técnica e formação política de mulheres e candidatas é um dos pilares da ONG Elas No Poder, organização apartidária que visa aumentar a participação feminina na política e fortalecer suas atuações em espaços de poder político. Projetos como a plataforma Im.pulsa e a campanha Indique Uma Mulher democratizam a informação e o conhecimento e dão a todas oportunidade igual de competitividade.

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É essa democratização que as diferencia de outras ações como essas. Na Elas No Poder, o auxílio chega para todas independente da sua escolaridade, da sua idade, da sua bagagem política ou do seu potencial para vencer a disputa eleitoral. É uma rede de apoio e estímulo quando ninguém mais apoia essas mulheres.

Para Karin Vervuurt, mestre em Ciência Política e cofundadora da ONG Elas No Poder, o eixo da educação não pode mais atuar sozinho. Apesar de ser uma área essencial, a equidade chega, por ela, a “passos lentos”. O objetivo agora é “entrar de cabeça” em uma área já explorada: o advocacy.

O engajamento ocorreu em alguns momentos, como quando a ONG se juntou a outras organizações para participar da campanha que derrubava o veto presidencial sobre o projeto de lei de combate à pobreza menstrual e contra a PEC 18/2021, que, enquanto incluía na Constituição regras para candidaturas femininas, anistiavam partidos que não as cumpriu.

“Acreditamos que a mudança que precisamos não está só no treinamento dessas candidatas. Ela está em nós realmente mudarmos as regras do jogo. E para mudar as regras do jogo, teremos que ir lá o Congresso fazer pressão”, afirma a cientista política. “Precisamos dialogar com a sociedade civil e mostrar a importância do que estamos falando, de ter uma política mais diversa para fortalecer a democracia”.

“Enquanto as instituições estiverem ‘fechando a porta’ na cara das mulheres, podemos treinar o quanto quisermos, mas não será suficiente. Podemos avançar, mas não vai resolver de vez o problema”, afirma Isabela Rahal, diretora de Articulação Política da ONG.

Para elas, o advocacy é uma estratégia fundamental para facilitar a representatividade de mulheres negras, povos originários e comunidade LGBTQIAP+ e alcançar a igualdade de gênero. Ele incide em obstáculos impostos pelo próprio Congresso, medidas excludentes e desestimulantes às candidaturas das minorias.

“Nossa nova missão na ONG é até 2030 conseguir passar uma legislação que tenha 50% de cotas no Congresso. A gente vai atuar no Congresso mesmo, tentar incidir diretamente na política institucional para mudar as regras do jogo”, afirma a cofundadora sobre a área que tudo para somar ao eixo de educação.

Onde tudo começou

ONG Elas No Poder / Arquivo pessoal

Homens, brancos, mais velhos e com dinheiro. Esse era o perfil de candidatos que procuraram os serviços de Karin Vervuurt e Letícia Medeiros em Brasília (DF) durante as eleições de 2018. Naquele ano, as sócias abriram uma empresa de pesquisa e consultoria política. Na maioria das vezes, elas eram as únicas mulheres à mesa. Poucas eram as candidatas que buscavam seus serviços, e muitas delas sem recursos para bancar a consultoria.

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“A gente percebia que a maioria das campanhas de mulheres eram campanhas muito domésticas, pouco profissionalizadas. E devido a uma série de questões, como a entrada tardia das mulheres na política”, explica Letícia Medeiros, pesquisadora, cientista política e cofundadora da ONG Elas No Poder. Ela aponta, ainda outros fatores como a filiação tardia pelos partidos, falta de suporte e acolhimento.

“Isso foi causando um incômodo na gente, por usar nossos conhecimentos para eleger mais homens e de apenas homens chegarem à gente”, lembra Vervuurt, que se considera feminista.

A ideia surgiu, então, num momento inesperado. “E se a gente montar uma ONG de mulheres para ajudar candidatas e usar o nosso conhecimento para isso?”, pensou Karin, já imaginando fornecer o serviço ou de graça ou a baixo custo para mulheres. Letícia “pilhou na hora”.

O primeiro desafio foi tirar o projeto do campo das ideias. Para isso, entender como funciona e como empreender no terceiro setor foi primordial. O segundo foi conseguir financiamento, ainda mais com a pandemia. Segundo a diretora de articulação política Isabela Rahal, ainda é muito difícil conseguir apoio financeiro de homens e de empresas, seja porque não querem se envolver com política, seja por não acreditar na proposta.

Já uma das grandes conquistas que todas se orgulham é a criação da Im.pulsa, uma plataforma em expansão que democratizou o treinamento de campanhas, atuando sem discriminações. “Ela é aberta a toda e qualquer candidata, em qualquer nível de preparação e momento da sua carreira política”, reitera Rahal, apontando ainda o crescimento da ONG e o seu número de voluntárias.

Hoje, a organização conta com mais de 100 voluntárias e voluntários, no Brasil e no exterior. Todos divididos em grandes times: Comunicação, Pesquisa, Parcerias, Articulação Política e Operações e Finanças.

“A gente conseguiu construir algo que as pessoas acreditam o suficiente para doar o tempo delas para a gente. Isso é muito lindo. Isso é muito legal. Então eu acho que é uma grande conquista assim também”, declara Karin.

Novos projetos da ONG

ONG Elas No Poder / Arquivo pessoal

As formações estão a todo vapor! A expectativa é que a plataforma Im.pulsa triplique a quantidade de acessos durante este período eleitoral. Em 2020, a plataforma impactou cerca de 30 mil mulheres e suas equipes segundo Karin, elegendo 45 mulheres.

Pensando em candidaturas de diversidade e acessibilidade de informação, novos conteúdos voltados para candidaturas negras, PCDs, quilombolas, trans, LGBTQIAP+, periféricas e indígenas serão lançados. A formação contará também com aulas presenciais através de repasses para organizações que trabalhem com diversidade em regiões com pouco ou nenhum acesso à internet.

“Esse ano a gente abriu um edital para repasse de recursos para coletivos e movimentos sociais que vão lançar candidaturas de mulheres desses perfis, para que elas consigam fazer encontros presenciais e usar o conteúdo da Im.pulsa ali”, explica Karin. O projeto está sendo chamado de Im.pulsa Todas e atingirá principalmente as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

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Em 2022, um dos primeiros projetos pensados em 2018 se tornou real. A Elas No Poder lançou a campanha Indique Uma Mulher nas redes sociais com o objetivo de incentivar e apoiar mulheres para se tornarem lideranças políticas. Ao todo, 103 mulheres em todo o Brasil foram indicadas para o programa por alguém próximo a elas, que acredita na sua capacidade e as reconhece como lideranças. O alcance surpreendeu a todas.

“Nós tivemos mulheres que estão interessadas em estar na política, que já estão aí com pré-candidaturas lançadas, mulheres que ainda estão refletindo sobre isso, que ficaram surpresas (de serem indicadas). Teve também casos de mulheres que se indicaram”, afirma Letícia. ” Trabalhar essa autoestima e essa ambição da mulher, de querer estar na política, de querer pertencer a esse espaço, é um passo fundamental para a gente ampliar a participação da mulher na política de uma maneira geral.”.

E pensando em novas lideranças, que tal começar desde cedo? A Elas Na Escola é um projeto piloto, feito em parceria com o Consulado britânico, para meninas negras do 8º e 9º do ensino fundamental de Brasília. O objetivo do projeto é engajar desde cedo essas meninas e torná-las lideranças em suas comunidades, escolas, e, quem sabe, na política.

“A gente percebeu que a gente precisava começar a falar de política e de participação política mais cedo, com meninas, para que elas conseguissem crescer com uma perspectiva, uma cabeça diferente. Para que elas não se deixassem vencer por essas barreiras e para que conhecessem a política brasileira o suficiente para se envolver e se engajar”, explica Karin.

Com uma equipe formada apenas por mulheres negras, essas meninas e mulheres debaterão temas como síndrome da impostora, mulheres na política, lideranças no mercado privado e no terceiro setor. A expectativa é ser lançado ainda esse ano.

“Nosso sonho de país é aquele que tenha 50% de mulheres em todos os espaços de poder, principalmente no Congresso Nacional. E para isso, a gente tem certeza de que precisa que meninas, adolescentes e mulheres sonhem em ser lideranças e entendam que esse sonho é possível para elas. Então a gente não vai parar de trabalhar até que isso seja verdade”, conclui Isabela Rahal.

Comunicadora, voluntária e empreendedora. Apaixonada por moda, leitura e horóscopos. Graduada em Comunicação Social - Jornalismo pela PUC-Rio, com domínio adicional em empreendedorismo.