“A Paleontologia brasileira tem grande atuação de mulheres”, conta a paleontóloga Lucy Souza

Muito além do entretenimento, a paleontologia é um importante campo que contribui para a formação do interesse do público na ciência

Publicado por
Atualizado em 22.06.22

Lucy Souza / Arquivo pessoal

Por
Em 04.06.22 às 9:30

Os filmes das franquias ‘Jurassic Park’ e ‘Jurassic World’ fazem muito sucesso e têm bilheterias milionárias. Mas por que os dinossauros fascinam de crianças a adultos? A ideia de que esses animais diferentes e gigantes já habitaram nosso planeta há milhões de anos e o fenômeno da extinção de espécies que dominavam o mundo são combustível para a imaginação, gerando muitas ficções e documentários.

Publicidade

Há muita curiosidade sobre como são feitas as descobertas na área de Paleontologia, que traz informações cada vez mais completas sobre esses seres incríveis. Pensando nessa área da ciência, o Dicas de Mulher conversa com a paleontóloga Lucy Souza. Professora e Coordenadora de Pesquisa, Extensão e Internacionalização na Faculdade Estácio do Amazonas e professora substituta na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), pós-doutorada pelo Museu da Amazônia, atua nas áreas de Biologia sistemática, Filosofia da Ciência, Paleontologia, Representatividade na Ciência entre outras. Além disso, desenvolve trabalhos de divulgação científica e popularização da ciência no canal ‘Make Science BR’.

Confira como surgiu seu interesse de Lucy Souza pela Paleontologia, a importância de ter mulheres nessa área e a opinião dela sobre os dinossauros em filmes!

Dicas de Mulher – Como surgiu seu interesse pela Paleontologia?

Lucy Souza – O meu interesse surgiu lá pelos anos 1997 ou 1998, quando a editora Globo lançou aqui no Brasil um conjunto de fascículos que falava sobre Paleontologia. Principalmente dinossauros, os norte-americanos e europeus. Eu adorava esses fascículos, eles traziam informações sobre o que é Paleontologia, sobre os animais, os ambientes e foi isso que me fez querer ser paleontóloga basicamente.

Como é a área da Paleontologia para mulheres: existem mais dificuldades para conseguir espaço e reconhecimento?

Ser uma mulher, e principalmente uma pessoa trans, é bem complicado na Paleontologia por dois motivos: o primeiro é o que ocorre em qualquer ciência que é o machismo estrutural. Temos bem menos chances de cargos de liderança, de ter nossos projetos aprovados, de ganhar bolsa produtividade. Essas coisas são estruturais na academia, e obviamente fazem parte da sociedade. Outro ponto é que a Paleontologia é uma ciência que envolve muito trabalho de campo e muita resiliência física. Resistir a sair para o mato, para a floresta, para o deserto, para a Antártica e ter vigor físico para extrair os fósseis e resistir às intempéries, envolve a questão da misoginia , que as mulheres não vão aguentar. Particularmente no meu caso, como uma mulher trans no Amazonas, isso fica um pouco pior, é um estado bastante transfóbico . E no interior, infelizmente, isso é mais intenso, minha passabilidade enquanto pessoa cis tem que estar ao máximo porque, caso as pessoas percebam que sou uma pessoa trans, posso ser agredida, violentada, expulsa dos lugares, principalmente por motivos de fundamentalismos religiosos e conservadores.

Já foram descobertas mais de 30 espécies de dinossauros no Brasil. Você poderia falar um pouco sobre o trabalho do paleontólogo no país, quais foram as descobertas mais importantes e como está a participação de mulheres nessas pesquisas?

Na Paleontologia brasileira como um todo, não só com dinossauros, de umas duas décadas pra cá, tem existido um impulso muito grande de paleontólogas atuando na área. Infelizmente, não vou conseguir mencionar todas e já peço desculpa pelas que eu não mencionar, mas eu gostaria de trazer algumas que que estão aqui fáceis na minha cabeça e que eu tenho proximidade: a Annie Hsiou, da USP de Ribeirão Preto, que não é só uma colega de trabalho sensacional como também faz trabalhos de campo aqui no Amazonas também e lida com toda essa questão do machismo, além de ser uma mãe incrível de dois filhos. Ela é uma mulher muito inspiradora e seus trabalhos são muito importantes para o entendimento da origem do bioma amazônico – isso é fundamental. A Fabiana Nunes, da UFABC, que é uma pesquisadora de pterossauros muito renomada, tem artigos interessantes sobre biomecânica, sobre a evolução desses animais, inclusive tem parcerias e artigos com chineses, e isso merece bastante destaque. Não posso deixar de mencionar Aline Ghilardi, que tem feito um trabalho excepcional com pegadas de dinossauros, de outros animais também, mas especialmente com os fósseis. Mas eu acho que que atualmente está dando mais destaque pra ela é justamente a questão do colonialismo, não só na Paleontologia, mas na ciência como um todo. Ela é uma uma verdadeira inspiração pra mim. E por último, mas não menos importante, a Kamila Bandeira, também uma colega de trabalho, que descreveu o maior dinossauro do Brasil, o Austroposeidon magnificus. Essa espécie foi o primeiro dinossauro brasileiro a aparecer num documentário internacional, o Prehistoric Planet da BBC, que estreou na semana passada na Apple TV. Então, o que ela conquistou foi algo incrível, fenomenal e, com certeza, merece mais destaque na mídia brasileira.

E qual a importância da Paleontologia, especialmente para o Brasil?

Publicidade

Essa área é importante por vários motivos, inclusive o comercial. Sem Paleontologia, é muito mais complexo você detectar combustíveis fósseis, por exemplo. Ao tentar entender mais sobre esses animais, as pessoas acabam tendo acesso à ciência e consequentemente desenvolvendo o raciocínio crítico, pensamento crítico e consumindo mais informações científicas, o que torna cidadãos mais preparados para lidar com fake news, com desinformação, vejo a Paleontologia como uma ótima porta de entrada para a ciência. Além disso, a Paleontologia tem um potencial turístico grande, que ainda é muito desperdiçado no Brasil. Em várias regiões fossilíferas, poderia haver investimentos governamentais para criar estratégias de popularização e conscientização da importância de museus, do turismo com proteção, a abertura para visitação desse acervo que é muito rico no Brasil todo. Regiões isoladas do Brasil poderiam conseguir uma fonte de renda com esse atrativo, o turismo científico.

Além do trabalho com a Paleontologia, você trabalha com divulgação científica nas redes. Por que esse tipo de trabalho é importante?

A divulgação científica é um sonho que eu sempre tive e finalmente em 2019 consegui tornar possível, após a minha transição de gênero que me deu mais forças pra lidar com essas coisas. Só que, atualmente, estou parada porque estou basicamente com três empregos. Então não estou tendo muito tempo, e isso me dói muito porque é uma coisa que eu realmente amava fazer. A divulgação científica nasceu como um hobby para mim, mas que eu reconheci a importância: auxiliar as pessoas, tentando sensibilizá-las a respeito da importância da ciência. Tanto para pautas acerca da vivência LGBTQIA+ quanto também acerca da Paleontologia, da Filosofia. A divulgação científica é uma poderosa ferramenta de sensibilização da população sobre a importância da ciência, sobre conteúdos científicos e assim por diante.

O seu interesse na Paleontologia surgiu a partir de um produto de mídia, você consome outros produtos relacionados à área, como ‘Jurassic Park’ e ‘Jurassic World’? Você acredita que a representação da Paleontologia neles pode ser um incentivo para mais pessoas se interessarem por essa área da ciência?

Acho que só o ‘Jurassic Park’ original teve alguma alguma relevância na Paleontologia, porque depois todos os outros filmes foram de ação, aventura, abordando mais a parte genética e os dinossauros eram retratados como monstros. No filme original, realmente tem um pouco da profissão, um pouco do conhecimento. Acho que isso com certeza serviu de atrativo, porque tenho vários colegas que falam abertamente que se tornaram paleontólogos por influência do primeiro ‘Jurassic Park’.

A representação dos dinossauros em filmes, apesar de estar bastante cientificamente correta à época do lançamento do primeiro filme, já não está de acordo com o que diz a ciência e perpetua alguns equívocos. Quais são os maiores acertos e erros?

‘Jurassic Park’ realmente está datado, por exemplo na questão de dinossauros com penas e tamanho de algumas espécies, isso está bem errado. Mas eles acertaram bastante tratar os dinossauros como animais ativos ou como animais inteligentes, que é o que tudo indica que eles eram. ‘Jurassic World’ é uma decadência na parte científica, transformaram os dinossauros em monstros. Coisas que tinham acertado em filmes anteriores, voltaram a errar na nova franquia. Por exemplo, os estegossauros têm o rabo bem alto em relação à cintura, não toca o chão como acontece no filme recente. O tricerátops tem um corpo mais delgado do que a representação do filme. O maior acerto é tratarem os dinossauros como animais ativos e inteligentes, mas há, ainda, acertos e erros na questão da anatomia, varia bastante.

Devido ao caso recente de um dinossauro brasileiro, o Ubirajara, que foi levado para a Alemanha, tem se falado em “colonialismo científico”. Poderia explicar um pouco sobre esse conceito e sua importância?

O colonialismo é uma definição sociológica de que existe uma uma sociedade que impõe suas vontades a outra, destruindo a cultura, a essência, dessa outra sociedade e em geral usurpando as riquezas. Na ciência, isso não é diferente, esse tipo de colonialismo ainda acontece quando países do norte global, principalmente países capitalistas, investem em em ciência predatória, colonialista que incentiva seus pesquisadores a irem a países do sul global e literalmente roubar seus fósseis, extrair sem dar um retorno à sociedade que eles pertencem. Essa é uma prática nefasta, que não só gera prejuízos para a ciência, para o desenvolvimento da ciência, mas que também gera prejuízos socioeconômicos para sociedades colonizadas.

Muito mais do que assunto para filmes divertidos, a Paleontologia serve para demonstrar a importância das mulheres na ciência e do investimento na formação de pessoas críticas, curiosas e cidadãs. Conheça mulheres negras que revolucionaram a sociedade com suas conquistas e invenções.

Publicidade