Bem-estar

“Os cinquenta não são os novos trinta, são os novos cinquenta”, diz jornalista Silvia Ruiz

Silvia Ruiz

Autora da coluna Ageless e criadora da hashtag #Issoé50, fala sobre mitos do envelhecimento e o poder das mulheres 50+

Em 18.07.22

O etarismo tem levantado debates frequentemente, principalmente ao que diz respeito ao universo feminino. Ser mulher aos 50 anos ou mais sempre foi um desafio em muitos aspectos. Contudo, desconstruir tabus e preconceitos sobre o envelhecimento é importante para quebrar estereótipos, ressignificar o envelhecer e falar sobre o assunto com naturalidade. Assim as mulheres podem aceitar as mudanças dos seus corpos e descobrir que há beleza na maturidade, buscando saúde e equilíbrio emocional durante esse processo.

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A atriz Cristiana Oliveira de 58 anos, encarou esta fase tranquilamente e disse em entrevistas aceitar o envelhecimento e dar valor em cada momento que tem na vida. Já Ingrid Guimarães, também atriz, completa 50 anos este ano e relatou, em seu Instagram, que luta contra as regras sobre o que uma mulher com 50+ pode ou não fazer.

Para falar sobre o tema e romper os mitos sobre o que é ser mulher aos 50+, a jornalista Silvia Ruiz, criou a coluna Ageless, no ‘Viva Bem – UOL’. Além disso, ela lançou a hasthtag #Issoé50 para mostrar a pluralidade e o poder dessas mulheres. Em entrevista ao Dicas de Mulher, ela fala sobre o movimento, etarismo e longevidade. Confira a seguir!

Dicas de Mulher – Você foi pioneira em criar um espaço para falar sobre maturidade na mídia e redes sociais. Fale um pouco sobre a sua carreira e qual foi a sua maior motivação para abordar esse assunto?

Silvia Ruiz – Comecei a falar sobre esse tema em uma coluna no UOL, quando senti os primeiros sintomas de menopausa e me peguei refletindo “nossa, estou começando a envelhecer”. Eu tinha uns quarenta e sete anos, passei a pesquisar sobre o assunto e eu vi que tinha pouco conteúdo na mídia brasileira. Sou jornalista, mas já não fazia mais conteúdo há muito tempo, trabalho em agência e aí, quando eu percebi que isso estava acontecendo e que não tinha conteúdo, comecei a pesquisar para mim. Eu falei: “Vou compartilhar isso com outras pessoas, fazendo uma coluna a respeito”. Como ainda tinha muitos amigos na mídia, porque trabalhei muitos anos em jornais, criei essa coluna e apresentei para o UOL. Após começar a escrever, as pessoas passaram a me procurar no Instagram. Assim, comecei a falar sobre esse assunto no Instagram também, nem era a minha ideia inicial, mas foi acontecendo naturalmente.

O movimento #Issoé50 que convocou mulheres a postar as suas versões aos 50 anos fez muito sucesso no Instagram. Como surgiu a ideia em criar a hashtag e quais foram os efeitos disso?

Esse movimento #Issoé50 aconteceu de uma maneira muito espontânea. Eu vi a chamada da Ivete Sangalo na Globo, de Especial de Aniversário dela, em que se falava “Eu sei que não parece, mas Veveta faz cinquenta”. Achei aquilo muito etarista e pensei “Poxa, quem está fazendo isso não percebe que isso é etarista?”. Por que causa espanto a ideia de fazer cinquenta? Por que é tão estranho? Uma mulher que está bem, que é bonita, está “no jogo”, no topo da carreira etc. Isso é estranho para as pessoas com cinquenta anos ainda, mas eu quis mostrar que é frequente. Então fiz um post com várias mulheres que também tem cinquenta anos, mulheres diferentes entre si. Assim, várias mulheres passaram a postar também e virou um movimento. Em poucas horas, tinha milhares de posts no Instagram de mulheres falando a mesma coisa. Então, acredito que é um desejo, que as mulheres têm realmente de falar: “Eu estou aqui, eu não sou invisível”.

Os 50 anos de uma mulher é marcado por diversas mudanças físicas e emocionais. Para você, o que é ser mulher hoje com esta faixa etária?

Ter cinquenta tem muitas mudanças mesmo, principalmente as mulheres. Há mudanças hormonais bastante intensas. Creio que ser mulher é continuar “no jogo”, acho que todas as mulheres de cinquenta anos que eu conheço trabalham, têm sua vida, objetivos e relações. Possuem suas famílias, ou não, estão sozinhas e fazendo sua vida do jeito que querem. Então, acredito que não existe essa ruptura. Existem desafios novos, mas não existe um fim, é uma sequência.

Em todas as fases da vida, a mulher enfrenta muitas barreiras diante de uma sociedade machista e estereotipada. Na sua opinião, quais os maiores desafios que a mulher enfrenta aos 50 anos em relação ao mercado de trabalho?

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Não só as mulheres, mas os homens também enfrentam muito preconceito no ambiente de trabalho. É absurdo, eu escuto o tempo inteiro de clientes falando que “precisamos rejuvenescer a marca”, ao invés de falar: “precisamos atualizar a marca”. É uma coisa bastante frequente, muitas pessoas são trocadas nessa idade e têm dificuldade em arrumar emprego. Essa é uma realidade muito triste no Brasil que precisamos combater.

A mulher sempre sofreu cobranças estéticas, independentemente da idade. Como a indústria da beleza contribui para perpetuar o etarismo?

A indústria da beleza colabora nessa questão do etarismo quando vende produtos prometendo parar o tempo. O famoso anti-idade, o pare o seu tempo. É uma comunicação mostrando que é muito ruim envelhecer e que você precisa consumir aquele produto para que não pareça que está envelhecendo. Nesse sentido, muitas vezes ela usa mulheres que não são reais nas publicidades, mas acredito que isso está começando a mudar, algumas marcas já estão começando a ver que esse não é um caminho bacana.

Por que somos etaristas mais com mulheres do que com os homens? Como combater isso?

A questão dos homens lidarem menos com essa questão tem a ver com toda a questão do machismo e do patriarcado estrutural que vivemos. Desse modo, acredito que combater isso faz parte de trabalharmos o feminismo também.

Para a sociedade, a menopausa marca o fim do interesse sexual feminino. Na sua opinião, por qual motivo esse assunto ainda é tabu e gera tanto preconceito?

Na verdade, eu acredito que não é o fim do interesse sexual, isso é um mito que existe sobre a menopausa e um tabu porque não se fala sobre isso. Por essa razão, faço questão de falar porque tudo que não falamos vai pra debaixo do tapete, fica escondido no armário e criamos fantasia sobre o assunto. Precisamos falar para poder derrubar os mitos e fantasias.

Você acredita que, atualmente, o envelhecer está sendo ressignificado e que o estilo de vida define nossa mente e nosso corpo?

Eu acredito que o envelhecer está, sim, sendo ressignificado. Eesse assunto está sendo cada vez mais discutido e é só o começo. Estamos ampliando esse debate. Eu faço questão de participar dele e estou me empenhando muito para que isso aconteça. Com o tempo, as pessoas vão entender! O estilo de vida, por sua vez, muda muito a nossa forma de envelhecer, como comemos, nos movimentamos, nos relaciona com os outros e com o envelhecimento. Inclusive, as pessoas que encaram esse processo de maneira mais positiva, se cuidam mais. Há estudos mostrando que elas vão envelhecer melhor e vão ter mais longevidade. Então, é importante combater o etarismo, até por conta disso. E ao contrário do que se fala, os cinquenta não são os novos trinta, cinquenta são os novos cinquenta, é o que eu sempre digo.

Para você, há algum segredo para manter a longevidade?

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Eu acredito que se manter atual. No entanto, temos que tomar até cuidado com essa palavra. Você só está vivendo no seu tempo se entender as coisas que estão acontecendo culturalmente, as mudanças de comportamento, de atitude da sociedade. Entender o que está acontecendo na sociedade é importante. Um exemplo é a questão de tecnologias. Você deve tentar aprender, às vezes, coisas que não são nativas da sua geração, é importante para que não perca o contato com o resto da sociedade e também é fundamental profissionalmente.

Qual a mensagem que você passa para as mulheres encontrarem o prazer na maturidade e se sentirem mais plenas e felizes?

A mensagem que eu passo para as mulheres – e que eu procuro falar todo dia no meu Instagram – é: “Se não hoje, quando?” sabe! Temos o hoje, o presente. Não temos mais o passado, não sabemos o que vai do futuro. Então, façamos com que hoje seja o melhor dia da nossa vida, que esse momento seja o melhor momento, com o que estiver ao alcance, cuidando do corpo, da mente, das relações. Precisamos parar de olhar para trás porque o passado não volta e nem devemos ficar angustiadas e ansiosas com o que vem para frente porque não se tem controle sobre isso.

Formada em Letras e pós-graduada em Jornalismo Digital. Apaixonada por livros, plantas e animais. Ama viajar e pesquisar sobre outras culturas. Escreve sobre diversos assuntos, especialmente sobre saúde, bem-estar, beleza e comportamento.