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10 obras para compreender a realidade das empregadas domésticas

Divulgação | Globo Filmes

Além do podcast 'A Mulher da Casa Abandonada', outras obras expõem as condições das empregadas domésticas no Brasil e no mundo

Atualizado em 21.07.22

A discussão sobre a situação das empregadas domésticas ganhou força após o podcast ‘A mulher da casa abandonada’. Os episódios revisitarem a história de Margarida Bonetti, uma senhora que vive em um casarão abandonado em um bairro nobre de São Paulo enquanto está sendo foragida da polícia estadunidense por submeter sua doméstica ao trabalho análogo à escravidão. Seu marido, René Bonetti, foi condenado pelo mesmo crime e cumpriu pena no país.

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Esta é mais uma história dentre várias que receberam a atenção da mídia em outras tantas que jamais são denunciadas ou conhecidas, provando que a situação das trabalhadoras domésticas no Brasil segue muito precarizada e repleta de heranças escravagistas. Mesmo com a aprovação da PEC das Domésticas, em 2012, que garantiu direitos trabalhistas às empregadas domésticas, ainda não houve muitos avanços no tratamento dessas funcionárias, geralmente negras com baixo grau de escolaridade.

Muitas vezes, para disfarçar seu racismo e a precarização dessas mulheres. Os patrões usam a falácia de que são ‘como se fossem da família’, mas suas rotinas de trabalho e vida provam o contrário. Para compreender melhor a realidade do trabalho e os desafios que enfrentam, o Dicas de Mulher apresenta uma seleção de obras que abordam com consciência e respeito as condições das empregadas domésticas:

1. Que horas ela volta? (2015)

No filme escrito e dirigido por Anna Muylaert, Regina Casé vive Val, funcionária doméstica na casa de uma família de classe alta de São Paulo. A história começa quando sua filha, Jéssica, chega em Pernambuco para fazer o vestibular para o curso de Arquitetura e se hospeda na casa dos chefes da Val. Entretanto, Jéssica começa a questionar a situação de trabalho da sua mãe e não aceita com a mesma naturalidade que Val as desigualdades sociais. Esses questionamentos geram conflitos, tanto com a mãe quanto com os patrões. Muito elogiado e premiado internacionalmente, é um retrato da sociedade brasileira.
Disponível na Netflix.

2. Eu, empregada doméstica – Preta-Rara (2019)

Preta-Rara é rapper, apresentadora, professora de história e ativista. Em 2019 lançou o livro ‘Eu, empregada doméstica’. O subtítulo ‘A senzala moderna é o quartinho da empregada’ deixa evidente seu posicionamento de contestação da subalternização das trabalhadoras domésticas. O livro teve origem na página do Facebook criada pela autora em 2016, em que compartilhava situações abusivas na profissão. Essa iniciativa deu resultados, e ela recebeu e compartilhou relatos de outras tantas mulheres na mesma situação. São inúmeros exemplos das dificuldades a que são submetidas as domésticas.

3. Cheias de Charme (2012)

A novela Cheias de Charme fez sucesso contando as histórias de três empregadas domésticas: Maria Aparecida, Maria do Rosário e Maria da Penha. De maneira leve e lúdica, a novela aborda questões essenciais das relações entre patrões e empregadas domésticas, além das dificuldades e abusos a que são submetidas. A abordagem mostra também suas vidas fora do emprego, revelando que além de trabalhadoras, essas mulheres possuem sonhos, famílias e talentos que precisam ser postos em segundo plano.

4. Confinada – Triscila Oliveira e Leandro Assis (2021)

Caroline Félix

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A história em quadrinhos traz um retrato da realidade de muitas funcionárias domésticas brasileiras durante a pandemia do coronavírus. Ju se vê confinada com sua patroa Fran, influenciadora digital que dá dicas de saúde e bem-estar na internet. A história contrapõe a situação de precarização de Ju enquanto Fran prega a ideia de ‘vida leve’ e gratidão na internet. Os quadrinhos, que a princípio eram publicados em uma página do Instagram, fizeram tanto sucesso que foram transformados em álbum publicado.

5. Doméstica (2012)

O documentarista Gabriel Mascaro pediu a sete adolescentes que documentassem o dia a dia de suas empregadas domésticas. A partir dessa convivência marcada por afeto, conflitos e relações de poder, a complicada relação entre patrões e empregadas no Brasil é apresentada. O documentário mostra como a construção dessas questões é feita no cotidiano da vida na sociedade brasileira.
Disponível no Prime Video.

6. Solitária – Eliana Alves Cruz (2022)

O quarto de empregada é o narrador do romance de Eliana Alves Cruz. Comumente um local pequeno, separado do restante da casa e próximo à área de serviço. Apresenta o retrato da situação de exploração e manipulação que muitas funcionárias domésticas são submetidas. Eunice, uma das protagonistas, se sente em dívida com os patrões, mostrando o estranho vínculo estabelecido. A autora foi inspirada pelo caso do menino Miguel, de 5 anos, que caiu do nono andar de um edifício de luxo no Recife enquanto estava sob os cuidados da patroa de sua mãe.

7. Cartas a uma negra – Françoise Ega


A antilhana Françoise Ega trabalhava em casas de família na França quando teve contato com a obra da brasileira Carolina Maria de Jesus e identificou-se imediatamente; Passou, então a escrever cartas à autora brasileira publicadas postumamente neste livro. Sua obra mostra que a realidade de exploração das empregadas domésticas não se restringe ao Brasil e afeta muitas mulheres, principalmente as negras, ao redor do mundo.

8. Maid (2021)

Além do trabalho doméstico, a série estadunidense aborda também diversas faces da violência contra a mulher e como muitas são levadas a aceitar situações precárias pelas circunstâncias de suas vidas. Com uma abordagem sensível, que abre espaço para as complexidades dos relacionamentos com suas idas e vindas, altos e baixos, ao assumir o ponto de vista de uma faxineira, a série humaniza as trabalhadoras que são comumente vistas como invisíveis ou quase como eletrodomésticos.

9. Os silêncios do Palácio (1994)

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Neste filme, a diretora tunisiana Moufida Tlatli mostra a situação das trabalhadoras de um palácio em meio à revolução de independência do país. A história aborda um tema muito presente e pouco discutido nas relações de patrões e empregadas: o abuso sexual. O filme mostra, entre as questões de gênero e classe, a hereditariedade das situações de servidão, a sexualização precoce de meninas pobres e a naturalização da exploração das mulheres.
Não disponível em streaming atualmente.

10. A Negra de… (1966)

O filme de Ousmane Sembène apresenta de maneira objetiva e crua a realidade colonialista e escravagista que opera as relações entre patrões brancos e empregada negra. Numa história bastante comum também no Brasil: Diouana é levada de sua casa no Senegal sob o pretexto de ter ‘melhores oportunidades’ em Paris, só depois de já estar presa à situação percebe que foi enganada e viverá em situação análoga à escravidão.
Disponível no Mubi.

É importante tomar consciência dessas circunstâncias e aplicar sororidade e solidariedade com essas trabalhadoras, reforçando a luta por reconhecimento, condições de trabalho e emancipação das empregadas domésticas na sociedade, além de garantir seus direitos trabalhistas.