“O funk é uma ferramenta de empoderamento feminino”, afirma pesquisadora Tamiris Coutinho

Pesquisadora da área de música, Tamiris Coutinho explica como o funk cantado por mulheres rompe com a lógica do machismo

Publicado por                                
Em 22.06.22 às 12:05

Tamiris Coutinho / Arquivo Pessoal

Por
Em 22.06.22 às 12:05

Muito mais que um gênero musical, o funk é movimento cultural e social que reflete a vida na favela como ela é em suas necessidades, desafios, alegrias e riquezas. É nessa relação íntima do dia a dia que o funk acompanha as mudanças sociais, posicionando-se hoje como instrumento de empoderamento feminino ao dar a elas o poder de reverter o papel submisso imposto pelo patriarcado. É o que conta a pesquisadora Tamiris Coutinho ao Dicas de Mulher.

Publicidade

Formada em Relações Públicas (UERJ) e estudiosa da área de Música e Negócios pelo Instituto Gênesis (PUC-Rio), Coutinho é idealizadora do Coletivo Funk no Poder e autora do livro ‘Cai de boca no meu b*[email protected]: uma análise do funk como potência do empoderamento feminino’ (Claraboia, 2022). Para ela, esta é a geração da mulher faixa rosa.

O atual perfil feminino no funk é composto por “mulheres que trazem pautas mais evidentes sobre liberdade, autoestima e independência financeira”, afirma Coutinho, com base em suas pesquisas para o livro. Tais assuntos ajudam no empoderamento feminino, pois fazem “circular temas pertinentes para o ser mulher, despertando a consciência delas para esses temas.”

Com mais consciência, esse lugar de submissão, seja ele na música ou na vida real, passa a ser contestado. Assim, inicia-se uma resistência à manutenção da lógica do patriarcado e seus alicerces, “a partir do momento que as artistas se manifestam quanto às opressões que sofrem”, explica Tamiris. “É reverter a posição de submissa da mulher para posição de tomada de decisão”, finaliza.

Ter mulheres falando sobre sexualidade, liberdade sexual, libido e masturbação gera incômodo na sociedade, não só porque falar de sexo ainda é um tabu, mas porque envolve o controle sobre o corpo feminino e suas questões. Nesse contexto, Tamiris Coutinho aponta a importância de se ter mulheres falando sobre esses assuntos.

“É importante pela ótica da manifestação do direito ao prazer, da mulher poder entender que ela pode e deve falar sobre sexo e manifestar suas necessidades na prática sexual, não para deleite do parceiro, mas para seu próprio prazer. E isso é uma coisa que os funks trazem em sua maioria: a negociação da prática sexual”, explica a escritora.

O preconceito contra o funk

BRASIL COM S

O funk carioca foi o segundo gênero musical mais tocado no Spotify em 2020. No ano seguinte, esteve no TOP 5 entre os gêneros mais ouvidos. Mas apesar do levantamento feito pela plataforma indicar uma preferência pelo gênero entre os brasileiros, fora desse ambiente o cenário é o outro. O preconceito dita o tom das críticas.

“A rejeição ao funk vai além dele como um gênero musical, mas uma rejeição ao que ele representa, de onde vem, às pessoas que majoritariamente o produz”, afirma a especialista sobre o gênero que é composto de jovens, negros e periféricos. “Querem que o que vem das favelas seja esquecido e limitado”, diz.

Sob um recorte de gênero, as críticas são sobre a imagem da mulher brasileira, muitas vezes objetificada e submissa. Embora o comportamento esteja presente no cenário musical como um todo, o funk é visto como a raiz do problema.

Publicidade

“Argumentação fraca e frágil que é utilizada por quem só quer reproduzir discurso para negar o funk como movimento cultural, social, musical e mercadológico. Claro que temos músicas que ainda colocam a mulher no papel de objetificação, mas isso não é uma problemática do funk, mas da ideologia sexista entranhada na sociedade”, defende a escritora.

A importância de ter mulheres no funk

A escritora cita o caso de Valeska Popozuda, também descrito no livro, ao explicar como mulheres podem se empoderar individualmente e coletivamente através das canções. “Ela (Valeska) conta que passou a receber cartas de mulheres falando que se libertaram de relacionamentos abusivos depois de acompanhar ela”, conta a pesquisadora. Mas esses temas não são tão novos. Segundo a autora, eles estão presentes desde os anos 90, ainda que com pouca visibilidade.

“Acredito que todas as MCs, sejam mais famosas ou não, têm grande importância nesse processo. Destaco algumas no livro como Verônica Costa, Deize Tigrona, Tati Quebra Barraco, Valeska, Carol de Niterói, Rebecca, Ludmilla e Anitta”, cita Tamiris alguns exemplos. Todas influenciaram nessa faceta faixa rosa do gênero musical.

Músicas de Carol de Niterói, JoJo Todinho, Dricka entre outras cantoras também falam sobre o corpo negro. No funk, mulheres negras têm seus corpos e belezas enaltecidos, auxiliando na aceitação do corpo como possuidor de beleza, sensualidade e orgulho, diz Tamiris.

Apesar da forte presença da mulher como interprete do funk, a autora defende que a consolidação delas nesse espaço ainda está em processo. “Ainda precisamos ocupar muito mais espaços, em todo o ecossistema do cenário musical, não só com mulheres intérpretes, mas também compositoras, DJs, músicas entre outras com mais reconhecimento”, afirma.