Dinheiro e Carreira

Os desafios de mulheres em profissões que foram convencionadas como sendo “de homens”

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Profissionais contam suas experiências e falam sobre o preconceito voltado para mulheres que atuam em áreas majoritariamente masculinas

Atualizado em 11.08.22

Não é de hoje que as mulheres vêm conquistando espaço no mercado de trabalho. A luta pela equidade trabalhista vem sendo travada desde a Revolução Industrial, quando a mão de obra feminina foi solicitada pelas fábricas em prol da redução das despesas. De lá para cá, muitas conquistas em relação aos direitos das mulheres foram realizadas, dentro e fora do mercado de trabalho.

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A mudança do papel da mulher como parte integrante da economia pode ser observada na estatística. De acordo com dados do IBGE, em 2019, 54,5% das mulheres brasileiras compunham o mercado de trabalho, ocupando as mais diversas posições profissionais. Inclusive aquelas socialmente convencionadas como sendo “masculinas”.

Aliás, foi pensando nessas mulheres que o Dicas de Mulher conversou com a engenheira mecânica Lays Gama, com a tech lead Michele Puretachi, com a jornalista esportiva Juliana Santana e com a engenheira civil Giselle Oliveira, para entender os desafios da conquista profissional de uma mulher em carreiras geralmente ocupadas em massa por pessoas do sexo masculino. Confira abaixo!

Trajetória profissional e estabelecimento na carreira

Sobre sua trajetória profissional, Lays Gama conta que nunca imaginou construir sua carreira como engenheira mecânica. Ela relembra que sempre desejou ser médica, mas, com a proximidade do vestibular, percebeu que aquela não era a profissão que fazia seu “coração bater mais forte”. Com isso, ela relata que a descoberta do interesse pela engenharia mecânica veio após um comentário de um amigo do ensino médio.

“Entrei para a Universidade Estadual de Maringá em 2010. Na minha sala, eram 39 homens e eu. Me chamavam de ‘o bendito fruto’”, ela relembra rindo. A partir de então, sua jornada profissional começou entre cursos, projetos de pesquisa, estágio, intercâmbio, especialização e mestrado. Há 8 anos nesse campo de atuação, a engenheira atualmente trabalha na área de projetos, “desenvolvendo produtos para outras empresas por meio do projeto em software de desenho 3D”. Além disso, ela conta que está iniciando um projeto voltado para “ensinar a outras mulheres e mães uma nova profissão, a de designer de peças em resina, por meio do Instagram @laysgama”.

A tech lead Michele Puretachi, formada em Ciência da Computação há 10 anos, conta que sempre foi uma criança criativa e que gostava de estudar. Na escola, ela relembra que sua matéria preferida era Matemática, afirmando até que chegou a pensar em seguir carreira na área. “Sempre gostei de resolver problemas, então era sempre uma grande diversão para mim o que quer que chegasse de novo nessa matéria”.

Entretanto, Michele Puretachi conta que, após o primeiro contato com um computador, ainda na adolescência, passou a pensar em uma graduação que envolvesse computação. “Entrei no curso de Ciência da Computação sem ao menos saber o que era uma linguagem de programação. Foi um grande choque no início, mas, como sempre na minha vida, de um desafio desses eu não podia desistir”, afirma. A partir do curso, a profissional revela que conseguiu um estágio na ZBRA Solutions, onde segue trabalhando até hoje.

Já a jornalista esportiva Juliana Santana conta que a carreira nessa área não foi sua primeira opção. Filha de pais separados, a profissional relata que seu sonho sempre foi ser jogadora de futebol. “Cheguei a entrar para a Portuguesa, fazer peneira com meninos, porém aos 15 [anos] tive que optar por largar tudo, trabalhar e ajudar minha mãe”, relembra.

A profissional conta: “Depois de quase 20 anos, decidi fazer um curso de jornalismo esportivo quando fui despretensiosamente chamada para participar de um canal do YouTube”. Atualmente, Juliana Santana é comentarista esportiva e compõe a equipe de apresentadoras do Mulheres em Jogo, um programa semanal de entrevistas com convidados.

Por sua vez, a engenheira civil Giselle Oliveira afirma que, desde os 15 anos, já sabia qual profissão iria seguir. Contudo, mesmo com o sonho de atuar nessa área, a profissional revela que teve alguns receios. “Principalmente por achar que, sendo mulher, nova e com cara de menininha, ninguém me levaria a sério”, explica.

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Atuante na área de projeto há 9 anos, a engenheira civil conta que começou a trabalhar no ramo aos 17 anos, tendo passado tanto por escritórios pequenos quanto por multinacionais. “Cheguei a coordenar uma equipe inteira de obras, até decidir focar 100% na minha escola de treinamentos online voltados a engenheiros e a arquitetos”, ela relata.

Existe machismo nessas profissões?

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Diante da construção social que divide as profissões a partir do gênero, não é difícil imaginar que haja preconceito voltado para mulheres em determinadas áreas de atuação, mesmo que atualmente muito se discuta sobre o assunto. As 4 entrevistadas, por exemplo, em ramos profissionais diferentes, revelam já terem vivenciado situações de machismo, como é o caso de Juliana Santana. Ela afirma que sofreu preconceito diversas vezes no meio digital e pontua: “Nós, mulheres, temos que provar todos os dias o nosso valor, no meio do futebol talvez mais ainda”.

Lays Gama relata que, apesar de nunca se permitir ser impactada pelo olhar do outro sobre ela, vivenciou uma situação que a marcou com um dos docentes na graduação. “A gente pensa que, se passar por algo assim, vai falar e fazer isso e aquilo. Mas a verdade é que, quando se é pega de surpresa, por alguém que deveria ser apoio, você se desestabiliza, perde o rumo. Eu, superfeminista, fiquei totalmente sem jeito”, ela relembra.

A engenheira civil Giselle Oliveira conta que, mesmo tendo passado por muitas empresas onde suas líderes eram mulheres, sofreu assédio moral de um colega de trabalho. “Foi uma situação que me abalou muito na época e me fez repensar sobre qual caminho queria seguir nessa profissão. Foram meses escutando coisas horríveis em uma empresa que, para muitos, seria um sonho conseguir uma vaga”, ela afirma.

Michele Puretachi, há 10 anos na área da tecnologia, conta que sempre esteve cercada por homens, mas que estes sempre demonstraram respeito. Apesar de haver alguns casos de machismo, ela pontua: “As pessoas [envolvidas] vieram a mim posteriormente para pedir desculpas”.

Principais desafios das mulheres no trabalho

Em relação aos desafios de mulheres em profissões consideradas erroneamente como masculinas, as entrevistadas também levantaram questões interessantes para refletir. Giselle Oliveira, por exemplo, pontuou sobre a dificuldade e a importância da mulher se impor no mercado de trabalho. “Sinto que precisamos ter mais garra que homens para sustentarmos nossos argumentos […]. Infelizmente é uma área em que precisamos nos impor, ter mentalidade forte e firme para sermos notadas”, diz a engenheira civil.

Por outro lado, Lays Gama relata sobre o desafio de gerar conexão, tanto com o público como também com os clientes. Ela conta que, além de sua profissão, também é mulher, mãe e esposa. E, com isso, afirma: “Sendo essa área uma área mais masculina, me vi tendo que interpretar uma personagem para conseguir gerar conexão com o público. Eu não poderia de fato mostrar quem eu sou, o que eu faço na maior parte do meu tempo, porque isso infelizmente não vai de encontro aos interesses da maioria dos [profissionais] homens”.

Essa afirmação da engenheira mecânica evidencia uma colocação de Michele Puretachi. A tech lead conta que, mesmo estando em ótimo ambiente de trabalho e se sentindo acolhida pelos profissionais à sua volta, por um tempo, foi tomada pelo sentimento de não pertencimento da profissão. “O sentimento de não pertencer me assombrou por alguns anos e demorou para eu perceber a importância do que eu fazia e como as pessoas me viam”.

Além disso, a jornalista esportiva Juliana Santana pontua que, em sua área, o contato com os entrevistados costuma ser um desafio. Em suas palavras, “é difícil para a mulher tentar um contato para entrevista e afins, inicialmente pensam que temos propensão em ocorrer um convite diferente”.

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Representatividade feminina nessas áreas

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Todos os pontos mencionados acima levam à reflexão da importância da desconstrução social que envolve a temática – e, claro, da representatividade feminina nas mais diversas áreas de trabalho. Aliás, sobre isso, Michele Puretachi e Giselle Oliveira, das áreas de ciência da computação e engenharia civil, respectivamente, relembram que, em suas turmas, menos de 10% dos alunos eram mulheres.

Ambas afirmam que isso tem mudado com o passar dos anos. “Temos visto mais e mais mulheres se candidatando para vagas de programação, QA e outros setores”, pontua Michele Puretachi. Enquanto a engenheira civil afirma que “atualmente aumentou muito o número de mulheres na profissão”.

Na profissão de Juliana Santana, a atuação feminina também tem crescido, como ela mesma revela. “Falando do jornalismo esportivo e influencer, sim, hoje temos uma crescente de mulheres, com muito conhecimento e dispostas a fazer diferente”. Contudo, de acordo com Lays Gama, o mesmo não pode ser dito sobre a engenharia mecânica. Segundo ela, mesmo com o aumento das mulheres na área, “hoje na faculdade entram mais meninas por turma, mas, quando muito, 5 em uma turma de 40”.

Além disso, ao serem questionadas sobre a importância de haver mais mulheres nessas áreas, as profissionais foram categóricas em suas respostas. Lays Gama, por exemplo, comentou sobre a necessidade da mudança da perspectiva social que envolve esse assunto. “Mais mulheres atuando nessa e em outras áreas majoritariamente ocupadas por homens fazem com que a perspectiva mude e a nossa presença se normalize cada vez mais”.

Michele Puretachi pontuou duas questões distintas e importantíssimas não só para a área da tecnologia. “Primeiramente, tem a questão de identidade. Ter mulheres ao seu redor com as quais você possa se identificar e tomar como referência contribui muito para o desenvolvimento pessoal das mulheres nessa área. Há também a questão da diversidade: quanto mais diversidade, mais pontos de vista diferentes nós temos para um problema”.

Juliana Santana ressaltou sobre a necessidade da quebra de tabus relacionados a essa divisão de gênero. Ela finalizou afirmando: “Podemos estar onde bem quisermos, temos total capacidade para tal”. Giselle Oliveira, por sua vez, afirmou: “Mostrar a nossa força em uma das áreas mais importantes para o desenvolvimento do país é fundamental para ocuparmos mais vagas em cargos importantes”. Consequentemente, isso também oferece salários melhores às profissionais.

Conquistas profissionais marcantes

Compreender uma parte da jornada profissional dessas mulheres incríveis e os desafios por elas enfrentados, com toda certeza, é inspirador, mas não para por aí. As batalhas travadas e os desafios superados geraram conquistas, e elas também falaram sobre isso.

Lays Gama conta que sua maior conquista foi alcançar objetivos profissionais provando que “gênero não define a capacidade de ninguém”. Apesar de sentir, muitas vezes, que precisa ter mais força emocional que muitos homens, conseguiu, de certa forma, mostrar que “a visão deles sobre alguns aspectos está equivocada”.

Para Michele Puretachi, a satisfação dos clientes e os projetos realizados entram para a lista de conquistas. Mas, de acordo com ela, “ter conquistado o respeito no quesito técnico de pessoas que eu admiro e que fizeram parte da minha formação, com certeza, é a cereja no topo da minha carreira”.

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Juliana Santana afirma que, no jornalismo esportivo, sua maior conquista hoje é “ter o reconhecimento das pessoas e conseguir fazer boas entrevistas com grandes personalidades”. Já Giselle Oliveira ressalta que “poder inspirar e incentivar outras mulheres”, além de ter a sua própria empresa aos 26 anos, é uma de suas grandes conquistas.

Psicóloga apaixonada por literatura e psicanálise. Acredita que as palavras, escritas ou faladas, têm o poder de transformar.