“Luto pela nossa existência todos os dias”, diz indígena Márcia Kambeba

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Atualizado em 27.04.22

Márcia Kambeba / Arquivo Pessoal

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Em 24.03.22 às 16:35

Márcia Kambeba é um importante nome no ativismo indígena e ambiental no Brasil. Ela é de etnia Omágua Kambeba e nasceu em uma aldeia de ticunas. Aos oito anos, mudou-se para São Paulo de Lourenço.

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Além disso, é formada em Geografia pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e, atualmente, é doutoranda em Estudos Linguísticos na Universidade Federal do Pará (UFPA).

Também é escritora. Seu livro de poemas Ay kakyri Tama – Eu moro na cidade reflete sobre o cotidiano indígena, permeado de memórias, ensinamentos, mas também de violência contra os povos indígenas e conflitos advindos da vida na cidade e a forma urbana de pensar a vida.

Lutas de Márcia Kambeba como mulher contemporânea

As frentes de atuação de Kambeba são amplas e isso é de extrema relevância, visto que ela dá voz às mulheres, indígenas e representa as lutas, preconceitos e injustiças pelos povos de fato originários do Brasil.

Em entrevista exclusiva ao Dicas de Mulher, a escritora salienta que suas lutas são muitas e diversas. Elas passam antes de tudo por ser uma mulher e indígena:

“Luto pela nossa existência todos os dias na aldeia e na cidade. Nisso, está a luta por nossos direitos como mulher indígena a um melhor atendimento à saúde, educação e moradia digna, respeito a nossa identidade, cultura e diversidade cultural”.

O acesso a direitos básicos deve ser garantido às mulheres indígenas. Todo e qualquer cuidado deve considerar a valorização e a articulação de saberes e práticas indígenas, de modo a promover o protagonismo das mulheres e meninas.

A ativista ainda menciona também que, em sua jornada, um ponto crucial é o respeito e o direito de viver seus territórios para dar continuidade ao legado indígena no Brasil:

“Luto pelo respeito aos nossos saberes ancestrais e valorização dos nossos corpos nas Universidades, respeito a mãe terra, e o direito a vivermos em nossos territórios mantendo o legado deixados por nossos ancestrais”.

Márcia Kambeba é uma mulher inspiradora e de resistência, em um país que só na Pandemia de Covid-19 intensificou as invasões em territórios indígenas, explorou recursos de forma ilegal, danificou o patrimônio natural e, ainda, assassinou 182 indígenas só em 2020, conforme relatório do Conselho Indigenista Missionário.

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No Brasil, há pouco espaço para vozes indígenas

Outro ponto levantado pela escritora são as poucas oportunidades para espaços de escuta, onde vozes indígenas possam ser ouvidas e ecoadas. E isso vale inclusive para literatura, bem cultural que ela produz.

As dificuldades estão na cidade nos oportunizar mais espaços de escuta para que nosso eco possa se fazer ouvir para mais pessoas, valorização de nossos saberes, e a utilização de todas as formas de produto que elaboramos na intenção de criar espaços de diálogo seja nas escolas, universidades e outros ambientes. E nesses produtos está a literatura indígena.

Essa dificuldade de ter espaços nos quais se ouça falar sobre saberes e culturas indígenas promove um silenciamento e apagamento. Com isso, o preconceito impera e, cada dia mais, violências são sofridas.

Ainda sobre ecoar vozes, Kambeba fala das referências que presentes em seus posicionamentos, escritos, estudos e vivências: “minha avó/mãe que me fortaleceu com seu exemplo de mulher guerreira; na literatura Cora Coralina e Henriqueta Lisboa; na Educação tem Sueli Tourinho de Souza que me apresentou a arte na educação transformadora”. Finaliza agradecendo a todas as caciques e pajes mulheres das aldeias por onde passou.

A representatividade feminina é um assunto muito importante, sobretudo quando se fala em diversidade. Que tal entender mais sobre isso e conhecer mulheres de diversas áreas?

Assuntos: Entrevistas