Luciana Temer, diretora-presidente do Instituto Liberta, pontua “A violência sexual tem raiz no machismo”

Advogada e militante dos direitos humanos relata a repercussão do #AgoraVcSabe, levante contra a violência sexual sofrida por crianças e adolescentes

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Em 20.05.22 às 9:30

Luciana Temer / Arquivo Pessoal

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Em 20.05.22 às 9:30

Ao falar em violência sexual contra crianças e adolescentes, é comum vir à mente a ideia de que o abusador é uma ameaça distante, e não alguém conhecido. Contudo, o cenário muitas vezes não é esse. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2021) mostra que 82% dos casos de estupros de meninas e meninos são cometidos por conhecidos e que 86% das vítimas são meninas. Levantar esse assunto e divulgar esses dados são alguns dos primeiros passos para um diálogo de enfrentamento dessa violência.

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Diante disso, o Dicas de Mulher entrevista Luciana Temer, formada em Direito pela PUC-SP, mestra e doutora em Direito Constitucional pela mesma instituição. Ela é diretora-presidente do Instituto Liberta, organização não governamental que, na última quarta-feira (18), promoveu o levante #AgoraVcSabe, por meio de uma passeata virtual, para romper o silêncio da violência sexual contra crianças e adolescentes.

Luciana Temer também atua como professora da graduação e pós-graduação da PUC-SP, foi secretária de Assistência e Desenvolvimento Social do Município de São Paulo, coordenadora da Assistência Jurídica da Fundação Prefeito Faria Lima, secretária de Juventude, Esporte e Lazer do Estado de São Paulo e delegada de polícia em defesa da mulher em Osasco.

Com vasta experiência na área de Direito e enfrentamento da violência, a diretora-presidente do Liberta fala ao Dicas de Mulher não só sobre o instituto e suas ações, mas também a respeito da importância de falarmos sobre abuso e exploração sexual no Brasil, um país permeado pelo machismo. Confira!

Dicas de Mulher – Como se deu a criação do Instituto Liberta e seu trabalho com o enfrentamento da exploração sexual de crianças e adolescentes?

Luciana Temer – O Instituto Liberta nasce no final de 2016 do desejo de um filantropo, Elie Horn, que, como membro do Giving Pledge, assumiu o compromisso de doar parte do seu patrimônio pessoal para causas sociais e elegeu como grande missão combater a exploração sexual de crianças e adolescentes no Brasil. O Liberta ampliou a sua missão para combater toda forma de violência sexual de crianças e adolescentes no Brasil.

A sociedade brasileira ainda confunde abuso com exploração sexual. Como identificar essas diferenças?

Na verdade, a sociedade não enxerga da mesma forma as vítimas de violência sexual. Quando se trata do estupro de vulnerável, que é o sexo com menores de 14 anos, há uma percepção de que a menina ou o menino nessa situação estava indefesa e, portanto, é vítima e merece apoio, ajuda e denúncia. Já quando a vítima recebe trocas pelo sexo: dinheiro, comida, passeios etc., e é isso que caracteriza a exploração sexual, a figura da vítima desaparece e a sociedade culpabiliza crianças e adolescentes colocadas nessa situação.

Por que falar a respeito da exploração sexual de jovens ainda é um tabu no Brasil?

Porque sexo no Brasil ainda é um tabu. As pessoas não falam a respeito, os pais têm dificuldade para falar com seus filhos e as escolas ainda não acharam o caminho. É preciso deixar claro que violência sexual não tem nada a ver com sexo. Sexo exige consentimento e criança não consente. Violência sexual é uma perversidade e é preciso falar que isso existe. Se os adultos se calam, as crianças não sabem o que está acontecendo com elas.

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O machismo impera na sociedade brasileira em diversos contextos. Seria ele uma das dificuldades para criminalizar esse tipo de violência e por quais razões?

A violência sexual tem várias raízes e uma delas é o machismo. Eu destaco também a pornografia. Temos visto que adolescentes e jovens conhecem sexo por meio de filmes fantasiosos, que colocam a mulher numa situação de submissão e violência. Isso transportado para as relações reais acarreta uma geração que não entendeu o desenvolvimento de sua sexualidade como natural e acabam não estabelecendo relações sexuais saudáveis.

Como se deu o surgimento do levante #AgoraVcSabe?

O Liberta há 5 anos trabalha com foco em conscientização e sensibilização para que a sociedade entenda a real dimensão do problema. Acreditamos que falar sobre violência vivida ajuda outras pessoas a também reconhecerem e falarem que foram vítimas. Foi assim que surgiu o levante, da necessidade de quebrar o silêncio e ser a última geração que se calou sobre a violência vivida. O #AgoraVcSabe não é sobre a história pessoal da vítima, mas sobre a força do coletivo. Todo mundo junto falando as mesmas frases, admitindo que foram vítimas.

O #AgoraVcSabe promoveu uma passeata virtual, com apoio de famosos e diversos veículos de mídia. Como foi a repercussão e resultados dessa ação?

Foi uma ação muito importante que teve o apoio de milhares de mulheres e homens, além de mais de 50 Instituições sociais e empresas que apoiam causas de direitos humanos. Durante 1h30 milhares de pessoas passaram na tela da live repetindo: “violência sexual contra crianças e adolescente é uma realidade, eu fui vítima e agora você sabe”.

A apresentadora Angélica revelou que sofreu abuso sexual na infância e contou sua história ao #AgoraVcSabe. Ver figuras como Angélica falar abertamente sobre violência sexual infantil pode encorajar mais mulheres a contarem suas histórias também?

Falar é a coisa mais importante e quando um fala, chama outro, encoraja e faz reconhecer que também foi vítima. A apresentadora Angélica é embaixadora do #agoravcsabe, além de revelar que foi vítima e que só reconheceu quando me ouviu falar sobre todas as formas de violência sexual, ela também passou a mobilizar as redes sociais dela e usar da influência que tem para encorajar pessoas a participarem do levante.

A exploração sexual de crianças e adolescentes é uma violação de direitos humanos. Quais seriam os caminhos mais efetivos para combater esse problema no Brasil?

Estamos, em primeiro lugar, quebrando o silêncio. Quando a sociedade reconhecer que é um problema, vai lutar por políticas públicas de enfrentamento. Uma das primeiras formas de enfrentar é pelo conhecimento. Muitas crianças não sabem que foram vítimas. A educação é o caminho para mostrar que o desenvolvimento sexual é natural do ser humano, o que acontece em cada fase da vida e o que não deveria acontecer, no caso submeter crianças e adolescentes à violência sexual.

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