“Limita as mulheres ao espaço doméstico”, Marina Solon sobre mãe impedida de entrar em bar

A jornalista Marina Solon, mãe e feminista, acredita que o mundo não é feito para crianças.

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Atualizado em 06.05.22

Marina Solon / Foto: Alan Sousa

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Em 11.04.22 às 14:57

Marcelle Cerutti, fotógrafa e mãe de uma criança de cinco anos, foi impedida de entrar no bar Miúda, em Santa Cecília, no centro de São Paulo. Marcelle ia comemorar o aniversário de uma amiga e chegou ao bar às 17h. Em seu relato, comenta que não pretendia ficar muito tempo no bar e estava só de passagem e não imaginava que passaria por esse constrangimento.

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Indignada com a situação, Marcelle postou nas redes sociais sobre o ocorrido e como se sentiu a respeito do impedimento de entrar no bar com seu filho. Toda a repercussão fez o bar se posicionar nas redes sociais, que manteve sua postura inicialmente, mesmo com tantas críticas. No entanto, na última quinta-feira (7), o bar voltou atrás na decisão e publicou um vídeo de desculpas.

Considerando que o Brasil, segundo o Data Popular, possui cerca de 20 milhões de mães solo, é inconcebível que elas sejam impedidas de circular nesses ambientes.

Diante do ocorrido, o Dicas de Mulher conversou com Marina Solon, que é jornalista, doutoranda de Comunicação pela Universidade Federal do Ceará e mãe da Carolina de cinco anos. Além disso, é uma mulher feminista, cujo lugar no mundo é de luta por uma sociedade livre das desigualdades e opressões de gênero. É leitora assídua, gosta de ler livros, o mundo e as pessoas. Também é escritora, porque escrever também é uma forma de leitura.

Dicas de Mulher – Enquanto mulher e mãe, você se sente acolhida em espaços públicos ou privados?
Marina Solon – Não me sinto. Esses espaços não são pensados para nós, o mundo não é feito para crianças. E pra que nós estejamos nesses espaços, é preciso que estejamos com nossas crianças, que são seres em desenvolvimento e dependem do nosso cuidado. Mas em espaços públicos há uma proibição velada ao barulho das crianças, ao comportamento que é próprio delas, com ruídos, com bagunça.

Você já teve receio ou foi mal recebida em algum lugar por estar acompanhada por seu filho?
Nunca fui mal recebida, mas o receio é uma constante. Os olhares que me lançam quando estou com minha filha, e ela se comporta de forma barulhenta, sempre me deixam muito constrangida.

Qual sua opinião a respeito do caso da mãe que foi impedida de entrar no bar com seu filho?
Acho terrível, desanimador. Impedir o acesso das crianças é também impedir que mulheres frequentem espaços de convivência. Isso limita as mulheres ao espaço doméstico, e limita muito as nossas potencialidades em ocupar, ver o mundo, estar no mundo, mudar o mundo.

Sendo mãe, você se sente representada dentro do movimento feminista?
Eu construo o movimento feminista. Sou agente ativa dele, então me sinto representada porque entendo que é um movimento orgânico, feito por pessoas reais, sem cânones. Não existe um totem, um ícone. O feminismo somos nós lutando pra existir num mundo menos desigual e violento todos os dias.

Marina Solon é uma mulher e mãe que busca ocupar espaços dentro de uma sociedade que exclui crianças. Além de Marina, conheça a oraculista Paula Mariá Riemer, que trava lutas diárias para ter sua família reconhecida em ambientes públicos.

Assuntos: Entrevistas