Juma Marruá é a heroína que o Brasil precisa

Entenda por que a novela "Pantanal" pode ser considerada a "Cem anos de solidão" da TV brasileira

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Em 07.05.22 às 9:30

Rede Globo / Divulgação

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Em 07.05.22 às 9:30

A saga de um patriarca que chega a um local isolado para construir seu espaço no mundo, cheia de trauma familiar, realismo fantástico e nomes que passam de geração em geração. Poderia ser “Cem anos de solidão”, mas é “Pantanal”. Guardadas as devidas proporções da brincadeira, a novela da Globo consegue capturar muitas características da obra-prima de Gabriel García Márquez ao mesmo tempo que adapta as tramas da versão original de 1990 para a realidade atual sem perder a essência da trama.

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Ser a protagonista e personagem mais interessante em meio a uma história que envolve gente virando bicho, vingança, muda que não é muda, famílias escondidas, rivalidade entre irmãs, ambições a digital influencer, filhos perdidos e tantas personagens complexas e ricas é uma tarefa difícil, mas que Juma Marruá cumpre com muito sucesso.

O papel de “mocinha de novela” geralmente vem acompanhado de características estereotipadas, como sofredora, boazinha e apaixonada, Juma é tudo isso e ao mesmo tempo não é só isso, o todo é maior que a soma das partes no seu caso. Uma demonstração de talento e boa construção do autor, da equipe de produção e da atriz Alanis Guillen, que poderiam ter caído em uma abordagem clichê do arquétipo da mulher selvagem, mas que constroem uma mulher complexa, muito forte e também com suas fragilidades.

Quem é Alanis Guillen?

A atriz de 23 anos, nascida em Santo André, São Paulo, recebeu seu nome em homenagem à cantora Alanis Morissete, trabalha desde os 3 anos fazendo publicidade e é formada pela Escola Nacional de Teatro de sua cidade natal. Seu primeiro papel na TV, e o único antes de “Pantanal”, foi Rita, protagonista de “Malhação: Toda Forma de Amar”.

Declaradamente feminista, é engajada em causas sociais, como a defesa do meio ambiente e já se posicionou várias vezes em oposição ao fascismo e ao governo Bolsonaro. Afirma considerar importante ser uma pessoa que dá visibilidade à causa LGBT e servir de referência para outras pessoas se identificarem. Sobre sua sexualidade, declara em suas redes sociais que é múltipla: “se tem um coração que se conecta com o meu, é com essa pessoa que vou me relacionar”.

Para a construção de Juma, tentou entender a personagem em sua primeira versão, mas também sempre lembrando que está em uma época diferente, em um Brasil diferente, e que inevitavelmente a sua Juma será uma versão sua, a partir das suas experiências: “Tentar fugir deste comparativo para ir para este lugar onde a Juma quer me levar”. Para se integrar mais à personagem, a atriz, que era vegana, voltou a comer carne branca e começou a praticar kung fu, mas a visita ao Pantanal foi a parte mais fundamental para se sentir realmente como Juma Marruá.

É gente ou é bicho?

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A humanidade da família de Juma vai sendo roubada por um grande ciclo de violência que os obriga a se isolarem escondidos no Pantanal. Após perder seu filho mais velho, Chico, assassinado a mando de um latifundiário que se apossa das terras em que a família vivia, Gil e Maria Marruá se refugiam no Pantanal, onde nasce Juma. Mas a violência os alcança e ela acaba sozinha, com pouco contato com outros seres humanos e apenas com os ensinamentos da mãe.

De Maria Marruá, Juma herda suas principais características: ser autossuficiente, não confiar em ninguém, a ligação com a natureza e virar onça como mecanismo de proteção.

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Juma é selvagem, arisca e desconfiada e ao mesmo tempo doce, acolhedora e ingênua. Tem o costume de receber visitas indesejadas com uma espingarda na mão, mas também aceita a Muda em sua casa, sem saber que é a responsável pela morte de sua mãe, e faz o possível para integrá-la à sua vida. A pedido do Velho do Rio, cuida de Joventino quando é picado por uma cobra, mesmo nunca tendo o visto antes e correndo o risco de sofrer represálias de José Leôncio, poderoso fazendeiro e pai do rapaz.

A falta de traquejo social é, em alguns momentos, alívio cômico, mas o espectador é levado a rir com Juma e não a fazer chacota de seu estilo caipira. A relação com Muda, sua primeira amiga, gerou frases como “não fala nada, Muda” e “eu gosto da Muda porque ela não é muito de falar” que fizeram sucesso na internet. O afeto entre as personagens pode quebrar um ciclo de violência imposto às suas vidas.

Ela não precisa ter contato com outras pessoas, porém se abre à aproximação de personagens que não têm interesse em “consertá-la” ou “domá-la”, mas em entendê-la e aceitá-la como é, ajudando-a a partir de suas demandas e interesses. Tem boa convivência com Jove e Tibério, que fogem do estereótipo de masculinidade agressiva e machista presente em outros homens que a abordaram anteriormente.

Mulher macho e homem fêmea

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Sua relação com Jove é, também, um ponto interessante da trama. O primeiro beijo entre o casal acontece no capítulo 32, ambos foram desenvolvidos como personagens independentes antes de se encontrarem e começarem a construir seu relacionamento, que começou por um interesse mútuo antes de chegar ao amoroso. A relação com Juma também expõe as fragilidades do personagem, ambos têm muito que aprender um com o outro.

A sexualidade de Juma partiu de sua própria curiosidade e não de algo imposto a ela. A primeira vez que vira onça é para se defender de um homem que quer estuprá-la, mas isso é associado à violência e não à sexualidade. Apesar de alguns pontos em que Jove demonstra ir longe demais para o gosto dela, como quando decide tomar banho de rio nu sem avisá-la antes, e chegar aos limites do consentimento, de maneira geral, é escrito como disposto a respeitar seu tempo, como quando ela pede que ele a ensine a ler.

A relação dos dois também desafia estereótipos de gênero. José Leôncio fica muito confuso com a dinâmica “mulher macho” e “homem fêmea” do casal, pois não entende como o filho pode ser um homem se foge à sua concepção machista de masculinidade e também tem dificuldades com a independência de Juma, a quem acha que deviam “domar”. São personagens com sensibilidades complexas e que se encontram um no outro.

A heroína brasielira

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Há, obviamente, pontos em que a trama ou a personagem poderiam ser melhor abordadas, nenhuma obra é completamente perfeita, mas é importante destacar que a existência de uma personagem protagonista feminina segura, complexa e que não precisa ser mudada, mas que toma a decisão de se abrir para o mundo e para o amor sem deixar sua essência e a partir de sua própria curiosidade. E, principalmente, que procura viver em harmonia e respeitando a natureza em um bioma tão ameaçado como o Pantanal. No multiverso do realismo fantástico latinoamericano, Juma é uma grande representante de heroína para o Brasil.

Se a Rede Globo pretende seguir o caminho hollywoodiano de revisitar clássicos, que seja com esse esmero e qualidade, atentos às mudanças da sociedade. Há outras atrizes se destacando na novela, confira aqui quem são.

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