“Humana, incapaz e inválida!”, Barbara Rodrigues sobre estar na linha de frente na pandemia

A enfermeira e socorrista do SAMU, Bárbara Rodrigues, relata os desafios em seu trabalho no combate à pandemia de Covid-19

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Atualizado em 27.04.22

Bárbara Fernanda Rodrigues / Arquivo Pessoal

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Em 05.04.22 às 15:06

Profissionais de saúde do mundo inteiro enfrentaram momentos difíceis em suas profissões durante o período mais crítico da pandemia de COVID-19. Encarar o desconhecido, os plantões exaustivos e a falta de recursos e equipamentos suficientes para atender aos pacientes no Sistema Público de Saúde (SUS) foram alguns um dos desafios encarados.

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O Dicas de Mulher conversou com Bárbara Fernanda Rodrigues para nos contar a sua experiência trabalhando na linha de frente no combate à pandemia. Mãe de dois filhos, ela se vê em tripla jornada, dividindo seu tempo com o cuidado da família, seus expedientes como enfermeira do posto de saúde no município de Umuarama-PR e seu posto de socorrista do SAMU.

Confira a entrevista na íntegra:

Dicas de Mulher – Há quanto tempo trabalha no SUS e como tem sido lidar com as adversidades em sua carreira?

Bárbara Rodrigues – Estou há cerca de 15 anos atuando na área. A experiência foi e tem sido gratificante, levando em conta o prazer que sinto em cuidar, embora as dificuldades existentes na saúde pública em todo o país, e isso independente do Estado em que se reside. O fato é que trabalhar com amor faz a diferença na vida do profissional, bem como na vida do paciente quando recebe um bom atendimento. E é o que sempre busco realizar, mesmo enfrentando dificuldades, como foi na pandemia, em que a falta de materiais de extrema importância trouxe dificuldades para um bom atendimento. Dei o meu melhor sempre!

Sabendo de todos os desafios que você tem que enfrentar enquanto mulher, profissional e mãe, como foi trabalhar nesse período da pandemia?

O desconhecido sempre intimida, mas o conhecimento e a experiência, além do amor à profissão, falam mais alto e vencem o medo. Principalmente quando existe a necessidade de um atendimento rápido e cauteloso a um paciente que apresenta quadro instável. Tenho feito a minha parte dentro do que me é permitido: colaborar com a equipe para que houvesse uma resposta positiva aos quadros dos pacientes.

Esse foi um dos períodos mais difíceis para muitos profissionais da saúde, famílias e vítimas da Covid-19. Como você se sentiu durante esse período da pandemia?

Humana, incapaz e inválida! Humana porque embora acreditemos que possamos fazer “tudo”, realidades assim nos prova que não podemos. Incapaz porque, se falta material para realizar o mínimo e o básico, de nada adianta todo o conhecimento e experiência. Inválida porque não consegui. Não tinha leito decente, e a minha jornada dupla de trabalho não fez a diferença no quadro e no atendimento daqueles que estavam ali e evoluíram a óbito.

Com as longas horas de trabalho e diversos casos que passaram por você. Teve algum que foi marcante durante esse período?

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Sim, há uma paciente que deu entrada na UTI para ser monitorada, um quadro positivo para covid com diabetes descompensada. Ela estava consciente, orientada e bem humorada, o que animava a equipe que a recebeu. Pacientes comunicativos e bem humorados assim em uma UTI sempre marcam a gente. No segundo dia de internação, a paciente se queixou de visão turva e cefaléia. Após exames de ressonância e tomografias de crânio, diagnosticamos um pequeno sangramento subdural. Infelizmente, o quadro só piorou nos dias seguintes, e a paciente já não conseguia verbalizar com a equipe nem manter contato com a família por chamada de vídeo. A hemorragia comprometeu a fala, a visão e os movimentos, evoluindo para perda de consciência e foi necessária a intubação. Os exames diagnosticaram hemorragia em vários pontos cerebrais. Mesmo com todas as tentativas para reverter o quadro, a paciente não resistiu. E isso comoveu não só a mim, mas toda a equipe que cuidou dela.

Rotinas de profissionais como Bárbara e tantas outras mulheres que dedicam seu tempo para cuidar do próximo, em um sistema de saúde pública precário, são exemplos de profissionais que merecem ter suas histórias contadas e reconhecidas.

Assuntos: Entrevistas