Corpo é casa: como viver em um lar que você odeia habitar?

Entenda a dismorfia corporal e conheça a história de Sarah Moreno, que convive com o transtorno e busca alternativas para o autocuidado

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Atualizado em 27.04.22

Sarah Moreno / Arquivo Pessoal

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Em 06.04.22 às 15:31

A cantora Billie Eilish tem feito declarações sobre a difícil relação que viveu com seu corpo durante muito tempo, chegando a tomar remédio para emagrecer, deixar de comer e usar roupas para esconder sua forma física. A artista sofre de dismorfia corporal, transtorno que gera uma percepção distorcida da própria imagem, afetando autoestima e socialização.

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Entenda o que é a dismorfia corporal

Conforme a psicóloga Lilian Vasconcelos Félix (CRP 04/32367), a dismorfia corporal (Transtorno Dismórfico Corporal) consiste na preocupação excessiva com o corpo, na inquietação com pequenos detalhes do corpo e “defeitos” mínimos ou inexistentes. Esse transtorno se manifesta na forma de comportamentos repetitivos e obsessivos, afetando relações com amigos, família e até mesmo no trabalho, nos estudos e vida amorosa.

Ficar se comparando na frente do espelho, examinar os defeitos constantemente e procurar constantemente por cirurgias plásticas são alguns dos sintomas da dismorfia corporal. Devido à preocupação e obsessão constante com a preocupação do corpo, esse transtorno é classificado como TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo).

As causas das dismorfia corporal podem ser múltiplas, tais como: hereditárias, psicológicas e sociais. Sendo assim, é necessário um diagnóstico de um profissional para avaliar cada caso.

“Meu corpo é minha casa. Como estar em um lar em que você odeia habitar?”

Sarah Moreno / Arquivo Pessoal

O Dicas de Mulher conversou com Sarah Moreno, 33 anos, que convive diariamente com a dismorfia corporal, além de ser diagnosticada com TDAH. Ela comenta sobre a necessidade de buscar um espaço acolhedor, lúdico, inclusivo e autêntico no mundo. Veja a entrevista na íntegra a seguir!

Dicas de Mulher – Quais foram os principais sinais que te levaram a perceber que sua imagem não correspondia à imagem vista pelos outros?

Sarah Moreno – Se eu tentar puxar pela memória, que é bem ruim por sinal, não saberia dizer com precisão. Porém, recordo que desde muito pequena, minha aparência sempre foi um grande incômodo para mim. Recebia muitas críticas do meu tio, em relação ao meu corpo, desde muito pequena. A violência de gênero já começa desde cedo, quando alguém com muita autoridade diz a uma criança, inúmeras vezes, que sua aparência é inadequada. Aos 16 anos, as coisas se agravaram, em Portugal eu sofria muito bullying por ser brasileira, vivia em um ambiente não saudável, morando com esse mesmo tio que ainda falava sobre meu corpo. Foi quando as coisas se agravaram, e eu simplesmente não comia. Cheguei a ter convulsões após tomar um medicamento para gripe, estava sem glicose no sangue, pesando 50 kg, eu tenho 1.74, estava muito abaixo do peso, ninguém notava pelas roupas pesadas. Eu não tinha anorexia, sabia que estava magra, eu simplesmente me odiava e não queria comer, de alguma forma me punia. De volta ao Brasil, comecei a ir em uma psicóloga, o tema central era sempre a minha aparência, eu me sentia fútil.

Afinal, é isso que as pessoas te dizem quando você tenta expor que não se sente confortável com sua imagem: “Você precisa se aceitar”, “Você não é feia!”. Considerava que minha mãe ou amigas falavam isso por dó ou porque me amavam. A imagem que eu olhava no espelho não era de uma pessoa bonita, muito pelo contrário, não havia absolutamente nada em meu rosto que eu gostasse.

As redes sociais tiveram impacto na forma como você enxergava sua imagem, seu corpo?

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As coisas foram piorando com as redes sociais, eu sabia todos os truques de imagem, pose, luz e maquiagem para esconder as imperfeições. Eu sei o preço e formas de cirurgias para todas as partes do corpo. Eu sonhava acordada em como eu seria feliz sendo bonita, não para buscar os olhares dos outros, e sim para encontrar a aceitação do meu. Todos dizem que aparência não importa, talvez seja verdade, mas meu corpo é minha casa. Como estar em um lar em que você odeia habitar?

Quando descobriu que tinha dismorfia corporal e como foi esse processo de diagnóstico?

Foi anos de ida e vinda ao psicólogo. Apenas quando fui internada na ala psiquiátrica, após um episódio depressivo grave, que cogitaram a Dismorfia Corporal. Eu tenho TDAH, sendo assim, como um dos sintomas deste transtorno é a baixa autoestima, a dismorfia corporal pode ser uma comorbidade agravada devido às críticas muito violentas que sofria. De qualquer forma, já faço terapia há três anos e alguns modos disfuncionais estão em processo de remissão, ou seja, os sintomas estão controlados.

De que modo a dismorfia corporal te afeta nas suas relações?
Ela afeta as relações com todos à sua volta, ainda que não seja consciente. Uma pessoa com DC ri, ama, tira foto, sai de roupa curta e cada um vive a dor a sua maneira, pode ser que tenha quem deixe de fazer, só é importante destacar não haver uma só forma. Para mim, sair à noite, ir à academia e lidar com pessoas bonitas é um dos processos mais dolorosos, pode parecer inveja, talvez seja mesmo, já que a inveja é um sentimento de falta. Sinto profunda vergonha em aparecer na rede social sem filtro, eu jamais apareceria. Também odeio fotos em grupo onde eu não tenha o controle absoluto da minha imagem, eu até tiro, só que não permito que fique marcada a foto em minhas redes. Quando eu estou com alguém, em um namoro, existe um profundo medo do abandono, do olhar para outra e o medo da pessoa perceber que eu sou muito feia e querer se afastar. Antigamente eu sempre tinha a sensação de ser um “monstro”, eu levava essa palavra para terapia. Não conseguia compreender como alguém podia ficar comigo. Ainda sinto isso, nos primeiros encontros eu morro de medo de ser uma decepção. Aprendi a ser fotogênica, para controlar a imagem que quero passar. Antigamente eu passava o dia todo pensando na minha imagem, sentia vergonha, chorava algumas vezes no dia, me olhava pouco no espelho ou excessivamente. Sempre fiz piadas com isso, o humor faz parte de mim, da minha forma de lidar com algo tão dolorido. No geral, como falei acima, é algo silencioso. É uma desculpa para não sair tal dia, é a dica de fazer algo em um bar calmo, é a ideia de fazer um almoço na casa das amigas só para sentir o alívio de não encontrar desconhecidos e acabar ficando focada em como as pessoas são felizes por serem bonitas. É não relaxar, mas sorrir para fingir que está tudo bem.

Por muito tempo, a minha vida sexual foi afetada, eu tinha vergonha de explorar possibilidades por me considerar feia, medo da pessoa perceber meus defeitos. A Dismorfia Corporal, não é sobre ser bonita e não enxergar isso, e sim a não aceitação ou visão exagerada de características que você considera um defeito. Por isso, pequenas coisas como ir à praia, sair, ir a academia, se tornam um motivo de grande ansiedade e vergonha. As pessoas passam a considerar a forma física como a única forma de ser feliz, vira uma obsessão, um tormento.

Como você lida com a dismorfia corporal hoje?

Em primeiro momento, gostaria de dizer que somos sempre para além de um diagnóstico, e existe tratamento. A busca por profissionais responsáveis, acolhedores e humanizados faz toda diferença. Sendo assim, a forma que eu lido é fazendo terapia, exercício físico, com nutricionista e autocuidado. Meu autocuidado também é ler, estudar e me sentir mentalmente ativa. Observar as pessoas que amo e tudo aquilo que admiro nelas, tentar achar um pouco de mim em cada uma. Tento ter responsabilidade comigo nas redes sociais, eu sigo mulheres fortes, inteligentes, bonitas a seu modo, autênticas e com conteúdos interessantes.

Acolher minha dor e ser sincera com ela me fez compreender que não há um patamar que eu vá chegar e ser apenas feliz e realizada, o amor-próprio, assim como toda relação, passa por altos e baixos, a minha relação comigo e com esse transtorno terá sempre de ter um olhar atento e cuidadoso. Hoje aprendi a controlar muitas angústias, a explorar meus desejos, minha sexualidade e ando até me sentindo bem comigo!

Conhece pessoas ou perfis que tratam do assunto e que indicaria para que leitoras busquem informações a respeito?

Há uns perfis que falam sobre transtornos alimentares e de imagem, que no geral estão associados: eu indicaria a psicóloga Renata Carvalho, a nutricionista Fernanda Imamura, a Daiana Garbin que tem dismorfia corporal e fala sobre isso, mas também há livros, como os da Tania Borda, diretora clínica do BioBehavioral Institute de Buenos Aires, na Argentina.

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Assuntos: Entrevistas