“Confesso que já tive medo”, conta a motorista de aplicativo Keila da Paixão

O preço alto da gasolina não é o único desafio para as mulheres motoristas de aplicativo, que enfrentam a insegurança da profissão

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Em 16.05.22 às 14:07

Keila da Paixão / Arquivo pessoal

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Em 16.05.22 às 14:07

Ser mulher em uma sociedade em que o machismo e a violência contra a mulher são sempre presentes é encontrar mais dificuldades em qualquer ambiente. Não poderia ser diferente entre as mulheres que são motoristas de aplicativo. A insegurança sentida por elas durante o transporte de passageiros homens se soma a violência contra motoristas de aplicativos, independente do gênero.

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Em outubro de 2021, a motorista Margarete Nascimento, de 49 anos, foi encontrada morta em uma ribanceira na Região Metropolitana de Belo Horizonte. De acordo com levantamento realizado pelo “Fantástico”, pelo menos 43 motoristas de aplicativos foram assassinados no Brasil, durante o trabalho, em 2021.

A falta de segurança da profissão é apenas um dos desafios para as mulheres, que ainda são vítimas de preconceito, e enfrentam obstáculos em um campo de trabalho dominado por homens. De ideias falsas construídas pelo machismo, como a de que “mulher dirige mal”, até situações de assédio, os desafios enfrentados pelas motoristas são muitos.

Em entrevista ao Dicas de Mulher, Keila Gonçalves da Paixão, que é motorista de aplicativo há dois anos, compartilha sua experiência na profissão enquanto mulher e fala como a alta nos preços da gasolina influencia seu trabalho.

Dicas de Mulher – Como você decidiu começar a trabalhar como motorista de aplicativo?

Keila da Paixão – A decisão de começar nesse ramo foi para ter uma ajuda de custo maior dentro de casa e também me dava a liberdade para fazer outras coisas, sem ter que pedir permissão ao patrão.

Ser mulher dificulta seu trabalho enquanto motorista de aplicativo? Caso afirmativo, poderia citar exemplos?

Ser motorista mulher de aplicativo não dificulta o nosso trabalho em rodar em si. Até porque sempre tive a liberdade de fazer outras coisas, sem atrapalhar no meu ganho.

Você já passou por situações difíceis por ser mulher motorista?

Não foi uma situação difícil, apenas levei um susto… Fui atender um chamado de um rapaz, chegando no local, entraram no carro três rapazes altos e fortes. Já pensei comigo: “vou ser roubada”. Fui conversando com os rapazes até o local do desembarque, e eles eram muito simpáticos. Quando chegamos, comecei a rir de nervoso, pois era um centro de treinamento de vigilantes. Os rapazes estava fazendo treinamento para ser vigias. Na mesma hora contei o que tinha pensado, eles começaram a rir e me deram gorjeta ainda, pelo medo que senti deles no começo.

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Você se sente segura durante o trabalho enquanto motorista de aplicativo?

Em algumas vezes, confesso que já tive medo na hora que cheguei ao local da corrida para pegar a pessoa. Porque existem mulheres que chamam o motorista pelo aplicativo e, quando chega ao local de embarque, tem um homem te esperando. Isso acaba provocando uma certa insegurança a viagem toda.

A alta nos preços da gasolina tem dificultado o trabalho como motorista de aplicativo?

Com o aumento do combustível, rodar hoje em dia está sendo muito complicado, porque se enche o tanque temos que fazer o dobro pra compensar no combustível. Em algumas vezes, as viagens são longe, porém o valor da corrida é baixo e não compensa na maioria das vezes.