Moda e Beleza

Ana Fernanda, da Justa Moda, acredita que “Todas as mulheres podem adotar atitudes sustentáveis sem perder o estilo”

Ana Fernanda, criadora do Justa Moda | Foto: Marcus Socco / Divulgação

Idealizadora da ONG Justa Moda indica aproveitar mais as peças que já temos e entender de onde vem nossas roupas

Em 26.07.22

A moda sustentável para a vida real não consiste apenas em reutilizar peças. Muito pelo contrário, é permitido trazer algo novo para o guarda-roupa, com a condição de que caiba no seu orçamento e você esteja precisando daquela roupa.

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Não há motivos para se sentir culpada, a ideia é comprar de forma mais consciente e usar as roupas da melhor maneira possível, evitando as famosas peças esquecidas no fundo do armário e a compra por impulso.

Ao comprar menos e melhor você consegue entender o custo-benefício e enxergar discursos que te fazem adquirir uma peça sem um objetivo, e outros que são uma solução para um problema. Ou seja, fica claro que aquilo é realmente para você, para o seu estilo, por isso, dá para levar para casa sem culpa.

Mas como fazer isso e começar a trazer a moda sustentável para o seu dia a dia? Para explicar mais sobre o assunto e compartilhar sugestões, o Dicas de Mulher conversou com Ana Fernanda, do Justa Moda. Confira abaixo a entrevista completa:

Dicas de Mulher – O que é a moda sustentável para a vida real?

Ana Fernanda – É como uma forma descomplicada de ver a moda sustentável. Sem necessariamente passar por compras de marcas, de grifes, com gastar dinheiro, com ter que se desfazer do que já tem em casa para comprar coisas novas. Mas é uma moda, uma sustentabilidade que é mais alinhada com a mudança de estilo de vida, e não com mais consumo.

Quando você passou a se atentar para o consumo consciente na moda? Qual foi a razão?

Na verdade, eu nem gosto muito dessa expressão, consumo consciente, mas passei a me atentar para o consumismo na moda, para a sustentabilidade, quando eu trabalhei como consultora de imagem e estilo pessoal. Ali eu pude observar na prática, com as minhas clientes, como que a moda nos incita, nos incentiva ao consumismo, sem muita reflexão. Então, foi essa minha experiência, que tem alguns anos, pois eu não trabalho mais como consultora de estilos. Foi nesse período que eu me atentei para isso e dei início a esse trabalho de sustentabilidade na moda.

Você acredita que todas as mulheres podem adotar a moda sustentável em seu dia a dia sem perderem seu estilo? Por quê?

Eu acredito, sim, que todas as mulheres podem adotar atitudes mais sustentáveis no seu dia a dia, na moda, sem perderem o estilo, porque estilo é muito pessoal, não é uma coisa que se compra. Estilo a gente identifica, aprimora, delineia na nossa vida. Então a gente pode fazer isso sem dúvida nenhuma. Não tenho a menor dúvida com relação a isso. O estilo não está a venda. As peças de roupa estão à venda, mas o estilo passa muito por autoconhecimento, por saber o que a gente gosta, que imagem a gente quer mostrar. E preferencialmente isso deveria ser feito de forma mais sustentável.

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Como mostrar que comprar menos pode ser melhor?

Quando temos mais informação e olhamos o nosso guarda-roupa, já percebemos que temos roupa demais. Quase todas as mulheres sentem isso: “tenho muita roupa”. Não tem onde guardar, o guarda-roupa está atulhado, muita roupa sem uso, que não gosta tanto, mas está ali. O nosso guarda-roupa pessoal já está dando uma mensagem. De que a gente pode comprar menos e que isso vai ser melhor. Porque você vai ter as coisas mais organizadas, vai ser mais criativa para poder compor as peças umas com as outras. Muitas vezes, somos muito pouco criativas com o nosso próprio guarda-roupa. Então, ficamos muito mais criativas e abertas às possibilidades ao comprar menos.

É importante conhecer de onde vem as roupas compradas? Por quê?

Sim, é importante conhecer a origem das roupas, assim como saber de onde vem a comida, a madeira para os móveis da casa, os componentes dos computadores e celulares. É fundamental ter contato com as coisas que consumimos porque elas vêm da natureza. As roupas não nascem nas araras das lojas. Não têm um pé de roupa. São feitas de algodão, vêm do mármore que vira viscose, ou são bicho-da-seda que vira seda. Assim, é preciso entender que os recursos naturais têm limite. Por isso, não é possível ter um guarda-roupa infinito.

A customização também é uma forma de moda sustentável? Comente um pouco sobre isso.

Customização, reforma de roupa, consertar roupa. Qualquer coisa que prolongue a vida útil da roupa é uma forma de moda sustentável. Vai ser uma ação em prol da sustentabilidade e melhor do que comprar uma roupa nova. Então, com certeza customizar é uma forma de uma moda sustentável.

O que não seria classificado como moda sustentável?

Comprar mais coisas quando você não precisa delas. Mesmo que seja comprar de uma loja que se diz sustentável. Evitar comprar é muito mais sustentável do que comprar coisas novas o tempo todo.

Como pesquisar e saber mais sobre uma marca antes de comprar roupas?

Dá para usar o Google, digitar o nome da marca e ver o que falam sobre ela. Procurar aquele sinal de mais e sobre o uso de trabalho escravo na produção. Outra forma é pesquisar base de dados que já existem. Eu vou citar duas aqui. Uma é um aplicativo que se chama ‘Moda livre’. Foi desenvolvido por uma ONG chamada Repórter Brasil, que trabalha com enfrentamento ao trabalho análogo à escravidão. O app classifica as marcas a partir do seu grau de transparência em relação ao uso da mão de obra. São três cores e a marca pode ser verde, amarela ou vermelha. Uma segunda base de dados que eu sugiro muito, porque sou representante dessa organização, é o Índice de Transparência da Moda do Fashion Revolution ITM. São formas de conhecer mais as marcas de moda, de saber como elas se posicionam além do marketing, porque normalmente só se conhece as marcas pela publicidade.

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Como aplicar a moda sustentável no cotidiano, de forma prática e eficiente? Poderia citar dicas para ajudar as mulheres?

Mantenha-se informada, seja curiosa, pergunte de onde vem as suas roupas, quem fez as suas roupas, qual a situação das marcas. Faça algo a respeito disso, depois de obter as informações. Esse fazer algo pode ser desde prolongar a vida útil da sua roupa, reformar, consertar, em vez de descartar, para manter consigo por mais tempo. Comprar de segunda mão, fazer as suas próprias roupas, dar preferência às marcas locais que você conheça. Por exemplo, eu busco prolongar ao máximo a vida útil da minha roupa. Cuido da minha roupa o máximo que eu posso. Reformo, conserto. Soltou o zíper, conserto. Manchou, tinjo de outra cor. Tento comprar de pessoas que eu conheço. Essas são as minhas atitudes, mas acredito que cada mulher vai criar sua própria maneira de se relacionar com a moda sustentável a partir disso.

Escritora com 8 livros publicados e apresentadora de um programa de rádio sobre literatura nacional, o Capivaras Leitoras. Ama ler, viajar e passar um tempo com a Buffy, sua cachorrinha vira-lata.