“Acessibilidade é liberdade”, diz Jessika Maia, intérprete de Libras que trabalhou com Casimiro

Conhecida como intérprete do entretenimento, conquistou seu espaço promovendo maior acessibilidade no mundo dos games

Publicado por                                
Em 02.05.22 às 15:33

Jessika Maia

Por
Em 02.05.22 às 15:33

A jovem Jessika Maia de Souza, de 27 anos, ficou conhecida após traduzir uma entrevista do streamer e jornalista Casimiro Miguel sobre a guerra na Ucrânia, com um professor de política internacional, Tanguy Baghdadi.

Publicidade

Jéssika é formada em Direito e trabalha com Libras desde 2017. A ideia de seguir carreira na área veio quando estava jogando com um professor surdo e pensou no tema para seu TCC no curso de Letras – Libras.

Em entrevista ao Dicas de Mulher, a intérprete do entretenimento e streamer comenta sobre sua carreira e como encara o impacto do seu trabalho para a comunidade surda.

Dicas de Mulher – Como você iniciou esse contato com a comunidade surda que joga on-line?

Jessika Maia – Fui atrás da comunidade surda gamer e, na minha inocência, achei que encontraria um grupo pequeno, mas o grupo do facebook era gigante, cheio de interação, sobretudo do mundo gamer, peças de computador e jogos mobile. Encontrei o Deaf League Sports, que era um campeonato de surdo, muito estruturado, com premiação, outras edições e outros jogos, além de LoL (League of Legends). Propus uma parceria como intérprete de Libras. Então, tudo mudou para mim ao descobrir o que me fazia bem. Comecei a transmitir os campeonatos na twitch e virei streamer assim. A galera curtia muito assistir e depois jogar com todo mundo. Assim, eu também narrei as partidas, ainda tenho vídeos no YouTube e foi ali que notei a falta de sinais e de conteúdos sobre o jogo, o que me fez ser criadora de conteúdo também.

Quais foram as referências para você no início da sua carreira?

Poder começar a viver de jogos aconteceu em 2020/2021, quando fui contratada pela Rensga e contratada pela Nyvi Stephan e pelo Yoda. Minha grande vitória foi trabalhar no CBLoL, sendo a primeira coordenadora e intérprete de Libras, e também a primeira em língua de sinais, visto que outros países demonstraram interesse e apoiaram a atitude da Riot. CBLoL sempre foi o objetivo maior porque tinha história, foi onde tudo começou. Nesse cenário, eu fui a primeira a trazer essa proposta e a profissão em si. Então, eu já sabia que seria um caminho difícil a trilhar. Acessibilidade é um direito e um dever, tanto privado quanto público, mas, infelizmente, é tida como “um favor”, ou algo “só necessário quando tem público”. Minha formação em Direito é a grande base da minha vida, e vejo que muitas pessoas têm vergonha de cobrar os seus direitos. Depois que entendi que o errado é quem não dá o direito, e não quem cobra, decidi que não ia mais ter vergonha.

Recentemente, Casimiro fez uma live sobre Ucrânia e Rússia, e você foi convidada como intérprete de Libras. Como foi ser descoberta pelo jornalista e trabalhar com ele?

Foi algo incrível! Meu trabalho é focado em esportes e games de forma de entretenimento, lazer e profissional. Sempre trouxe a pauta dessas esferas para PCDs, como forma de acessibilidade. Parece que o pessoal só tem direito a estudar, ir ao médico e processar, é preciso mais que isso. Assim, optei por outra área! E ser chamada pelo Rei do entretenimento só mostra que meu trabalho deu certo! Quando nossos influenciadores reconheceram a importância da acessibilidade, muitos outros começaram a descobrir a importância também.

Qual foi a repercussão do trabalho após os vídeos do Casimiro? O que mudou para você?

Publicidade

Recebi o título de “A intérprete do Entretenimento” e eu obviamente aceitei. A repercussão foi muito boa, várias pessoas tiveram contato e foram pesquisar sobre Libras, tanto para aprender quanto para saber o que é. Quando nossos influenciadores reconheceram a relevância da acessibilidade, muitos outros começaram a descobrir a importância também. É muito importante quando um grande influenciador fala sobre acessibilidade, nesse caso sobre legenda e libras, porque muitas pessoas aprendem com ele. Principalmente na área do lazer e entretenimento, na qual falta muita acessibilidade. Falta em outros lugares também, mas muitos enxergam essa área como “luxo”, e não como necessidade do ser humano.

Na sua percepção, por que lutar pela acessibilidade é um ato tão importante?

Lutar pela acessibilidade é dar independência. O ser humano precisa ser independente. Esse conceito de que pessoas com deficiência não são capazes, não faz sentido quando se tem acessibilidade na vida delas. Existem vários tipos de acessibilidade e de barreiras, mas a sociedade só entende as “rampas”, quando entende, porque até essa acessibilidade estrutural é difícil encontrar. Vale lembrar que temos a barreira atitudinal ainda, que pode ser feita por qualquer pessoa. Ela é composta por atitudes ou comportamentos que impedem ou prejudicam a participação social da pessoa com deficiência, que não promovem igualdade de condições e oportunidades para todas as pessoas.

Em relação ao acesso a entretenimento e à informação, há questionamentos sobre o uso de libras por já haver legendas, principalmente em conteúdos jornalísticos, filmes e séries. O que pensa a respeito disso?

Sempre há esse questionamento. Em todos os casos é feito por pessoas que não usam nenhum dos recursos e nem sabem nada sobre ele. A legenda abrange muitas outras pessoas, surdos, pessoas com baixa visão, disléxicos, entre outros, e a Libras é para o público surdo usuário de libras. Uma não concorre com a outra e nem se substituem. O ideal é que tenham as duas para que todos possam ter acessibilidade linguística e comunicacional.

E para finalizar, quais são os seus planos e próximos passos em relação ao seu trabalho como intérprete de Libras?

Atualmente, sou intérprete de libras da Universidade Federal, que é minha renda principal. Pretendo expandir meus trabalhos dentro da Riot Games. Quando entrei no cenário, já havia decidido ser uma criadora de conteúdo e intérprete. E estou com planos para expandir e organizar essa criação e conteúdos. Quero adentrar mais a área do entretenimento, lazer, games e esportes, juntando todos. Esse sempre foi meu objetivo e quero aproveitar que está dando certo.

***

A produção de conteúdos acessíveis para as pessoas surdas ainda é uma grande barreira a ser solucionada. A professora Marília Ignatius comenta sobre o assunto e conta um pouco da sua experiência e desafios enquanto mulher surda no Brasil. Confira!