“A sociedade precisa aprender Libras”, defende Marília Ignatius, mulher surda e professora

Em entrevista, Marília Ignatus fala de acessibilidade, de sua carreira profissional e sobre representatividade

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Atualizado em 27.04.22

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Em 24.04.22 às 9:30

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No dia 24 de abril, celebra-se o Dia Nacional da Língua Brasileira de Sinais (Libras), a data foi criada a fim de comemorar a regulamentação do uso da linguagem utilizada pela comunidade surda. A batalha pelo seu reconhecimento foi longa até ser inserida também nas disciplinas curriculares obrigatórias para os cursos de licenciatura e fonoaudiologia nas universidades brasileiras.

Para destacar a relevância dessa data especial, o Dicas de Mulher entrevista Marília Ignatius (40), ativista do movimento surdo e professora de Libras na Universidade Estadual de Maringá (UEM).

Ela é surda, bilateral-profunda desde o nascimento. Trigêmea com Beatriz e Lucas, ela e a irmã são as únicas surdas da família, ambas foram diagnosticadas com a Síndrome de Waarderburg. Além disso, é casada há 16 anos com homem surdo, o único de sua família. Conheça a Marília Ignatius!

Dicas de Mulher – Para começar, você poderia contar quando e como se descobriu surda? Como foi lidar com isso?

Marília Ignatus – Descobri que havia diferença quando percebi que meus irmãos ouviam sons e barulhos que eu não ouvia, eles falavam e eu não. Comecei a entender que era diferente, que era surda, não foi algo tão marcado, pois havia uma equidade entre nós, percebi que não era igual, mas também não era tão diferente, aprendi a lidar com isso e interagia da minha forma.

Como se deu sua experiência com a libras para se comunicar entre a família e amigos ao longo da infância?

Toda nossa família é ouvinte, apenas minha irmã e eu somos surdas. A comunicação com a família aconteceu de várias formas, desde uma oralização mais devagar, como também algumas soletrações e sinalização em Libras. De toda a família, apenas minha mãe sabe sinalizar em Libras, ela é nossa base, força, é ativa e militante pela comunidade surda e pela Educação Surda. Minha irmã Beatriz e eu tínhamos poucos amigos ouvintes, mas tínhamos dois amigos ouvintes bem especiais, nossos vizinhos: Marcelo e sua irmã, Juliana. Ambos frequentavam nossa casa, aprendiam sinais conosco, brincavam e não se sentiam entediados ou enjoados da diferença. Ele, às vezes, falava que também queria ser surdo, era muito inteligente e curioso com a língua e nossa interação. Com eles, não sofríamos discriminação, nem éramos julgadas por sermos surdas. Um exemplo para outras crianças e adolescentes surdas de que é possível ter amigos sem sofrer preconceitos.

Pensando nas questões de acessibilidade a filmes, séries e até mesmo músicas: como você acessa esses conteúdos e o que deve ser melhorado para promover a inclusão?

Falta muita coisa ainda. Necessita-se ter mais legendagem em programas de televisão, mais acessibilidade em músicas, alguns surdos gostam de consumi-las, eu não porque não entendo. Os filmes e vídeos que assisto são legendados, mas poderiam ser mais acessíveis em libras.

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Você acredita que as pessoas ainda olham para Libras como linguagem e não como língua, mesmo na comunidade surda? O uso da Língua Portuguesa é priorizada mesmo sendo muito oral e auditiva?

Sei escrever, falar e ler bem a língua portuguesa. Sou fluente em Libras, uma língua, que para mim, é capaz de expressar tudo assim como o português, pois é uma língua com regras, verbos, morfologia, fonologia entre outros aspectos linguísticos. A diferença entre ambas as línguas está na modalidade, a libras é motora-espacial, depende das expressões faciais e corporais, por exemplo, e a língua portuguesa é de modalidade oral-auditiva, depende da prosódia e da entonação. Infelizmente, muitos ouvintes acreditam que a Libras é uma linguagem, é vulnerável e não consiste em uma língua, são apenas gestos e mímica, ou seja, uma forma provisória ou auxiliar de comunicação. No entanto, a Libras é uma língua reconhecida por Lei (10.436/02 e 5626/05) deve ser considerada, na minha opinião, uma língua estrangeira para os ouvintes assim como a língua portuguesa é estrangeira para os surdos. Convivi e convivo com a comunidade surda na cidade de Maringá, em escola de surdos e na associação de surdos. Aprendi a Libras com outros surdos, adultos e crianças, fui inserida neste mundo surdo por meio da língua de sinais, língua esta natural, materna e com estrutura gramatical.

Como é a sua vida profissional, considerando a comunicação por meio da Libras?

Já tive dificuldades, antes da lei 10.436/02 e o decreto 5626/05, fui discente em uma instituição de ensino superior, porém ela não garantia um profissional intérprete de libras, eu que precisava pagar, de maneira particular, pelo serviço de um intérprete de Libras. Após a lei e decreto, esse direito foi garantido em todos os níveis educacionais. Ao cursar outra graduação, mestrado e doutorado tive meu direito respeitado com a presença do intérprete de Libras. E a disponibilização do profissional foi e é responsabilidade da instituição de ensino. Hoje, sou docente concursada na Universidade Estadual de Maringá e atuo na área da docência há mais de 25 anos. Já fui instrutora de Libras e atualmente sou professora acadêmica. No entanto, a Libras está sendo difundida de forma vagarosa na comunidade ouvinte do Brasil, estamos no caminho, o que auxiliou e auxilia na difusão é o reconhecimento legal da língua. No Brasil temos o curso de graduação em Letras Libras licenciatura, a fim de formar docentes em Libras e Letras Libras bacharelado, cujo intuito é formar tradutores e intérpretes de Libras. Ainda, temos a presença da libras em programas de Pós-Graduação em Mestrados e Doutorados nas áreas de Linguística e Educação. Além disso, universidades públicas e privadas ofertam disciplinas de Libras em cursos de licenciaturas como disciplina obrigatória e nos demais cursos como disciplina optativa. Em universidades públicas, é comum ter curso de Libras básico, intermediário e avançado em atividades de extensão.

Reprodução / Arquivo Pessoal

Você acredita que mulheres surdas enfrentam ainda mais dificuldade para quebrar o silêncio e serem ouvidas na sociedade, devido ao preconceito?

Sim, infelizmente, já sofri preconceito. Vou contar duas histórias, a primeira: uma vez, no intervalo da escola, no Instituto Estadual de Educação de Maringá (IEEM), havia muitos adolescentes perambulando pelo pátio do colégio, eu estava sentada com uma colega japonesa em um banco, ela notou meu aparelho auditivo e perguntou o que era, eu respondi que era meu aparelho auditivo que ajudava na percepção de sons, fui tirar para mostrar a ela mais de perto ela assustada disse: “não me toque, não quero tocar esse objeto porque posso transmitir e ficarei surda”! A segunda história: fiquei sabendo de uma mulher surda paulista, que sofreu muito mais, três homens (dois ouvintes e um surdo oralizado) a estupraram e a silenciaram. Como não domina a língua portuguesa, ao ir à delegacia não soube contar o que lhe acontecera e na delegacia não havia ninguém que soubesse libras. Logo, a versão que fica é do homem ouvinte e não da mulher surda que não teve como se expressar. Fico terrivelmente chocada e me imagino em seu lugar, ou qualquer outra mulher surda, na verdade, qualquer mulher poderia estar no lugar dela. A segurança e a justiça no Brasil deixam a desejar, está falha, precisa urgentemente se aprimorar, se consolidar e ser para todos e todas.

Como mulher com deficiência auditiva, você se sente representada, principalmente no movimento feminista? Busca inspiração em quais outras mulheres?

Sou mulher surda igual a outras mulheres negras, japonesas, cegas, obesas, autistas, indígenas, acredito e tenho boa fé na humanidade e isto é o que me inspira. Toda mulher tem sua força, sou grata às mulheres da história que lutaram pelos nossos direitos. Hoje, as mulheres podem fazer escolhas, não são mais consideradas objetos de troca, não são robôs a mercê de ordens masculinas, não precisam ser reprodutoras, exploradas sexualmente e oprimidas. Em suma, sou uma mulher surda, considero ser diferente de ser mulher ouvinte, não ouço, mas tenho orgulho de ser surda, tenho minha identidade, ajudo meu povo surdo, milito e apoio Educação Surda, amo minha língua de sinais e a comunidade surda. Em nosso país há mais de 10 milhões de surdos (entra neste número pessoas com perda de audição, surdos, deficiente auditivos, pessoas fluentes ou não fluentes em Libras) é um número grande de pessoas. Conheço muitas mulheres surdas, empoderadas, feministas e ativas em suas redes sociais, com grupos em prol da mulher e de seus direitos, sendo a favor dos seus direitos tanto como mulheres como da comunidade LGBTQIA+. Tenho amigas que já foram agredidas, oprimidas, mas que lutaram, que conseguiram vencer, isso me deixa muito feliz.

Na sua opinião, há como promover mudanças para surdos sejam mais incluídos?

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Precisamos trabalhar mais para que TODA A SOCIEDADE BRASILEIRA aprenda Libras! Não basta apenas disciplinas obrigatórias nas universidades é necessária a presença da Libras como disciplina nas escolas! Infelizmente, ter apenas a libras como disciplina obrigatória não é suficiente, faz-se necessário ter disciplinas como metodologia adaptada para as diversas deficiências, formação de professor para aluno com deficiência, enfim, mais caminhos de preparo aos futuros profissionais a como lidar e como preparar materiais para alunos surdos.

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A busca pela quebra de paradigmas e preconceitos com Libras e mulheres surdas ainda é uma luta em andamento, é preciso reconhecer todos os dias o poder dessa linguagem. Que tal conhecer mais personalidade potente? Confira a entrevista com a Ariane Fabretti, uma mulher neurodivergente.