95% das mulheres têm medo de serem vítimas de estupro

Pesquisa mostra a maioria das mulheres teme o estupro e vive em alerta, embora haja dificuldade de classificar esse ato violento

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Atualizado em 30.03.22

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Em 29.03.22 às 14:46

Segundo pesquisa do Instituto Patrícia Galvão e Instituto Locomotiva, divulgada na última sexta-feira (25), 95% das mulheres tem medo de serem vítimas de estupro.

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O crime é ainda mais temido entre jovens negras. A maioria das entrevistas acredita que as vítimas negras estejam em maior número nas estatísticas. Esse medo foi expressado por 87% das entrevistadas pretas e 88% das jovens com idade entre 18 e 24 anos.

Um outro ponto importante que ressalta a pesquisa é que uma parcela da população não considera alguns atos como violação e estupro. Um exemplo é o fato de que apenas 62% das pessoas entrevistadas consideram o ato de retirar o preservativo, sem o consentimento da mulher durante o sexo (stealthing), como estupro. Ou seja, entende-se que 38% considera isso uma atitude normal.

Mais um dado preocupante é que a ação de forçar a companheira a ter relação sexual sem camisinha também não é vista como estupro por 31% das pessoas.

Para 21% dos entrevistados, homens terem relações sexuais com meninas menores de 14 anos também é algo considerado normal. Sendo assim, entende-se que esse ato não é visto como um crime de pedofilia ou estupro.

Ainda segundo a pesquisa, a noção sobre as circunstâncias do estupro também mudam de acordo com a vítima. 89% das pessoas que foram ouvidas acreditam que, ao se tratar de meninas, o abuso acontece dentro de casa. E 71% acredita que os agressores são parentes ou conhecidos das vítimas violentadas.

Quando envolve estupro de mulheres adultas, somente 39% afirma que a casa é o local em que o crime acontece. Ao todo, 69% aponta pessoas conhecidas como autores do estupro nesses casos, e 37%, o parceiro ou um ex-parceiro da vítima.

Mulheres falam a respeito de seu medo

O Dicas de Mulher conversou com duas mulheres para saber como elas se sentem em relação à sua segurança e o perigo iminente de estupro na sociedade atualmente.

Camilla, de 23 anos, relata que tem medo do estupro porque, enquanto uma mulher negra, sente que homens veem o seu corpo como um objeto descartável.

Além disso, aponta a ausência de políticas públicas efetivas no que diz respeito à assistência para mulheres de modo geral. Muitas vezes, sente que seus relatos e voz não importam.

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“De modo geral na sociedade muitas vezes eu sinto que o que eu falo não importa. Ainda mais em uma situação de consentir algo. Tenho medo porque eu sei da ausência de políticas públicas e acolhimento para mulheres de modo geral. E tenho medo porque vejo os índices de violência no Brasil e todos os aspectos e vertentes. Tenho medo da sexualização constante do meu corpo. É pela exposição constante midiática e o esteriótipo das mulheres negras terem o corpo perfeito para o sexo, a mulher para exportação e carnaval. Como se todos esses estereótipos fizessem com que eu fosse mais suscetível a esse tipo de violência”.

Teresa, 35 anos, também comentou sobre a sua experiência ao circular no dia a dia nas ruas. Que enquanto está claro, ela se sente mais segura para andar sozinha nos espaços. No entanto, ao decidir sair à noite, sua experiência acaba por se configurar de outra maneira.

“Então, eu geralmente tenho o cuidado de não voltar a pé para casa após certo horário, por exemplo, e de escolher roupas mais discretas quando sei que vou ter que voltar com carro de aplicativo. Não tem como não sentir pelo menos um pouco de medo, independentemente de qualquer coisa. A gente está todo o tempo atenta, avaliando tudo, usando estratégias para se proteger – o que não deveria acontecer. Deveríamos nos sentir seguras para estarmos onde quiséssemos, com a roupa que quiséssemos e quando quiséssemos”.

As duas entrevistadas evidenciam que não se sentem seguras e que o estupro é um medo que ronda suas vidas diariamente. A cultura do estupro está em diversos ambientes, como escola, casa, ruas e até mesmo no trabalho, e deixa mulheres em constante alerta.