Meu filho não come: o que fazer?

A recusa alimentar é muito frequente, especialmente, no segundo ano de vida da criança, mas não representa um problema

Escrito por Tais Romanelli

Foto: Thinkstock

As principais preocupações dos pais com seus filhos são sempre em relação à alimentação e à saúde deles – já que elas estão, intrinsecamente, associadas.

Não são poucos os relatos de adultos que se desesperam, por exemplo, ao ver que o bebê se mostra desinteressado pela comida, temendo que esse seja um sinal de algum problema de saúde.

Porém, nem sempre essa falta de apetite deve ser motivo de preocupação. E, geralmente, faz parte do momento que a criança está vivendo.

Para compreender isso, é fundamental que os pais tenham conhecimento de como o bebê é/deve ser alimentado nas diferentes fases do seu desenvolvimento.

De 0 a 6 meses – aleitamento materno exclusivo

Roseli Sarni, presidente do Departamento Científico de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), destaca que a SBP recomenda aleitamento materno exclusivo até o sexto mês e, complementado (leia mais abaixo), por meio da alimentação complementar saudável, até dois anos de idade ou mais.

“O aleitamento materno permite que a criança experimente diferentes experiências sensoriais, contrariamente à criança que recebe fórmulas infantis ou leite de vaca (sempre com o mesmo sabor). Isso porque há grande variação no sabor do leite de acordo com a dieta materna – esta, inclusive, fundamental para a aceitação futura de outros alimentos por parte da criança. Por isso é muito importante reforçar a orientação de alimentação saudável para a mãe que amamenta”, explica Roseli.

A partir dos 6 meses – alimentação complementar

A partir do sexto mês de vida do bebê, deve-se introduzir a alimentação complementar, mantendo-se o aleitamento materno até os 2 anos de idade ou mais, conforme orientações do Manual de Orientação do Departamento de Nutrologia da SBP.

As frutas in natura, preferencialmente sob a forma de papa, devem ser oferecidas nesta idade, amassadas, sempre em colheradas, ou espremidas. Já os sucos naturais devem ser evitados.

A primeira papa principal deve ser oferecida a partir do sexto mês, no almoço ou jantar, conforme o horário que a família estiver reunida, completando-se a refeição com o leite materno até que a criança se mostre saciada apenas com a papa. A segunda papa principal deve ser oferecida a partir do sétimo mês de vida.

Não há restrições à introdução concomitante de alimentos diferentes, mas a refeição deve conter, pelo menos, um alimento de cada um dos seguintes grupos: cereais ou tubérculos; leguminosas; carne (vaca, ave, suína, peixe ou vísceras, em especial o fígado) ou ovo; hortaliças (verduras e legumes).

A papa deve ser amassada, sem peneirar ou liquidificar, para que sejam aproveitadas as fibras dos alimentos e para que ela fique na consistência de purê.

Ou seja, dos 6 aos 11 meses, a criança amamentada estará recebendo três refeições com alimentos complementares ao dia (duas papas principais e uma de frutas).

Por volta dos 8 a 9 meses a criança pode começar a receber a alimentação da família. E, nos primeiros dias, é normal que ela derrame ou cuspa o alimento, portanto tal fato não deve ser interpretado como rejeição.

Para que a alimentação ocorra da melhor maneira possível, é recomendado iniciá-la com pequenas quantidades, entre 1 e 2 colheres de chá, colocando o alimento na ponta da colher, e aumentando o volume conforme a aceitação da criança.

A partir dos 12 meses – adaptação aos novos alimentos

A partir dos 12 meses, ainda de acordo com o Manual de Orientação do Departamento de Nutrologia da SBP, deve-se acrescentar às três refeições mais dois lanches ao dia, com fruta ou leite.

Deve-se ainda evitar alimentos industrializados pré-prontos, refrigerantes, café, chás e embutidos, entre outros. A oferta de água de coco (como substituta da água) também não é aconselhável pelo baixo valor calórico e por conter sódio e potássio.

É muito importante destacar que a introdução de alimentos novos e de consistência diferente da amamentação é um momento de grande aprendizado para o lactente, mas também, como toda novidade, é um momento difícil. A paciência e a suavidade, assim como palavras tranquilizadoras e manifestações positivas, devem completar os esforços de quem ajuda nesta iniciação.

Vale destacar que cada criança é única, tem seu tempo de adaptação aos novos alimentos, assim como às preferências e às novas quantidades de comida. Assim, é muito importante respeitar a autorregulação do lactente, não interferindo na sua decisão de não querer mais o alimento.

Na nossa cultura, comer bem significa comer muito, além da falsa ideia de que comendo muito se fica mais resistente às doenças. Assim se explica a preocupação de muitos pais quando o filho se recusa a comer todo o alimento oferecido. Porém, atitudes excessivamente controladoras e impositivas podem induzir a criança ao hábito de consumir porções mais volumosas do que o necessário e à preferência por alimentos hipercalóricos.

A alimentação complementar, embora com horários mais regulares que os da amamentação, deve permitir pequena liberdade inicial quanto a ofertas e horários. Mantém-se, assim, na criança a percepção correta das sensações de fome e saciedade, característica imprescindível para a nutrição adequada, sem excessos ou carências.

De 1 a 2 anos – entendendo a recusa alimentar

De acordo com o Manual de Orientação do Departamento de Nutrologia da SBP, nesta faixa etária, a amamentação deve continuar. As refeições devem ser semelhantes às dos adultos, evitando, porém, alimentos industrializados ricos em açúcar, gordura e sal. Devem ser consumidos todos os tipos de carnes e afins, com estímulo ativo ao consumo de frutas e verduras.

A partir do primeiro ano, os lactentes podem ser estimulados a tomar iniciativa na seleção dos alimentos e no modo de comer. Os pais devem oferecer alimentos variados, saudáveis e em porções adequadas, permitindo, então, que a criança escolha o que e quanto quer comer. As refeições devem ser realizadas à mesa ou em cadeira própria para a criança, junto com a família, em ambiente calmo e agradável, sem televisão ligada ou outro tipo de distração, já que esses são fatores que proporcionam satisfação pelo ato de comer.

Vale destacar que a queixa sobre recusa alimentar é muito frequente no segundo ano de vida, quando a velocidade de crescimento da criança diminui bastante em relação ao primeiro ano e, consequentemente, diminuem também suas necessidades nutricionais e o seu apetite.

Nesta idade, a criança está naturalmente no processo de neofobia, em que as novidades são inicialmente rejeitadas. Por isso, deve ser estimulada a comer vários alimentos, com diferentes gostos, cores, consistências, temperaturas e texturas, explorando-se sua curiosidade e fantasia.

“Estima-se que cerca de oito exposições a um novo alimento são necessárias antes da plena aceitação. Por isso, é importante que a mãe fique tranquila nessa fase, pois as recusas iniciais são esperadas”, destaca a presidente do Departamento Científico de Nutrologia da SBP, Roseli Sarni.

Exatamente por isso, a paciência, a criatividade e a persistência são as principais ferramentas. Os pais nunca devem forçar, ameaçar ou associar eventos negativos ao ato de comer. Também não se deve premiar com ofertas extras ao alimento que está sendo oferecido, desta forma se consegue a confiança da criança naquilo que ela come, sem reforçar a neofobia.

Com essas orientações fica claro que os hábitos e padrões alimentares da família exercem um papel fundamental no comportamento alimentar da criança. Exatamente por isso, é muito importante que todos da casa se unam com o objetivo de tornarem os momentos de alimentação os mais agradáveis possíveis.

Além disso, uma recusa ou outra a um alimento por parte da criança não deve ser motivo de desespero. Porém, em casos de dúvidas, os pais devem sempre procurar orientação profissional.

Assuntos: Bebês

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