Medo que aprisiona versus medo que liberta na educação dos filhos

Proteger demais o filho nem sempre é benéfico para o desenvolvimento da criança, a qual pode se tornar dependente demais e não saber lidar com problemas

Foto: Thinkstock

Se me perguntarem hoje qual é, pra mim, a pior sensação que existe, eu certamente responderia: medo. Penso que outros sentimentos muito ruins como angústia, ansiedade e culpa são ocasionados, em alguma medida, pelo medo.

Não há comprovações científicas se ele é biológico, característica nata do ser humano, ou aprendido social e culturalmente. No entanto, esse sentimento faz parte do nosso cotidiano desde crianças, somente transformando suas motivações com o passar do tempo.

A infância é o período em que a criança começa a descobrir o mundo a partir das interações com seu ambiente. Num primeiro momento, o bebê busca conhecer as possibilidades do seu corpinho e estabelecer, por meio dele e de forma evolutiva, relação com o seu mundo externo, que envolve pessoas e coisas. Um exemplo claro é quando o bebê descobre que, ao empurrar um objeto, é capaz de pegar um outro que, até então, não estava ao seu alcance.

Nessa fase de constante exploração e descobertas – especialmente ao desenvolver o andar e a fala – pais costumam dirigir aos filhos orientações do tipo: “cuidado que você vai cair!”, “não coloca o dedo na tomada que dá choque!”, com a intenção de protegê-los. Orientar para ter cautela é necessário para a criança começar a entender seus limites em relação ao mundo ao seu redor e ir desenvolvendo, aos poucos, seus próprios mecanismos de defesa.

Conforme vão crescendo, as orientações mudam. Frases de alto teor negativo do tipo: “cuidado com o que você vai fazer!”, “não vai me arrumar problema”, “não seja bobo” passam a se tornar muito comuns na relação entre pais e filhos. Essa forma de excessiva “orientação” dos pais, movida pelo medo super exagerado deles – que na maioria das vezes nem condizem com a realidade, até arrisco a dizer – é muitas vezes responsável pela formação de crianças e jovens com alto grau desse sentimento, o que pode acarretar em dificuldades emocionais e sociais na vida adulta.

Por isso, uma dica importante: no dia a dia, fiquem atentos se não estão exagerando na cautela, o famoso “é pro seu bem!”. Orientar é dialogar, apresentar caminhos, possibilidades, confiar.

A criança não é uma caixinha vazia que só recebe informações. Ela necessita sim de proteção e orientação, mas é um ser que pensa, tem desejos próprios e capacidade de entender, em certa medida, o que é bom pra ela ou não.

Além disso, a criança gosta, de certa forma, de sentir medo. Gera adrenalina, sentimento de aventura e desejo de superação. Por isso, se não for exagerado, o medo também é benéfico para o desenvolvimento emocional saudável dela. Por meio desse sentimento ela pode desenvolver a capacidade de encarar e superar desafios, o que é de extrema importância pra vida e para o futuro dela.

Uma criança que convive num ambiente em que ela é incentivada a ousar e tem oportunidade de encarar situações por conta própria – de forma consciente e dentro dos limites dela, vale ressaltar – e relações baseadas na tranquilidade, no diálogo e na confiança mútua desenvolve melhor sua autoconfiança, seu senso de responsabilidade e autonomia, e sente-se cada vez mais preparada para lidar com novas situações ao longo de toda a sua vida.

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