5 riscos da manobra de kristeller e a sua relação com a violência obstétrica

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Atualizado em 21.06.22

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O parto é um momento de vulnerabilidade para as mulheres e muitas já sofreram algum tipo de violência obstétrica, como a manobra de Kristeller. A ginecologista e obstetra, Dra. Débora Maranhão (CRM 184349/SP), do Hospital Moriah, falou sobre o assunto, explicou o que é e citou quais são os riscos que a manobra pode trazer à mulher e ao bebê. Confira!

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O que é a manobra de Kristeller

Segundo a Dra. Débora, a manobra de Kristeller era uma técnica muito utilizada pelos obstetras para acelerar o trabalho de parto e diminuir o período expulsivo. “A manobra era feita quando o bebê demorava um pouco para descer e ficar na posição para sair ou não estava com encaixe adequado para a bacia da mãe”.

Além disso, havia casos nos quais a mulher estava com pouca contração ou estava muito cansada e já não conseguia fazer força suficiente para a saída do bebê. A seguir, entenda como o procedimento era realizado.

Como é feita?

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Para realizar a manobra, a médica explicou que “o cotovelo e o braço são colocados sobre o fundo do útero materno e empurrados para baixo fazendo pressão para acelerar a saída do bebê durante o parto”.

Apesar de proibida pelo Ministério da Saúde e Organização Mundial da Saúde (OMS), a técnica ainda é realizada em alguns hospitais no Brasil, principalmente no Sistema Único de Saúde. Isso acontece porque muitas mães não têm conhecimentos sobre todo processo que envolve o parto e o pós-parto, além disso, não sabem que a manobra está relação com a violência obstétrica. Veja mais sobre isso nos próximos tópicos!

Por que a manobra de Kristeller não é mais recomendada?

Segundo a Dra. Débora, acreditava-se que a manobra poderia ajudar a acelerar o processo do parto. No entanto, “com o passar no tempo, verificou-se que ela não encurta o trabalho de parto, não abrevia o período expulsivo, que é o período final da saída do bebê, e, ao mesmo tempo, é muito agressiva”.

Além disso, a técnica não é mais recomendada, “inclusive, ela é uma das manobras que se relaciona muito com a violência obstétrica”. O procedimento pode machucar a mãe causando danos físicos e psicológicos. “O obstetra tinha que fazer muita força e isso também deixava todos na sala de parto muito ansioso, poderia ocasionar o descolamento de placenta e até mesmo uma piora do desfecho”. Com outras palavras, a técnica não traz benefícios para a mãe ou para o bebê, pelo contrário, ela é invasiva.

Quais são os riscos da manobra de Kristeller?

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A manobra deixou de ser realizada por muitos profissionais que buscam um parto humanizado, proporcionando à mãe segurança e apoio em vários aspectos. Por isso, conheça os principais riscos da técnica citados pela obstetra:

  • Dor abdominal pós-parto: a Dra. Débora informou que a manobra pode ocasionar dor abdominal pós-parto “devido à grande pressão e ao apoio do braço e cotovelo na barriga, podendo, inclusive, deixar hematomas na pele”.
  • Aumento de laceração do períneo: de acordo com a médica, a técnica pode causar laceração do períneo de segundo e terceiro grau por causa da saída mais brusca da apresentação fetal pela vagina. Além disso, “também há maior chance de disfunções do assoalho pélvico pelo aumento da pressão intra-abdominal sobre os músculos pélvicos”, acrescentou.
  • Ruptura do fígado ou baço: a obstetra disse que “se a manobra for realizada acima do fundo uterino, também há risco de ruptura do fígado ou baço, mas são lesões bem mais graves e raras, pois depende de muita força”.
  • Riscos psicológicos: “a manobra de Kristeller pode gerar danos psicológicos à mãe devido ao stress de toda a situação e pela movimentação agressiva da equipe para realizar a manobra”, comentou a especialista.
  • Risco para o bebê: para o bebê, “há risco de hematoma encefálico e fraturas, mas não é comprovadamente maior do que os casos que não fizeram a manobra”. No entanto, a médica disse que “não é possível afirmar, pois vários estudos são inconclusivos nos reais efeitos imediatos e a longo prazo que a manobra pode causar em bebês”.

A Dra. Débora ressaltou que “geralmente, a manobra de Kristeller é realizada em casos onde a evolução não está sendo boa, então, pode ser um confundidor nos resultados perinatais”. Ou seja, “o hematoma encefálico e fraturas no bebê pode estar associado à maior anóxia fetal e baixo pH no sangue do cordão umbilical, isto é, com maior risco de sequelas devido à hipoxemia fetal (baixo oxigênio)”.

Como evitar a manobra de Kristeller

Segundo a obstetra, é possível, sim, evitar a manobra de Kristeller, pois há outros meios, como medicamentos, para no auxiliar no período expulsivo. “Por exemplo, a ocitocina é uma medicação que aumenta a contração uterina e vai ajudar o útero a fazer mais força por ele mesmo”. Além disso, pode-se fazer uma tração controlada ensinando a mãe a fazer o puxo e a força no período expulsivo.”

A profissional informou que outros mecanismos também podem ser usados para ajudar a mãe no momento do parto. “A mudança do decúbito, ou seja, eu mudo a paciente de posição porque, às vezes, aquela posição não é boa para ela fazer a força. Então, eu coloco a mãe em pé ou agachada para ela conseguir fazer melhor”.

Ademais, a obstetra citou outras formas, como “o cabo de guerra que puxamos a paciente pelas mãos para ela conseguir fazer força no período expulsivo do trabalho de parto. Além disso, “há a possibilidade de colocar a paciente em uma banheira ou levá-la ao banho para relaxar o colo”, completou.

Já nos casos em que já estiver muito no período expulsivo, pode-se fazer um parto instrumental. Ou seja, “utiliza-se, tanto o fórceps quanto o vácuo extrator para abreviar e aliviar o sofrimento fetal e da mãe que já está totalmente exausta. Principalmente, quando a via de parto por cesária já não é indicada porque a cabeça do bebê já está muito baixa”, finalizou.

A manobra de Kristeller e a violência obstétrica

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O Ministério da Saúde e Organização Mundial da Saúde (OMS) baniu a manobra de kristeller, pois ela se enquadra como violência obstétrica por ser uma técnica agressiva que pode prejudicar a mãe e o bebê. Apesar disso, ainda não existe uma lei federal que ampare as mulheres. Mas, alguns estados brasileiros, como o Distrito Federal, por exemplo, dispõem de leis estaduais com medidas de proteção e apoio à mulher.

Contudo, existem órgãos reguladores, como a Organização Mundial de Saúde (OMS), a Diretriz Nacional de Assistência ao Parto Normal e a Diretoria Colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) que criaram resoluções que regulam o comportamento dos profissionais da saúde e amparam as vítimas em âmbito nacional.

No momento do parto, é importante que haja um cenário humanizado, afinal, esse é um momento de ansiedade e tensão para a mãe. Então, é fundamental que os profissionais da saúde promovam o apoio emocional, conforto e encorajamento conforme as necessidades da mulher. Aproveite e saiba mais sobre a dor no umbigo na gravidez – um incômodo que acomete muitas mulheres.

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As informações contidas nesta página têm caráter meramente informativo. Elas não substituem o aconselhamento e acompanhamentos de médicos, nutricionistas, psicólogos, profissionais de educação física e outros especialistas.