Mães e professoras: uma conversa franca em tempos de pandemia

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Atualizado em 05.03.21

Chega a ser repetitivo dizer que 2020 foi um ano difícil, mas não há como fugir disso, especialmente quando o assunto é a educação. Ao redor do mundo inteiro, crianças e adolescentes foram submetidos ao ensino remoto, devido à pandemia causada pela Covid-19, e se viram em situações adversas e complicadíssimas.

Mas o que acontece nos bastidores do ensino remoto? Como as famílias, especialmente mães e professoras, atuaram para conter os danos a que a aprendizagem foi exposta? Vamos conversar sobre isso?

Os nomes apresentados na matéria são fictícios para preservar a identidade das mulheres que aceitaram expor parte da rotina familiar durante a pandemia.

Dos dois lados da tela

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O ensino remoto é um assunto amplo que, ao ser debatido, recebe opiniões controversas. Há quem o defina como uma necessidade para que a educação sobreviva; há quem queira a volta do ensino presencial, com todas as medidas de prevenção; há quem defenda a suspensão das aulas e sua retomada quando for seguro.

Nesse cenário, há dois lados que devem ser levados em consideração: o das famílias e o das escolas.

O lado das famílias

Na maioria das vezes, as famílias não têm propriedade para auxiliar as crianças nas atividades. Isso é, sim, papel da escola e de educadores que se capacitaram arduamente para essa tarefa.

Somado a isso, temos o fato de que muitos setores pararam por pouco tempo ou nem chegaram a parar. Como, então, dar a atenção necessária às crianças enquanto devem exercer outras funções obrigatórias? Com quem deixar os filhos se eu preciso trabalhar fora de casa?

“Meu trabalho foi muito afetado… Houve alteração de horário de trabalho para tentar colaborar nas atividades escolares, perda de concentração no meu atendimento por ficar preocupada com as crianças em casa em horário de aula…”
Rafaela (mãe)

O lado das escolas

As escolas não deixam de ser prestadoras de serviço, principalmente quando falamos do setor privado. Essas empresas precisam, assim como as outras, adotar medidas que minimizem os prejuízos.

O corpo de funcionários das instituições de ensino é muito grande. De diretores a zeladores, há pessoas que dependem do funcionamento da escola para terem uma renda.

Ao mesmo tempo, a falta de projeção para os anos seguintes preocupa o setor da educação. O questionamento que se faz é: se esperarmos a pandemia acabar totalmente para ensinarmos nossos alunos, quando isso irá acontecer?

“O impacto financeiro foi grande. Tive alteração no salário, porém tive redução de gastos (combustível, alimentação fora de casa, roupas etc), então sinto que consegui estabilizar. Entretanto o custo de vida básico (mercado, por exemplo) aumentou significativamente! Precisei fazer diversas adaptações quanto a isso para não extrapolar o orçamento.”
Júlia (professora)

É impossível dizer que há um lado certo nessa história. E tudo bem! Famílias e escolas não devem, nunca (em cenário de pandemia ou não), entrarem em combate. É preciso haver diálogo, e ambas as partes devem estar abertas a ouvir, debater e mudar, se preciso for.

Ser mãe em uma pandemia

Não adianta negar: é evidente que as mulheres são socialmente sobrecarregadas quando o assunto é atividade doméstica. O que mudou, então, nesta pandemia?

Nada de novo sob o sol…

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Acordar as crianças, responder e-mail, preparar o café da manhã, colocar as roupas para lavar, deixar os filhos na escola no caminho do trabalho. Mais tarde, quando chegar em casa, estender as roupas, dar banho nos menores, fazer o jantar, auxiliar na tarefa de casa, lavar a louça… É hora de dormir e ela ainda não fez tudo o que tinha planejado.

Se você se identificou com essa rotina acima, saiba que não está sozinha. O número de mulheres que assumem sozinhas as obrigações da casa é preocupante: segundo o IBGE, há mais de 10 milhões de famílias comandadas por mães solo no Brasil, das quais 59% vivem abaixo da linha da pobreza.

E não é só isso. Nos bastidores das famílias “comercial de margarina”, muitas mulheres continuam exercendo jornadas triplas sozinhas – trabalhando e cuidando da casa e dos filhos, com pouca colaboração por parte de marido ou outros familiares.

Chegou, então, o ano de 2020 e, com ele, a pandemia do novo coronavírus. Caiu sobre as costas dessas mesmas mulheres a responsabilidade de auxiliar as crianças nas atividades da escola e ainda mantê-las motivadas a estudar sob condições tão adversas.

“Nessa sociedade patriarcal, o homem sempre se isenta de trabalhos relacionados à casa, ao cuidado das crianças. Eu fui obrigada a assumir tudo sozinha, tive que dar mais atenção para minha filha que está no Ensino Fundamental, deixando as atividades das que estão na Educação Infantil em segundo plano. Na verdade, não consegui conciliar tudo.”
Manuela (mãe)

A rotina familiar foi forçada a mudar completamente. Com as crianças em casa por mais tempo, aumentou a necessidade de limpar e cozinhar. Agora, nos intervalos que eram usados para descanso, essa mulher deve postar atividades em uma plataforma de que, muitas vezes, nunca tinha ouvido falar antes.

“A maior parte da função acaba ficando comigo, mas o pai ajuda nas atividades com o menor. Além de toda a pandemia, aulas e afazeres, nós dois temos pais adoentados e precisamos nos dividir entre todas as funções. É verídico que a carga maior recai sobre a mulher.”
Raquel (mãe)

“Eu auxiliei sozinha meu filho mais velho no estudo. Não foi fácil conciliar todas as obrigações, visto que tenho um bebê que depende de mim pra tudo. Então tive de deixar algumas tarefas domésticas de lado pra conseguir ajudar meu filho nas atividades dele.”
Lúcia (mãe)

Felizmente, a passos de tartaruga, as coisas vêm, sim, mudando. Com as pequenas conquistas das mulheres nas últimas décadas, essa carga de responsabilidade com afazeres domésticos e criação dos filhos é dividida em alguns lares – como deveria ser!

“Não assumi a responsabilidade sozinha. Meu marido tem estado bem presente em todas as demandas. Foi essencial conciliar, se estivesse sozinha estaria sendo insano.”
Verônica (mãe)

Olhar para si e para o resto do mundo

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Muito tem se falado sobre a pandemia e seus danos à saúde mental, com razão. O isolamento social e as estatísticas decorrentes da Covid-19 contribuem para que transtornos de ansiedade se sobressaiam, e faz parte de qualquer tratamento terapêutico o processo de “olhar para si”. A pergunta que faço a você, mãe, é essa: houve tempo para cuidar de si esse ano?

Supondo que a maior parte das respostas foi negativa, abre-se aqui outro questionamento: quais foram os danos que a pandemia causou à sua saúde mental e como o ensino remoto piorou esse cenário?

“Eu entendo a necessidade atual do ensino remoto, mas foi a pior coisa que aconteceu na minha casa. Meu marido não ajuda nada, isso já gera um grande conflito porque, além de cuidar das meninas sozinha, tudo relacionado às aulas é minha responsabilidade. Me sinto sobrecarregada o tempo todo, cansada, frustrada. Mas tento não passar isso para as crianças. A pandemia afeta muito mais as mulheres.”
Manuela (mãe)

“Tenho dois filhos e me vi desesperada com o fato de ter que ter a didática de ensiná-los a alfabetização. Nenhum pai está preparado pra carregar essa carga de responsabilidade.”
Rafaela (mãe)

“Eu não tenho um tempo a sós, só pra mim. Sinto falta da solidão.”
Jaqueline (mãe)

“Nos sentimos mais estressados e cansados, pois, depois de um dia cansativo de trabalho, tinha de chegar em casa e ter a missão de ensinar o nosso filho com o nosso tão pouco tempo e ainda ter a expertise de saber lidar com o problema de ansiedade que afetou o meu filho devido ao isolamento.”
Verônica (mãe)

Ser professora em uma pandemia

Que os profissionais da educação enfrentam batalhas diárias todo mundo sabe, e isso foi ainda mais notório no contexto do ensino remoto. Eu, que atuo como redatora nos intervalos que a carreira de professora me disponibiliza, vou contar como foi esse ano com a ajuda de algumas colegas:

Do quadro à tela

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Entre as maiores dificuldades para professoras e professores, com certeza, está a adaptação a esse novo formato. Poucos eram os profissionais que estavam preparados e com cartas na manga para lecionar olhando para seus alunos através de uma tela.

“Em home office, tive dificuldade para delimitar qual o horário de trabalho. Muitas vezes, me peguei trabalhando à noite, madrugada, sem parar, deixando meus afazeres domésticos e companheiro sem a devida atenção.”
Amanda (professora)

Por experiência própria, nossos cursos preparatórios pouco ensinam sobre educação relacionada à tecnologia. Por isso, foi muito difícil aprender a lidar com plataformas, gravação e edição de vídeo de um dia para o outro.

“Foi difícil delimitar o horário de trabalho e lidar com algumas ferramentas tecnológicas até pegar o jeito, sempre ficar com medo de o computador desligar/ a internet cair durante a aula.”
Ana (professora)

Além disso, sofremos constantemente pressão de todos os lados (escola, pais, alunos e nós mesmas) para que a qualidade do ensino seja mantida mesmo em condições assustadoras como essa.

“O ensino remoto interferiu muito na rotina, especialmente por precisar dividir espaços/ equipamentos com um marido também professor. Ficar tantas horas juntos tendo que lidar com o estresse e ansiedade por causa da incerteza e medo do momento e, ainda, se virar pra fazer as aulas dois dois funcionarem (sem o apoio necessário das escolas) aumentou significativamente o nível de estresse e tensão em casa.”
Júlia (professora)

No meu caso, a parte mais difícil de todas foi a perda do contato físico com meus alunos. Como o meu público é formado por crianças, senti falta de brincar, correr no pátio, reunir todos no chão para contar e ouvir histórias. E mais difícil ainda foi me dar conta de que isso também fez falta para todos eles.

“É muito difícil engajar os alunos na aula/conteúdo enquanto competimos com o sono, a cama quentinha, o celular, a rotina da família… E depois ser cobrada por isso, por não dar uma ‘aula-show’.”
Ana (professora)

“A maior dificuldade foi entender que, no ensino remoto, não é possível acompanhar os mesmos objetivos que no presencial. Infelizmente, trabalhamos os mesmos conteúdos de uma forma superficial.”
Marlene (professora)

Professoras que também são mães

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E como ficam as professoras que, além de forçadamente se adaptarem a um cenário diferente, precisam tirar um tempo para auxiliar as crianças nos estudos e lidar com as demandas da casa?

“Foi nada fácil, no início tudo novo, se adaptando, estávamos no automático. Mas o tempo foi passando, momentos muito difíceis, ansiedade batendo, desânimo de ficar na frente do computador, a falta dos amigos e professores, muito ruim. Trabalhar em casa com os filhos no início foi maravilhoso. Mas o tempo foi passando e muitas cobranças surgiram. A gente acabou deixando de lado algumas coisas essenciais, como ter um momento de conversa.”
Bruna (professora)

Toda a dificuldade relatada anteriormente, relacionada à rotina das mães, agora se agrava ainda mais. Conheço colegas que se forçaram a fazer uma escolha quase impossível: ou meus filhos assistem às aulas deles ou eu dou as minhas e garanto meu emprego.

Educação para os filhos ou comida na mesa? O que é uma prioridade? O que acarretará menores prejuízos? E, sobretudo, quem somos nós para julgar qualquer que seja a escolha dessa mulher?

“O trabalho, a vida pessoal e tudo que possa imaginar foi afetado pelas aulas remotas. Eu preciso estar em casa, preparar e ministrar minhas aulas, atender as atividades dos meus dois filhos e, além de tudo isso, aprender a lidar com essas novas ferramentas. Tive que comprar mais computadores e aumentar o pacote de internet, pois todos precisamos usar os aparelhos ao mesmo tempo.”
Roberta (professora)

Uma coisa é certa: no contexto da educação, o ano de 2020 não foi um mar de rosas para ninguém. Mas houve algo positivo que você conseguiu tirar dele?

Algumas flores nascem em pedras

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Mas e as coisas boas? Quais oportunidades a pandemia e o ensino remoto te proporcionaram? Houve mais momentos em família? Desenvolveu habilidades novas? Olha só o que nossas entrevistadas relataram:

“Gastamos mais tempo juntos vendo filmes, ouvindo música, jogando etc. Já fazíamos isso, mas agora com mais frequência, o que as crianças apreciaram.”
Vera (mãe)

“Talvez toda essa situação fez que despertasse uma certa independência e autonomia nos alunos.”
Júlia (professora)

“Com a pandemia, nós ficamos mais tempo juntos, e pude perceber as dificuldades e as habilidades do meu filho nos estudos.”
Jaqueline (mãe)

“Usar games online (que os alunos adoram), poder interagir com coisas que ele tem em casa…”
Amanda (professora)

Agora, com um novo ano se iniciando, podemos fazer um balanço do que foi bom e do que foi ruim em 2020.

E 2021?

Com certeza, 2020 foi um ano de muito aprendizado. Todas nós entramos em 2021 diferentes de antes. Confira, a seguir, o que algumas entrevistadas esperam para este ano:

Expectativas

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“Minha expectativa é que as aulas possam ser retomadas de forma presencial o quanto antes (desde que com absoluta segurança, provavelmente com a vacina, então). Como isso me parece um futuro não muito próximo, imagino que 2021 iniciará de forma remota, se tornará híbrida e pode terminar de forma presencial. Com a experiência adquirida em 2020, talvez possa haver alguma melhora no método remoto. Mas não tenho certeza de nada.”
Rafaela (mãe)

“Acredito que professores têm um certo talento para continuar tocando o barco mesmo quando a maré está contra, então penso que continuaremos dando conta, mesmo que a trancos e barrancos, mesmo que o custo para nossa saúde física e mental não seja levado em consideração (como sempre).”
Ana (professora)

“Será um ano em que sentiremos o impacto na economia, lutaremos contra as sequelas emocionais e as lacunas na educação. Espero que as pessoas repensem suas atitudes para que possamos aprender com tudo isso.”
Vera (mãe)

“Ainda é muito difícil pensar em expectativas tendo em vista todo o momento que estamos vivendo. A maior expectativa, ainda assim, seria a de que tudo pudesse começar a caminhar bem para o ‘novo normal’ na nossa sociedade em todas as áreas.”
Bruna (professora)

E o que será que todas nós aprendemos que será bem-vindo em 2021? Qual dica você, mãe ou professora de agora, daria para você mesma do começo da pandemia?

Nunca se esqueça…

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“Mãe, aproveite esse tempo! Muito embora tudo tenha sido difícil… Olhe para trás e veja os frutos que você e seu filho tem colhido… Juntos vocês descobriram que são capazes de se reinventar! Mesmo assistindo a tantas perdas, tivemos a oportunidade de ganhar! Ganhar com nossa proximidade e descobertas que ficarão registradas em nossa história, como o velho e bom clichê: ‘fizemos de um limão uma limonada’!”
Lídia (mãe)

“Atenha a calma, tente não se estressar tanto, faça o que for possível, pois ninguém estava preparado para isso, mas aconteceu e isso esgotou as energias do ano. Então faça o seu melhor, mas não se cobre tanto, as coisas passam, mas, se ficarmos doentes, tudo piora.”
Bruna (professora)

“Paciência: vai demorar para passar. Não crie expectativas. Não sofra, não chore, não se desespere. Aproveite o tempo que tem livre, logo muitas atividades virão, e você terá que se reinventar e reaprender a ser mãe, profissional, esposa, mulher. Não compre nada, você não terá onde usar (rs).”
Lúcia (mãe)

“Respira, você está fazendo tudo o que está ao seu alcance. E você é forte, e as coisas vão melhorar com o tempo.”
Roberta (professora)

“Esqueça o perfeito! Faça o possível da melhor maneira!”
Giovana (mãe)

“Não exija tanto de si mesma ou dos alunos. O mais importante agora é sair dessa com saúde física/emocional/mental!”
Marlene (professora)

“Mantenha a calma.. Você consegue. Aproveite o momento e se sinta privilegiada por participar do aprendizado do seu filho.”
Rafaela (mãe)

“Pratique atividades físicas e cuide da saúde emocional e espiritual.”
Beatriz (professora)

“Tudo passa e, com esforço e dedicação, superamos e saímos vencedores. Não devemos nos apavorar com o que há de novo e sim incorporar isso em nossa vida e buscar fazer o nosso melhor. O Eu de março é um Eu melhor hoje. Mais confiante e mais aberto ao novo.”
Verônica (mãe)

“Respira! Relaxa! Desapega que não existe perfeição, e o que tua filha realmente precisa é amor e isso tu tem de sobra!”
Raquel (mãe)

“Não se estresse, o conhecimento acontece com coisas simples.”
Manuela (mãe)

Bom, finalizo por aqui essa conversa, com a esperança de ter plantado uma semente de conforto no coração de mães, professoras e de professoras que são mães. E o meu conselho a todas nós é: não deixe que ninguém desmereça seu esforço. Que este ano seja melhor e, pelo menos, mais brando. Seguimos juntas!