Mulheres inspiradoras: Elza Soares

Forçada a se casar aos 12 anos e mãe aos 13, Elza Soares se tornou uma das mais importantes cantoras brasileiras

Escrito por Raquel Praconi Pinzon

Foto: Reprodução / Elza Soares / Daryan Dornelles

Oitenta anos de uma história marcada pela pobreza, pelo racismo e pela violência, mas também pelo talento incontestável e pela força de uma mulher que, apesar de tudo, sobreviveu. Nossa mulher inspiradora de hoje é Elza Soares, eleita a “cantora brasileira do milênio” pela BBC de Londres em 1999.

Trajetória de Elza Soares

Foto: Reprodução / Elza Soares

Elza da Conceição Soares nasceu na favela da Moça Bonita, no Rio de Janeiro, em 1937. Filha de uma lavadeira e de um operário, foi obrigada pelo pai a se casar com apenas 12 anos. No ano seguinte, deu à luz seu primeiro filho. Foi justamente para poder comprar remédios para o recém-nascido que Elza resolveu participar escondida do programa de Ary Barroso na Rádio Tupi – mesmo sua família sendo contra.

Na ocasião, a menina de apenas 38 quilos que usava roupas remendadas por alfinetes e que tinha um jeito muito humilde de falar causou espanto ao apresentador. De forma sarcástica, Barroso perguntou de que planeta ela havia vindo, despertando gargalhadas na plateia. “Do planeta Fome”, respondeu Elza, mostrando que não havia nascido para aceitar calada o que a vida parecia lhe querer impor.

A voz e o talento da pequena cantora impressionaram o apresentador, fazendo-o declarar que “uma estrela havia acabado de nascer naquele momento”. Apesar de ter ganhado algum dinheiro com a participação, o filho de Elza Soares não resistiu.

As tragédias, infelizmente, não pararam por aí: quando tinha apenas 15 anos, Elza perdeu seu segundo filho. Ao todo, o casal teve sete crianças – e foi assim que a cantora se viu sozinha com cinco filhos quando se tornou viúva aos 21 anos. Nessa época, ela começou a trabalhar como faxineira e empregada doméstica, pois antes o marido a proibia de trabalhar fora.

Leia também: Mulheres inspiradoras: Rachel Maia

Além da morte de seus dois filhos, Elza passou pelo trauma de ter sua filha Dilma sequestrada. A menina ficava com um casal, que recebia certa quantia para cuidar dela enquanto Elza trabalhava, até que um dia eles sumiram no mundo com a criança. Mãe e filha só se reencontraram muitos anos depois, quando Dilma já era adulta.

A voz que sobreviveu à violência

Foto: Reprodução / Elza Soares / Leo Mascaro

Apesar de todas as dificuldades, Elza Soares nunca havia desistido de cantar. Com sua voz rouca inconfundível, ela conseguia fazer pequenas apresentações no rádio e na televisão. Quando estava começando a ser reconhecida no cenário do samba, Elza conheceu o célebre jogador de futebol Garrincha, considerado herói nacional, que na época ainda era casado.

Com o divórcio do jogador, Elza foi massacrada pela mídia e virou alvo de todo o país, que a culpava pelo fato de Garrincha ter abandonado a mulher e as filhas – embora ele já tivesse tido três esposas e não fosse tão próximo de seus filhos dos casamentos anteriores. Elza recebeu ameaças de morte, teve sua casa alvejada por ovos e tomates e era chamada de “vadia” e de “bruxa”.

Os xingamentos vinham inclusive dos próprios amigos de Garrincha, que se irritavam porque a cantora não queria que ele bebesse – em diversas ocasiões, Depois de casados, Elza chegou a rodar os bares da cidade pedindo que ninguém desse álcool ao marido.

Embora Elza tenha tentado proteger Garrincha do alcoolismo, sua luta não foi suficiente para impedir que o jogador, embriagado, colidisse contra um caminhão. O acidente deixou a cantora e sua filha Sara machucadas sem muita gravidade, mas a mãe dela, Dona Josefa, morreu ao ser arremessada para fora do veículo.

Leia também: 13 coisas que nós sempre quisemos te dizer, mas nunca falamos

O pesadelo que Elza viveu com Garrincha não terminou por aí. Mesmo casados e com um filho, o jogador era extremamente ciumento e violento, e bateu nela diversas verses, inclusive quebrando seus dentes em uma ocasião.

Em 1982, Elza e Garrincha se divorciaram depois de 16 anos de casamento. No ano seguinte, o ex-jogador morreu de cirrose, deixando-a muito abalada. Como se todo o sofrimento não tivesse sido suficiente, o filho de Elza e Garrincha faleceu em um acidente de carro em 1986, com apenas 9 anos.

“Me deixem cantar. Me deixem cantar até o fim”

Foto: Reprodução / Vitória Proença

Mesmo depressiva e tendo tentado o suicídio, a cantora, com seu talento que já havia percorrido o mundo, viu sua carreira continuar. Assim, em 1999 ela foi escolhida pela BBC de Londres como “a cantora brasileira do milênio” – um reconhecimento mais do que merecido por quem pede que a “deixem cantar até o fim” na canção “A Mulher do Fim do Mundo”, do álbum homônimo de 2015, o primeiro com músicas inéditas.

Foi neste álbum também que Elza Soares parece ter conseguido dar voz à sua revolta contra a violência que sofreu, por meio da música “Maria da Vila Matilda” e seu emblemático verso “Você vai se arrepender de levantar a mão pra mim”. Não à toa, o disco, que também critica o racismo, virou referência para a luta feminista no país.

Com a repercussão, “A Mulher do Fim do Mundo” ganhou o Grammy Latino de melhor álbum de MPB, o Troféu APCA da Associação Paulista de Críticos de Arte e o Prêmio da Música Brasileira, entre diversas outras indicações e conquistas.

Leia também: Sororidade: empatia e solidariedade fortalecendo a rede de mulheres

E quando Elza Soares disse que queria cantar até o fim, ela não estava falando da boca para fora: “Deus É Mulher”, o próximo álbum da cantora, que será repleto de mensagens de empoderamento feminino e homenagens às origens africanas, está com lançamento marcado para maio deste ano.

O que podemos aprender com Elza Soares

Foto: Reprodução / Elza Soares / Patrícia Lino

A história de sobrevivência de Elza Soares é uma sequência de lições inspiradoras. Estas são algumas que escolhemos destacar pensando no Dia Internacional da Mulher:

1. Mulheres fortes também estão sujeitas a relacionamentos abusivos

Não é raro vermos críticas a mulheres declaradamente feministas que se veem envolvidas em um relacionamento abusivo. Como nos mostra a história de Elza Soares, todas nós estamos sujeitas a isso, por mais forte que sejamos. Até hoje, a cantora afirma que Garrincha foi um grande amor, talvez o maior de sua vida. Portanto, em vez de questionar a força ou o empoderamento das vítimas, nosso papel é dar apoio a elas e combater a ação dos agressores.

2. Nossa voz não pode ser calada

Elza Soares não pôde gritar enquanto foi agredida pela mídia, pela sociedade e pelo marido, mas isso não calou sua voz eternamente. Hoje, perto de completar 81 anos, a cantora segue firme no seu propósito de cantar a valorização da mulher, a liberdade sexual e o respeito às etnias, mesmo que sua saúde quase não lhe permita mais.

Há anos, a cantora sofre com um gravíssimo problema na coluna causado por uma queda do palco e uma cirurgia, o que a impede de usar o salto 15 que ela tanto amava. Mesmo que tenha que se apresentar sentada e que o fôlego não seja mais o mesmo, Elza continua transmitindo sua mensagem.

Leia também: 10 músicas feministas para você ouvir e se empoderar

3. Devemos priorizar a união entre as mulheres

Ninguém diria que Elza Soares não é uma legítima feminista, certo? Contudo, ela mesma tinha dúvidas sobre ser uma representante desse movimento. Em entrevista ao Huffington Post em 2015, ao ser questionada sobre se considerar feminista, a cantora declarou: “Eu não sei o que eu me considero [risos]. Eu sou mulher. Sendo feminista ou não, eu sou mulher. Mulher que grita, que briga, que busca para que aconteça o melhor. Sempre.”

Infelizmente, a palavra “feminista” ainda causa receio em muita gente – inclusive em mulheres que tiveram uma trajetória de luta e são exemplos para todas nós. Nesses casos, em vez de criar ainda mais desunião, que tal pensarmos que nem todas as mulheres tiveram oportunidade de entender o que significa o feminismo?

Assim como Elza Soares foi duramente criticada e ameaçada, muitas de nós continuam passando por situações parecidas. As mulheres que vieram antes de nós abriram caminhos, mas ainda precisamos conquistar muito mais. Unidas, essa tarefa será menos dolorosa.

Assuntos: Mês da Mulher, Poder

Dicas pela Web