Dieta do leite: como funciona e quais são os riscos de adotar essa e outras “dietas da moda”

A promessa é emagrecer até 7 quilos em 8 dias, mas, como em outras dietas da moda, o cardápio é totalmente restritivo e pode oferecer prejuízos à saúde

Escrito por Tais Romanelli
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Atualmente, muitas pessoas procuram – especialmente na internet – maneiras eficazes e rápidas de perder peso. A partir daí, deparam-se com dietas totalmente restritivas, que prometem emagrecimento – às vezes – de até 10 quilos em 1 semana.

Em muitos casos, não é difícil que a perda de peso realmente aconteça, afinal, usam-se dietas totalmente radicais, que tiram praticamente tudo o que a pessoa come ou deveria comer no dia a dia. Assim, com um déficit de calorias, geralmente ocorre o emagrecimento. Porém, não é difícil imaginar também que essa perda de peso logo será “superada”, e a pessoa, ou voltará ao seu peso anterior, ou, pior: engordará mais!

Querer perder peso é totalmente saudável em alguns casos, mas desejar uma perda de peso rápida – para não se dizer “milagrosa” – é um equívoco que, além de não proporcionar um emagrecimento seguro e definitivo, poderá trazer sérios riscos à saúde.

Para entender melhor como essas dietas restritivas funcionam, por que tendem a “dar errado” e quais problemas oferecem à saúde, você conhece abaixo a chamada “dieta do leite”, que promete emagrecimento de até 7 quilos em apenas 8 dias.

Como funciona a dieta do leite

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Essa é uma dieta difundida na internet, que propõe que a pessoa passe oito dias se alimentando basicamente de leite, sendo assim, uma “dieta de emergência”. Na linha de outros “regimes da moda” – como dieta da sopa, dieta da lua, entre outras –, a dieta do leite propõe substituir as principais refeições diárias pelo leite, praticamente excluindo o consumo de outros alimentos ao longo do dia.

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Na verdade, a pessoa não fica “proibida” de consumir outros alimentos, mas eles devem ser exceções, para “não prejudicar o resultado final” da dieta – que é de até 7 quilos em apenas 8 dias.

Para entender melhor como esse tipo de dieta funciona, abaixo você confere o cardápio da chamada dieta do leite:

1º dia

  • 6 copos de leite ao longo do dia (nas principais refeições ou quando sentir fome)

2º dia

  • 4 copos de leite ao longo do dia (nas principais refeições ou quando sentir fome) + 2 frutas à escolha

3º dia

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  • Ao longo do dia todo: 2 copos de leite + 2 frutas + queijos à vontade

4º dia

  • Ao longo do dia todo: 4 copos de leite + 1 fruta + 1 bife grelhado de 100g

5º dia

  • Ao longo do dia todo: 2 copos de leite + 2 frutas + 1 ovo cozido + 1 bife grelhado de 100g a 150g

6º dia

  • Ao longo do dia todo: 2 copos de leite + 1 fruta + 1 ovo cozido + 1 bife grelhado de 100g a 150g + queijos à vontade

7º dia

  • Ao longo do dia todo: 3 copos de leite + 3 frutas

8º dia

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  • Ao longo do dia todo: 2 copos de leite + 1 fruta + 1 bife grelhado de 100g a 150g + queijos à vontade

Vale destacar que este é um dos cardápios associados à dieta do leite, pois podem existir variações relacionadas especialmente aos alimentos que podem ser consumidos ao longo do dia (além do leite). Mas, vale destacar: nem este cardápio, nem outras variações da dieta do leite são indicados.

O cardápio aqui exposto funciona apenas como uma exemplificação para abordagem do assunto, e não como uma “indicação de dieta”.

Benefícios do leite X Desvantagens do consumo

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Mais do que a polêmica em torno de dietas restritivas, a chamada dieta do leite traz à tona outro assunto importante, porém, que tem causado dúvidas: os benefícios ou malefícios do leite (ainda que inserido dentro de uma dieta equilibrada).

Isso porque, hoje, alguns profissionais defendem que o leite não deve ser consumido por ninguém; enquanto outros acreditam que, se a pessoa não tem nenhuma intolerância, pode consumir o leite dentro de uma dieta equilibrada. Neste contexto, frequentemente surgem as dúvidas: afinal, quais benefícios o leite pode oferecer à saúde? E por que em alguns casos não é indicado?

Para Patrícia Ceolin Grassi, mestre em Metabolismo e professora dos cursos de Nutrição e Medicina da Unic, o leite é considerado um alimento completo que, além de fornecer proteínas de alto valor biológico, é rico em vitaminas e minerais como vitamina A, complexo B, D, cálcio, fósforo, magnésio, zinco.

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“O cálcio, por exemplo, é um mineral fundamental para a saúde óssea e, além disso, vários estudos científicos comprovam a eficácia do cálcio para controle da pressão arterial. Já os suplementos alimentares contendo esse mineral não desempenham o mesmo papel do cálcio oriundo de alimentos fonte”, diz Patrícia.

Nadya Mambelli, coordenadora do curso de Nutrição da Anhanguera de Campo Limpo, ressalta que o Conselho Federal de Nutrição possui parecer técnico sobre o tema, o qual ela destaca abaixo:

  1. O leite de vaca e de outras espécies animais são excelentes fontes de nutrientes e podem fazer parte de uma dieta normal de indivíduos em todas as fases do desenvolvimento, especialmente na infância.
  2. A recomendação indiscriminada para restrição ao consumo de leite e derivados não encontra atualmente respaldo científico com nível de evidência convincente e está em desacordo com o Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar 2007.
  3. A restrição ao consumo de leite e derivados somente deve ser feita aos pacientes com diagnóstico clínico confirmado de Intolerância à Lactose, sensibilidade à proteína do leite (Alergia à Proteína do Leite de Vaca – APLV) ou de outras condições fisiológicas e imunológicas. Deve-se salientar que o diagnóstico clínico é de competência exclusiva do médico.
  4. O descumprimento dessa diretriz aponta indícios de infringência ao Código de Ética do Nutricionista (Resolução CFN nº 334/2004), por desrespeito ao Princípio Fundamental, explicitado no seu artigo 1º, e pelo descumprimento do artigo 6º, inciso VI, sujeitando os infratores a Processo Disciplinar e às penalidades previstas na legislação.

Patrícia lembra que muitas pessoas, até mesmo profissionais da área da saúde, orientam o não consumo do leite de vaca e seus derivados, por acreditarem que aproximadamente 70% da população sofrem de intolerância à lactose, por apresentarem alguns sintomas como inchaço, dores abdominais, flatulência, diarreia e vômitos. “Mas, muitas vezes, esses desconfortos se dão devido à qualidade do leite, por isso sempre aconselho o consumo do leite pasteurizado (leite de saquinho), que não sofre tantos processos como leite UHT (de caixinha) para ‘sobreviver’ por mais tempo nas prateleiras e dispensas”, diz.

Para Nadya, muitas pessoas desaconselham o consumo de leite pelo fato de muitas informações nutricionais gerarem polêmicas e serem abordadas de forma não técnica e científica. “Há estudos que demonstram que o consumo de leite deve ser limitado e restrito, porém, estes são recentes e sem números quantitativos favoráveis. Todas as pessoas possuem recomendações distintas e devem procurar um profissional nutricionista para adequá-las na alimentação”, destaca.

Diferenças entre os leites desnatado, semidesnatado e integral

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As diferenças, explica Patrícia, se dão pela concentração de gordura. “O leite integral, por exemplo, tem aproximadamente 3% de gordura e a concentração de vitaminas e minerais é preservada. O semidesnatado passa por procedimentos onde é feita a retirada de gordura e sua composição apresenta entre 0,6 a 2,9% de gordura e as vitaminas e minerais também são preservadas. Já o leite desnatado, além de sofrer uma diminuição quase completa na concentração de gordura, ainda perde vitaminas como A e D. Com relação a qual leite seria o mais indicado, vai depender do quanto de gordura e caloria a pessoa quer e pode ingerir”, destaca.

Nadya reforça que cada pessoa possui um perfil nutricional, por isso, a avaliação deve ser individualizada e nenhuma dieta deve ser generalista. “As vitaminas lipossolúveis (Adek) são transportadas, metabolizadas e absorvidas com auxílio de gordura, ou seja, se uma pessoa precisa de um maior aporte dessas vitaminas deve ter um equilíbrio entre o consumo de gorduras. A Sociedade Brasileira de Pediatria não recomenda o uso de leites desnatados para crianças, pois as crianças precisam de gorduras para metabolizar vitaminas, hormônios de crescimento e também para manter o bom desenvolvimento. O correto é fazer um balanço entre o consumo alimentar e evitar alimentos restritos de algum nutriente, por exemplo: alguns leites desnatados possuem adoçantes e outras substâncias que também são tóxicas para crianças e algumas pessoas com patologias”, explica.

Dieta do leite: efeitos e pontos negativos

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Talvez você esteja se perguntando: por que não aderir à dieta do leite como uma “dieta emergencial”?

Patrícia comenta que, em relação a este tipo de dieta, existe um histórico de longa data. “Nós, nutricionistas, já perdemos as contas da quantidade de dietas que são divulgadas todos os dias. Se elas realmente funcionassem, não existiriam tantos tipos e tantas pessoas que aderem e ficam tão frustradas com os falsos resultados! Enfim, se determinada dieta funcionasse mesmo, não seria necessário formular outra! Além dessas dietas serem prejudiciais à saúde”, diz.

Nadya ressalta que essas dietas não fazem parte dos critérios técnicos e científicos da Nutrição, por isso não são aconselhadas. “Elas não atendem às diretrizes de recomendações de nutrientes nacionais e internacionais. Os pacientes ou pessoas que aderem a esse tipo de conduta podem ter grandes prejuízos à saúde, até mesmo ganho de peso”, diz.

Ainda sobre a possibilidade de aderir à dieta do leite de maneira segura, Patrícia afirma: “não existe nenhum tipo de dieta restritiva com maneira segura a ser aderida e seguida”.

Nadya destaca os principais riscos de se aderir a dietas restritivas, como, por exemplo, a dieta do leite:

  • Anemia ferropriva;
  • Doenças do sistema imunológico;
  • Doenças do sistema gastrointestinal;
  • Fraqueza;
  • Dores de cabeça;
  • Dores no peito;
  • Cansaço excessivo;
  • Diminuição do metabolismo e transtornos alimentares.

Patrícia reforça que não é somente a dieta do leite, mas qualquer dieta restritiva tem seus malefícios. “Segundo estudos, cerca de 80% das pessoas que começam dietas restritivas (principalmente essas dietas da moda que surgem todos os dias, como a dieta do limão, da lua, da sopa, shakes, e agora a dieta do leite) voltam a engordar e, muitas vezes, ganhando ainda mais peso do que quando iniciaram”, diz.

“De uma forma geral, essas dietas restringem e diminuem o consumo alimentar, reduzindo calorias que, inicialmente, podem levar à perda de peso. Mas, por serem muito restritivas, chega um momento em que o indivíduo não consegue mais segui-las e, por consequência, ‘desconta’ suas vontades e anseios e come grandes quantidades de alimentos que eram ‘proibidos’ na dieta”, explica a nutricionista Mestre em Metabolismo.

O problema, ainda de acordo com Patrícia, é que a maioria das pessoas pensam que evitar ou proibir o consumo de determinados alimentos que gostam vai fazer com que se sintam melhores. “Pior, pensam que essa restrição irá refletir na sua composição corporal. Ledo engano! O que acontece é que, ao se proibir um alimento, este se torna exatamente o que a pessoa mais anseia como se ocorresse uma valorização imediata do mesmo. E, quando a pessoa começa a consumi-lo, pode chegar a perder o controle e ter uma compulsão, efeito já muito bem descrito na literatura científica: restrição gera compulsão!”, explica.

“Um dos efeitos mais notórios das dietas é que elas deixam as pessoas obcecadas por comida. Elas ficam pensando em como querem emagrecer enquanto assistem o chef famoso na TV cozinhando”, acrescenta Patrícia.

A nutricionista Mestre em Metabolismo destaca que as pessoas têm que ter consciência de que alimentação não é um ato tão simples como muita gente pensa. “Ela é muito complexa, pois existem vários fatores: escolha alimentar = valor social, cultural, emocional, entre outros”, diz.

“O essencial é comer consciente e respeitar as vontades. Prefira alimentos in natura, frescos e saudáveis, o famoso ‘desembale menos e descasque mais’”, orienta Patrícia.

Isso não significa que a pessoa não poderá mais comer brigadeiro, hambúrguer, pastel ou outros alimentos que a sociedade vem “condenando”. “Mas, coma com satisfação, com vontade, sem culpa ou remorso. É muito mais saudável e consciente comer um chocolate depois do almoço do que se privar e ter uma compulsão comendo duas caixas de uma só vez sem saborear, sem satisfação. Pense nisso! Se permita ter um relacionamento saudável com os seus alimentos preferidos, não se trata de uma relação de preocupações, proibições, exageros e compulsões, mas de uma relação saudável”, reforça Patrícia.

“A grande libertação dessas dietas mirabolantes virá quando compreendermos que, com uma alimentação equilibrada, podemos sim incluir todos os tipos de alimentos. E, da próxima vez que alguém vier falar de uma dieta nova, corra! Literalmente! Com uma alimentação mais natural e atividade física, você terá mais saúde, não apenas física, mas emocional. A procura por um profissional para auxiliar nesse processo é fundamental”, finaliza a nutricionista Mestre em Metabolismo.

Agora você já tem todas as informações e pode tomar suas próprias decisões: vale a pena aderir à chamada dieta do leite ou a outras do tipo? Vale a pena se propor a perder até 7 quilos em 8 dias, mas, depois, recuperar todo o peso perdido ou engordar até mais? Vale a pena, sobretudo, colocar em risco a sua saúde?

Por tudo isso, a única maneira segura e eficaz de perder peso é procurar um profissional que possa te passar um cardápio saudável e equilibrado, levando em conta suas particularidades e objetivos. Ter essa consciência é, sem dúvidas, o primeiro passo para uma reeducação alimentar de sucesso!

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