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Depressão pós-parto: psicóloga explica sintomas, causas e tratamentos

A depressão pós-parto é um transtorno do humor que pode surgir durante a gestação ou após o nascimento do bebê

em 01/08/2017

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O nascimento do bebê é um acontecimento para ser festejado pela mamãe e pela família, é tempo de fazer muitos planos. Mas, algumas vezes, não acontece da forma como a maioria das pessoas imagina. São os casos de depressão pós-parto, em que, algum tempo depois da chegada do pequeno, a alegria dá lugar à tristeza, sensação de vazio e angústia.

A psicóloga Luciana Rocha, especialista nos universos materno e infantil e autora do programa Tons da Maternidade, explica que a depressão pós-parto é caracterizada por qualquer episódio depressivo que se apresente durante a gestação ou após o parto.

Segundo ela, os maiores riscos para os filhos de uma mãe depressiva são relacionados ao desenvolvimento neurocognitivo e psicomotor. São crianças que recebem menos estímulos e, por isso, apresentam atrasos importantes em seu desenvolvimento. Além de possuem maiores riscos de desenvolverem sintomas depressivos e déficits de aprendizado no futuro.

Mas um dos principais problemas é o fato de culparem e julgarem a mãe por toda essa situação. “Eu percebo que a depressão pós-parto ainda provoca algumas crenças errôneas, como se a mulher deprimida fosse incapaz de cuidar de seu bebê ou colocasse sua vida em risco ou isso a desqualificasse enquanto mãe. Todas essas crenças são baseadas em mitos. A mulher pode sim ter alguma dificuldade em cuidar sozinha do bebê, mas, na realidade, nenhuma mulher deveria ter que cuidar sozinha do seu bebê. Além disso, somente os casos mais graves colocam a vida em risco, seja da mãe ou do bebê – em geral, esses casos são fáceis de serem percebidos e admitidos, que requerem maior cuidado. E nenhuma mãe deveria ser desqualificada para cuidar de seu filho, se não for de seu interesse consciente. Não existe mãe melhor ou pior que outra mãe. Isso precisa ficar claro. Uma mãe adoentada requer cuidados para que possa continuar sendo para si e para seus filhos”, esclarece a psicóloga.

Quais os sintomas da depressão pós-parto?

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Algumas características gerais podem ajudar a perceber que uma mulher está com depressão pós-parto. “Costumo falar que a depressão pós-parto tem três manifestações típicas e que requerem atenção diferenciada: a mulher que não consegue cuidar do bebê, que se sente tão incapaz e tão impotente que prefere não chegar perto dele, no intuito de protegê-lo; o oposto desse caso, que é a mulher que superprotege o bebê e que acredita que somente ela é capaz de compreender e suprir as necessidades dele, impedindo o contato de qualquer outra pessoa, inclusive o pai; e a terceira, que é a mais comum e a mais difícil de ser percebida, pois é um meio termo, a mulher que cuida do bebê como deveria, aparentemente, mas não se sente bem e apresenta sintomas típicos da depressão”, explica Luciana Rocha. Dentro destes quadros, os principais sintomas são:

Humor deprimido: Tristeza constante, mesmo sem razão aparente. Mesmo estando tudo bem, a mulher não se sente bem, feliz ou tranquila. É como se estivesse sobrecarregada, tensa, preocupada e triste por todo o tempo ou na maior parte do tempo.

Desânimo: Falta de ânimo, falta de energia para a realização das atividades, mesmo as mais simples e corriqueiras, ou àquelas que eram comuns ou tinham interesse anteriormente.

Perda de prazer: Não se interessa mais para as atividades que se interessava antes, não se realiza ou se satisfaz. Faz o que é preciso e porque é preciso somente, cumpre com as obrigações.

Cansaço: Sensação constante de cansaço e falta de energia. Ao menor esforço, encontra-se imensamente cansada. A sensação de cansaço não é diretamente proporcional ao esforço realizado.

Falta de concentração: Não tem energia suficiente para manter-se concentrada ou com a atenção focada pelo mínimo tempo sequer.

Alteração do sono e apetite: Insônia e excesso de sono são relatados frequentemente. Sono durante o dia e insônia, nas noites. O apetite também é afetado, em geral, pela falta de interesse pelos alimentos, mas pode acontecer também o oposto.

Mas, de acordo com a especialista, há dificuldade em identificar esses sintomas, já que eles são similares ao estado de humor dessa fase.

Causas e fatores de risco da depressão pós-parto

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O problema pode se manifestar ainda na gestação, especialmente no último trimestre. Mas segundo a especialista, “os picos de maior risco de surgimento da depressão pós-parto são: 30/40 dias após o parto; terceiro mês; sexto mês e 1 ano”, diz.

Luciana também explica que, segundo pesquisas, as causas da depressão pós-parto são multifatoriais. Ou seja, envolvem fatores físicos, psíquicos e sociais. Além disso, sabemos também que quanto maior a expectativa, maior a idealização com o bebê, maior o risco de depressão. Entre as causas comuns, são:

  • Queda rápida dos hormônios no pós-parto;
  • Expectativas altas associadas à maternidade e ao pós-parto;
  • Histórico pessoal de depressão, episódio depressivo ou ansioso durante a gestação;
  • Gravidez altamente desejada ou que exigiram tratamento como inseminação artificial ou fertilização in vitro;
  • Falha no apoio social – rede de apoio insuficiente ou deficiente;
  • Complicações obstétricas e/ou parto prematuro;
  • História de abuso sexual ou de relação conflituosa com a mãe;
  • Conflitos no relacionamento conjugal;
  • Gravidez não desejada;
  • Baixa autoestima.

Mas é importante diferenciar uma tristeza pós-parto da depressão. Isso varia de acordo com o tempo e a intensidade dos sintomas e dos sentimentos envolvidos. “Na depressão, é muito comum o sentimento de impotência e incapacidade. Na tristeza pós-parto, o sentimento mais comum e de estranhamento. Essa tristeza tende a durar 15 ou 20 dias e a acabar naturalmente. A depressão pós-parto tende a surgir depois disso e requer intervenções”, diz a psicóloga Luciana Rocha.

Como tratar a depressão pós-parto

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Assim que a mulher ou acompanhante perceberem que algo está fora dos eixos, a ajuda deve ser solicitada. “Qualquer momento é momento para pedir ajuda, mesmo que seja apenas a tristeza purperal, afinal, essa fase do puerpério é extremamente dolorosa, delicada e por vezes solitária, mas não precisa ser sempre assim. Além disso, quanto antes se procura ajuda, maiores as chances de remissão da doença ainda no começo e mais chance de sucesso no tratamento”, explica a profissional.

Muitas vezes, o primeiro profissional que identifica ou desconfia da depressão materna é o obstetra ou o pediatra. São eles quem fazem o encaminhamento tanto para psiquiatras quanto psicólogos, que são profissionais capacitados para realizarem o diagnóstico.

Os tratamentos são diferentes para cada tipo de depressão. Existe a mais leve, a moderada, a grave e a severa. Os dois últimos casos requerem acompanhamento psicológico e psiquiátrico conjunto. A moderada depende do caso. Para a maioria das mulheres com depressão leve, a psicoterapia é suficiente.

Quando os medicamentos são necessários, mesmo a mulher que amamenta pode fazer seu tratamento sem riscos para o bebê. “Existem diversos medicamentos que são completamente compatíveis com a amamentação, inclusive, com a amamentação em livre demanda. Porém, nesses casos, ela precisa ser acompanhada por um psiquiatra que compreenda bem o ciclo gravídico-puerperal e o desenvolvimento infantil, ou, ter um bom pediatra apoiando seu tratamento e orientando o psiquiatra que a acompanha quanto às medicações indicadas. Também é muito eficaz participar de rodas de mães, psicoterapia (individual, familiar ou em grupo), atividade física, alimentação balanceada”, explica.

A duração média do tratamento também varia para cada caso. Nos mais leves, pode durar apenas seis meses. Nos mais graves, três anos ou até mais. “Depois de tratada, é importante estar atenta aos sintomas. Qualquer sinal de retorno, por menor que pareça, requer uma avaliação o quanto antes. No mais, a vida segue normalmente”, afirma.

Como prevenir a depressão pós-parto?

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A psicóloga Luciana explica que é possível prevenir a depressão pós-parto, principalmente em mulheres que já apresentaram, em algum momento da vida, algum dos sintomas citados. Existem projetos, como o Programa de Pré-Natal Psicológico ou Pré-Natal Emocional, que oferecem acompanhamento psicológico com apoio de uma equipe interdisciplinar, individual ou em grupo, para tratar das expectativas, planejamentos e realidades acerca da gestação, parto, maternidade, parceiro e família.

A ideia é preparar a mulher para o exercício da maternidade e para a chegada do bebê, trabalhando todas as transformações implicadas, a partir de suas potencialidades e dificuldades possíveis.

O apoio da família e das pessoas próximas depois do nascimento do bebê também é importante. “A primeira dica para a família é paciência. A segunda, amor. Essa mulher precisa ser e se sentir amada, respeitada e acolhida pela família. Julgamentos não ajudam nessa hora. Cobranças, também, não”, finaliza.

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