O manual da crítica construtiva: o que é, como identificar, como lidar e como fazer

Uma sugestão construtiva é baseada no desejo sincero de ajudar o outro, de ver sua melhora, e nunca de ofendê-lo

Escrito por Tais Romanelli

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Quem nunca ouviu ou fez, pelo menos uma vez na vida, uma crítica a alguém? Você consegue se lembrar como foi esta crítica: foi bem recebida ou gerou certo desconforto?

O significado da palavra “criticar”, de acordo com o dicionário, é: apontar defeitos; dizer mal de (alguém ou algo); depreciar; censurar. Mas será que as críticas são, então, sempre tão ruins assim? Ou, de fato, existem aquelas que são “construtivas”, que vêm “para somar”, fazer o bem a outra pessoa?!

Mario Louzã, médico psiquiatra e psicanalista, comenta que uma crítica consiste em um julgamento de algo, um processo de discernimento de algo. “Embora na filosofia o termo ‘critica’ não tivesse na sua origem a ideia de algo negativo, a palavra adquiriu esta conotação e, quando falamos de crítica, trata-se sempre de um julgamento de algo ‘errado’ (o antônimo seria o elogio)”, diz. Porém, para o médico, uma crítica bem feita, pode, sim, trazer bons resultados.

Lizandra Arita, psicóloga especialista em clínica e institucional, explica que não concorda com esse conceito, que se estabeleceu, de crítica construtiva. “Crítica é crítica. O significado da palavra, no dicionário, já a explica. E normalmente a crítica vem porque não aceitamos algo que o outro fez ou que ele não fez do jeito que gostaríamos que ele fizesse”, diz.

“A crítica tem um fundo em algumas questões emocionais, como a expectativa em relação ao outro ou a algo e a necessidade de controle. À medida que as pessoas não fazem aquilo que gostaríamos, criticamos. Ou se ela faz, mas não faz da forma como gostaríamos que ela tivesse feito, criticamos. E se ela fez melhor, criticamos”, comenta a psicóloga.

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Para Lizandra, o mais adequado é falar em sugestão (que seria um conceito mais aproximado da tal crítica construtiva). “Quando eu sugiro algo ao outro, no sentido de ensinar, de explicar, eu quero realmente o bem e o crescimento. Afinal, sugerir não é uma imposição. A sugestão respeita o livre arbítrio das pessoas. A sugestão dá ao outro a opção de acatar ou não. Quando eu ensino uma coisa a uma pessoa, por algo que poderia ser melhor, eu tenho realmente o desejo de que aquilo seja melhor. São conceitos muito diferentes, disparados por sensações distintas dentro de nós”, explica.

Neste sentido, você confere as dicas dos profissionais exatamente para que a crítica construtiva seja feita (e encarada) como uma sugestão (construtiva) e não como algo vazio que deprecia, censura ou, simplesmente, aponta defeitos no próximo.

Benefícios da crítica construtiva

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Uma crítica/sugestão construtiva só tem a chance de ser bem recebida quando for bem feita/colocada. E o primeiro passo, talvez, seja pensar exatamente em quais situações ela poderá ser feita.

Para Lizandra, as sugestões de melhora podem ser feitas em duas situações:

  • “A primeira é quando a pessoa pede a nossa opinião, recorre à nossa ajuda ou solicita uma sugestão. Aí sim, somos acionados pelo outro, temos a sua permissão, e podemos emitir alguma sugestão, indicando um melhor caminho do que já foi adotado. Isso é um sinal de respeito, afinal, ninguém sabe melhor da nossa vida do que nós mesmos. Intervir nas escolhas alheias é falta de respeito e ninguém tem o direito de fazer isso”, explica a psicóloga.
  • “O segundo caso é quando as atitudes do outro têm impacto diretamente em nós. Por exemplo, em um relacionamento amoroso. Se as atitudes do marido refletem na vida da mulher, ela pode conversar e sugerir novos caminhos ou mudanças, se algo não vai bem”, explica Lizandra.

“Nas duas situações, vale ressaltar, respeito, tranquilidade e educação caem muito bem, pois mesmo sugestões boas de mudança podem ser desconfortáveis e machucar o outro. Por isso, é preciso cuidado nessa situação, para não ferir desnecessariamente as pessoas”, destaca a psicóloga.

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Levando em conta que a crítica/sugestão construtiva seja bem colocada e feita em momento adequado, suas vantagens são muitas:

1. Ampliar horizontes para ter uma visão menos ensimesmada

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Para Louzã, uma crítica bem feita, com uma boa análise do objeto da crítica e muitas vezes com uma visão alternativa àquela que o “criticado” tem, pode ampliar o horizonte e auxiliá-lo a melhorar algum aspecto seu ou de algo que esteja fazendo ou desenvolvendo. “É um olhar externo muitas vezes mais objetivo do que o do criticado, uma vez que este frequentemente adota a postura de ‘mãe coruja’ de sua ideia ou daquilo que está desenvolvendo, não percebendo ou não visualizando outros ângulos possíveis”, diz.

Lizandra destaca que fazer uma sugestão construtiva pode ajudar o outro ter uma visão menos ensimesmada (egocêntrica/ voltada ao interior de si mesmo). “Ou seja, trata-se de alguém que vê as atitudes de fora da emoção, trazendo mais clareza, iluminação e isenção de emoções.”, diz.

2. Orientar nos momentos de desespero

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“Há momentos em que o desespero toma conta do sujeito e ele não consegue ver nada em sua frente, pois algumas sensações, como o medo, a insegurança e a rejeição, cegam e o tiram de sua racionalidade, deixando tudo a nível inconsciente, ou seja, só no âmbito das emoções. Aí, se neste momento tem alguém que pode dar uma orientação clara e objetiva, ajudando a resolver o impasse, é um grande alívio”, explica Lizandra.

3. Compartilhar experiências pessoais positivas

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“Essa é uma postura positiva, pois não é invasiva e respeita a individualidade e a escolha do outro. Quando falamos das nossas experiências, de como agimos, como realizamos tal feito, que recursos usamos para atingir os objetivos e do que sentimos, mostramos ao outro o que deu certo para nós. Se isso servir para o outro e quiser se espelhar é uma escolha dele. Essa conduta minimiza aquele péssimo hábito que alguns têm de dizer ‘se eu fosse você’.”, destaca a psicóloga.

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4. Estreitar relações

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Uma crítica/sugestão construtiva pode, sem dúvidas, estreitar relações. Quando a sugestão é bem colocada, deixa subentendido suas intenções – que são positivas, no sentido de ajudar, mostrar novos caminhos, compartilhar experiências, desejar o bem.

Uma crítica/sugestão construtiva é bem diferente de uma crítica vazia ou ainda, de uma crítica que carrega maldade, inveja, que deprecia o próximo e não demonstra a mínima intenção de ajudar.

Apesar das vantagens de uma crítica/sugestão construtiva, é bom saber que ela pode ser recebida pelo próximo de diferentes maneiras. Avaliar o grau de intimidade com a pessoa, pensar na maneira como se vai falar, estar aberta para o diálogo (após fazer a crítica/sugestão) são apenas algumas medidas que ajudam a crítica/sugestão ser bem recebida.

Crítica construtiva x Crítica destrutiva

É fundamental entender as diferenças entre fazer uma crítica/sugestão construtiva e fazer uma crítica vazia, desnecessária, ofensiva. Avalie:

A diferença está nas palavras

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“É possível dizer a mesma coisa de um modo mais elaborado, delicado, usando termos mais elegantes ou educados, usando eufemismos, ou posso dizer algo de modo seco, cru, sem medir as palavras, usando termos chulos ou ofensivos”, comenta Louzã. E vale lembrar que bom-senso e educação são fundamentais, independentemente do grau de intimidade que você tem com a pessoa e/ou ainda que ela peça sua opinião…

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Numa situação hipotética: sua irmã experimenta um vestido, demonstra ter gostado dele, mas você quer dar sua opinião a respeito. Confira a diferença entre a primeira (destrutiva) e a segunda (construtiva) frase:

Crítica destrutiva:

“Você está horrorosa com este vestido… Não saia de casa assim, estou dizendo isso para o seu bem!”

Crítica construtiva:

“Acho que este vestido não ficou tão legal… Que tal experimentar aquele outro para podermos comparar?!”

A sinceridade é válida, mas o segredo está na escolha das palavras. Escolha um jeito claro, porém gentil de colocar os pontos que deseja.

O desejo sincero de ajudar (e não depreciar)

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Lizandra destaca que a sugestão construtiva é baseada no desejo sincero de ajudar o outro, de ver sua melhora, seu crescimento, dando opções de atitudes reais, claras e objetivas de caminhos melhores. “Ela não exclui, não julga, não menospreza, não minimiza”, diz.

Já a crítica é sempre destrutiva quando aponta defeitos, deprecia e censura, sem dar opções de atitudes resolutas. “A crítica é carregada de julgamento, totalmente baseada nas emoções que o outro dispara em quem critica e não no desejo sincero de ajudar”, diz a psicóloga.

Abaixo, Lizandra exemplifica como uma sugestão pode ser feita de forma construtiva em comparação a críticas destrutivas.

Sobre filhos…

    Sugestão construtiva:

    “Eu comecei a oferecer a chupeta para meu filho, assim ele dormiu melhor. Talvez, se você achasse bom, poderia também ser legal para seu bebê, pois ele teria a necessidade de sucção saciada”.

    Crítica destrutiva:

    “Tem que dar logo a chupeta para essa criança, ele não sai do seu peito, já está tão grande para ficar pendurado no seu peito. Nossa, nessa idade meu filho já dormia a noite toda e o seu ainda fica acordando de duas em duas horas? Também, não dá a chupeta, é isso que dá…”.

Sobre finanças…

    Sugestão construtiva:

    “Existem algumas opções interessantes para as pessoas resolverem suas dívidas… Renegociar com o banco, cortar o cartão de crédito e deixar de usar folhas de cheque. Pode ser que, se você achar legal, um desses caminhos te ajudem”.

    Crítica destrutiva:

    “Se você continuar a usar tanto cartão de crédito assim vai continuar se afogando em dívidas. Eu te falei, está tudo errado. Cheque também é outra furada, porque você não vê quantas folhas assina. Quanto mais você usar essas duas formas de pagamento, mais vai se afundar em dívidas”.

Sobre leis de trânsito…

    Sugestão construtiva:

    “Tem uma técnica bem legal e que funciona para não se esquecer de colocar o cinto de segurança no carro. Deixe colado um post-it com um aviso ‘Colocar cinto’ no quebra-sol, em frente ao seu banco. Assim, você não se esquecerá mais e vai parar de receber multas de trânsito”.

    Crítica destrutiva:

    “Ah, mas se não colocar o cinto de segurança, claro que vai receber multa. A lei é para todos. Errou, agora vai ter de sentir no bolso, quem sabe aprende?!”

A diferença está também na forma de se expressar

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Louzã comenta que uma frase pode ser dita com entonações ou usando expressões faciais que indicam o desagrado, repúdio, ofensa ou ironia. Neste sentido, está longe de ser uma crítica construtiva.

Numa situação hipotética, a pessoa chega para almoçar em casa e, ao ver que o prato principal é frango, diz a quem fez a comida, com total desagrado:“Nossa, de novo frango?! Já comemos frango ontem! Está precisando fazer um curso de cozinha, hein?”

Isso pode ser dito, desde que utilizando as palavras certas e, sobretudo, de forma gentil, sem expressões ou entonações que causem constrangimento, que ofendam: “Estou um pouco enjoado de frango, podemos pesquisar algumas ideias de receitas para variar um pouco, o que acha?”

É sempre bom lembrar que, por mais que se tenha intimidade com alguém, a educação deve vir em primeiro lugar. E, sobretudo, que sinceridade não deve ser antônimo de gentileza.

Dicas para criticar do jeito certo

Lizandra destaca que as principais dicas para dar sugestões construtivas são:

  • Dar opções claras, objetivas e resolutas;
  • Sugerir em vez de ordenar;
  • Lembrar-se sempre de que a escolha é do outro;
  • Falar do que deu certo para você para inspirar o outro;
  • Usar palavras suavizadoras e educadas, como “você poderia” ou “eu gostaria”.

Mario Louzã lembra da importância da elegância e da educação. “Tudo pode ser dito de um modo mais palatável para a pessoa que ouvirá a crítica. É importante lembrar que cada pessoa tem certo grau, maior ou menor, de tolerância à crítica. Pessoas com baixa tolerância a críticas poderão ficar ofendidas ou magoadas mesmo que o interlocutor tenha sido cauteloso e delicado nas frases utilizadas. Neste caso, o problema é mais da pessoa criticada, a qual precisaria buscar uma psicoterapia para elaborar melhor suas dificuldades e desenvolver a tolerância às críticas”, diz.

Como reagir a uma crítica?

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Louzã comenta que a reação à crítica depende em parte da maturidade do interlocutor (o que recebe a crítica), de sua capacidade de tolerar a imperfeição e lidar de modo “adulto” com a crítica. “Isto fica mais fácil se a crítica é feita de modo educado e com uma argumentação consistente. Se a crítica é feita de modo mais rude, inferiorizando o criticado, a reação tende a ser o inverso do que se espera… O criticado muitas vezes fica revoltado com o que foi dito ou o modo como foi dito e passa a agir de modo a justamente provocar mais aquele que o criticou”, explica.

Para a Lizandra, as principais dicas para lidar com as críticas são:

  • Escute tudo o que os outros falam;
  • Guarde aquilo que realmente faz sentido, reflita se a observação faz sentido, se o que o outro diz tem fundamento… Então você acolhe a crítica ou a sugestão e vê o que faz com ela;
  • Se a crítica foi muito ofensiva, incomodou ou não faz sentido, apenas ignore, tentando não se intoxicar de sensações ruins. Afinal, a escolha do outro em criticar é dele, e a sua é de lidar com essa crítica;
  • Lembrar que você, e apenas você, é responsável pela sua vida, incluindo escolhas e consequências, é regra de ouro para essas situações.

Por fim, vale uma reflexão: antes de fazer uma crítica (por mais que você a considere construtiva), coloque-se no lugar do próximo e pense “como eu reagiria se ouvisse isso?”, “será que eu, de fato, entenderia e encararia numa boa?”…

Por mais que cada pessoa reaja à critica e às sugestões de uma maneira diferente, este já é um bom termômetro para avaliar se aquela crítica/sugestão construtiva deverá mesmo ser feita.

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