COLUNA

As mulheres têm poder na Igreja Católica?

CANVA

Papa Francisco nomeia três mulheres para o Dicastério e esse ato é um passo bastante revolucionário

Em 15.07.22

Minha mãe foi voluntária da Pastoral da Criança por duas décadas. Ouvindo seus relatos, eu soube do imenso e importante trabalho de base realizado pelas mulheres na Igreja Católica. A ideia nasceu com o objetivo de diminuir a mortalidade infantil, mas foi ampliando suas práticas de saúde para o campo da alimentação, educação e cidadania.

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Minha mãe, por exemplo, auxiliava no cadastro das famílias vulneráveis, na pesagem das crianças e na elaboração e distribuição da “multimistura”. Esse composto alimentar contribuiu e ainda contribui para reduzir a mortalidade infantil.

Além disso, ela ministrava cursos para as mulheres, com temas variados, para que elas pudessem ter uma profissão e ampliar seus ganhos financeiros. Também orientava essas mulheres para que não aceitassem agressões e denunciassem qualquer violência doméstica.

Minha mãe e muitas outras mulheres ajudaram e ainda ajudam a construir esse trabalho de base da Igreja Católica.

Leigas e não leigas, voluntárias ou não, essas mulheres propagam a fé, cuidam das Igrejas, são líderes comunitárias, coordenam as pastorais, são catequistas, professoras, praticam a assistência social, etc, mas elas não ocupam cargos de poder nessa Instituição.

Esse foi o cenário que o Papa Francisco encontrou ao assumir o papado em 2013. Porém, de lá para cá, ele tem manifestado a vontade de aumentar a presença feminina na administração central da Igreja Católica.

Nesta semana, inclusive, o Papa nomeou três mulheres: as freiras Raffaella Petrini e Yvonne Reungoa e a doutora Maria Lia Zervino. Agora, elas passam a fazer parte do Dicastério, um comitê que até então era exclusivamente masculino. Esse grupo o aconselha na escolha dos bispos do mundo.

Tal fato inédito faz parte da política do pontífice argentino de dar mais espaço e poder para as mulheres. No entanto, já em 2021, o Papa já havia institucionalizado a participação de mulheres leigas no serviço de leitura realizado no altar e no auxílio da celebração.

O Papa Francisco afirma que seu objetivo é o de “criar espaços onde as mulheres possam liderar, garantindo que sejam valorizadas, respeitadas e reconhecidas”. Para ele, as mulheres não precisam ser padres para servir como líderes na Igreja Católica.

Ou seja, Francisco, apesar de ser um Papa “progressista”, não admite que mulheres possam vir a ser padres, bispos ou até mesmo Papa. Por enquanto, então, a estrutura hierárquica da Igreja Católica não permite a participação de mulheres nas altas decisões de poder. Diáconos, padres, bispos, cardeais e o próprio Papa são homens cis.

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Assim, apesar do grande avanço do protagonismo feminino em diversas esferas sociais, há ainda muito para avançar no que se refere à ocupação de cargos de poder na Igreja Católica.

Luiza Tomita, doutora em Teologia, definida por si mesma como teóloga feminista da libertação, afirma que no catolicismo as mulheres possuem o que ela chama de “cidadania de segunda categoria”. Tomita defende uma maior relevância das mulheres na religião para que elas tenham acesso às mesmas instâncias de poder que os homens. Os homens que têm poder na Igreja Católica, diz a teóloga, são os detentores da palavra final. Ela é favorável, inclusive, à ordenação de mulheres, o que seria uma grande conquista no mundo católico.

Em uma entrevista, Maria Lía Zervino, a leiga escolhida para o Dicastério, disse que sonha com uma Igreja com mulheres juízas, em todos os tribunais dessa instituição. Ou seja, que participem mais ativamente de todos os escalões da Igreja Católica. Tomita e Zervino, são sensíveis ao papel das mulheres na religião.

Os atos do Papa Francisco representam pequenos, mas importantes, passos rumo à ampliação da participação das mulheres nos processos decisórios dentro da Igreja Católica. Trabalhos como os que minha mãe realizava na Pastoral da Criança são fundamentais, mas é necessário que as mulheres ocupem espaços de mais poder nessa Instituição.

Vamos torcer para que o atual Papa continue com sua política de ampliar o papel das mulheres e, quem sabe, até surpreenda decidindo pela ordenação delas.

Se estivesse viva, minha mãe com certeza vibraria com essas mudanças!

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Dicas de Mulher.

Doutora em História, mestra em Educação e graduada em Pedagogia. Professora aposentada pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Mantém-se na luta cotidiana pela educação de qualidade, democrática e para todos.