Ageísmo: quando o envelhecimento se torna motivo de preconceito

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Em 13.09.21

greceghanem

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Em 13.09.21

O envelhecimento humano é um fato incontestável. Contudo, a imagem estigmatizada criada em torno de alguns mitos sobre a terceira idade causa impactos negativos na vida das pessoas mais velhas. Para compreender melhor sobre os “pré” conceitos relacionados ao idoso, chamado ageísmo, e como desconstruí-los, as psicólogas Rebeka Nascimento dos Santos (CRP 05/58097) e Lillian Furlan de Melo (CRP 08/28301) explicam sobre esse tema social tão relevante. Confira abaixo!

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O que é o ageísmo

Segundo a psicóloga Rebeka o termo ageísmo, criado pelo médico psiquiatra Robert Neil Butler, diz respeito “a imagem estereotipada dos idosos e discriminação contra as pessoas mais velhas”. A profissional explica que o conceito abrange todas as formas de preconceitos que envolvem o envelhecimento, a visão equivocada que há em torno da terceira idade. Por sua vez, a psicóloga Lilian afirma que “pode-se entender por ageísmo ações negativas relacionada a idade de uma forma em geral, no entanto, a prática mais comum evidenciada é contra a pessoa idosa”.

Rebeka conta ainda que “existe uma visão discriminatória em relação ao idoso, que a enxerga como um individuo de cabelos brancos, dificuldade para caminhar, problemas de saúde e capacidade produtiva reduzida”, e consequentemente esse estereótipo acaba segregando a população idosa das demais pessoas.

Outra questão relevante a ser colocada em pauta, são impactos causados a mulheres pela discriminação etária. “Obviamente o ageísmo atinge homens e mulheres, mas, infelizmente, por questões já conhecidas em relação a gênero e padrões de beleza, o peso do preconceito para o público feminino parecer ser ainda maior, segundo pesquisas”, afirma a psicóloga Rebeka. Ambas as profissionais ressaltam para a quebra desse estereótipo, reforçando a desconstrução do mesmo, visto que “gênero, raça, religião, cultura, classe social ou idade não definem um indivíduo”, afirma Rebeka.

Exemplos de ageísmo

O preconceito etário acontece de diversas formas, afinal, como dito anteriormente pelas psicólogas, existe uma crença deturpada em relação ao envelhecimento que segrega e limita as pessoas mais velhas. Os casos de discriminação a seguir exemplificam como o ageísmo por acontecer e levantam reflexões importantes a cerca do tema.

  • Atrizes de “Sex and the city”: em meados de 2021, após o anúncio do retorno do elenco de “Sex and the city” as telinhas, a atriz Sarah Jessica Parker, que interpreta “Carrie Bradshaw” e as atrizes Kristin Davis (Charlotte York) e Cynthia Nixon (Miranda Hobbes) foram bombardeadas com críticas da mídia e do público em relação à aparência. “O ageísmo está em todo o lugar, do famoso ao desconhecido. As atrizes da série foram criticadas por envelhecer. Parece que ninguém se lembra que todos iremos envelhecer um dia”, pontua a psicóloga Rebeka, que continua: “é isso que o preconceito faz, desvaloriza o esforço, o talento, as habilidades e capacidades das pessoas apenas por elas serem mais velhas”.
  • Madonna: outro famoso caso dessa discriminação aconteceu com a cantora Madonna, ao lançar o clipe do single “Medellín” com o cantor Maluma, em 2019, aos 60 anos. As críticas direcionadas a artista, que manteve no novo álbum o estilo característico de sua carreira, insinuavam que a música e o clipe não correspondia com sua idade. Com isso, Rebeka explica que essa é uma característica deste tipo de preconceito. “As demais pessoas julgam que pela idade as pessoas mais velhas não podem fazer determinadas coisas, como se vestir de terminada maneira, ter relacionamentos amorosos, se expressar como quiser, e isso não é verdade”, complementa a profissional.

Apesar de ambos os casos serem de pessoas famosas, não se engane, o ageísmo acontece constantemente no cotidiano de pessoas comuns, em casa, no mercado de trabalho ou em locais públicos, e isso consequentemente gera impactos relevantes na vida das pessoas mais velhas.

As causas e consequências do ageísmo

Como se sabe, qualquer tipo de preconceito gera impactos na vida das vítimas, e com o ageísmo não é diferente. Veja a seguir o que as psicólogas pontuaram sobre as causas e as consequências relacionadas ao preconceito etário.

As causas

Sarah Jane Adams

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A forma como é vista a existência humana e experienciamos a vida, e os avanços diários das diversas áreas de conhecimento, contaminam os conceitos relacionados ao envelhecimento. Lilian e Rebeka explicam isso, ressaltando algumas das principais causas do ageísmo. Veja abaixo:

  • Extrema valorização da juventude, que segundo Rebeka “é vista, muitas vezes, como a melhor fase da vida, e reforça a crença de que os mais velhos não podem agir de determinada maneira ou fazer determinas coisas”;
  • Grande discrepância do modo vida entre as diferentes gerações, segundo Lilian, que se dividem em dois pontos: o aumento da expectativa de vida, graças aos avanços da medicina, e a constante atualização da tecnologia, e sua valorização na vida contemporânea;
  • O errôneo estereótipo do idoso doente, frágil, debilitado, dependente, improdutivo e incapaz que, de acordo com ambas as profissionais, segrega e limita a população idosa;

As consequências

Como se sabe, toda causa tem uma consequência. Os impactos gerados na vida das pessoas mais velhas, por conta do preconceito, resultam em consequências que também foram abordadas pelas psicólogas. Confira:

  • Isolamento social, que de acordo com Rebeka pode ocorrer “do idoso para com as demais pessoas, e das pessoas para com idoso”.
  • Perda de autoestima, que ocorre como consequência direta da valorização da juventude e do estereótipo em relação ao envelhecimento.
  • Queda da capacidade cognitiva, que segundo a psicóloga Lilian “ocorre por conta dos tratos infantilizados, paternalistas, dos discursos simplistas, fala vagarosa, de pouca qualidade, que reduzem o sujeito a um único fator de sua composição, a idade”.
  • Depressão, em decorrência do isolamento e do sentimento de solidão, incapacidade e perda de autonomia.

Ambas as profissionais pontuam ser preciso haver uma transformação na forma como a sociedade enxerga o envelhecimento. “Quando falamos de diversidade, não estamos falando apenas para esta ou aquela minoria, estamos falando sobre todos aqueles que vivem o preconceito diariamente e são afetados por ele, e isso inclui os idosos”, afirma Rebeka.

O ageísmo no Brasil

Segundo diversas pesquisas, o crescimento da população idosa no Brasil cresce mais rapidamente a cada dia. A Organização Mundial da Saúde (OMS), por exemplo, afirma que em cerca de alguns anos, o Brasil será o sexto país com maior número de pessoas acima dos 60 anos. Contudo, ao passo que a população idosa aumenta, os investimentos sociais para essa população parecem estagnar.

De acordo com Lilian, “no Brasil, não ocorre investimento em nenhum campo considerável para se construir uma sociedade em que a maioria serão envelhecidos”. A psicóloga aponta ainda outra pesquisa, feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que afirma que em 2060, cerca de 25% da população brasileira será composta por idosos.

A psicóloga Rebeka também ressalta que, apesar das leis prescritas no Estatuto do Idoso, a população geral parece desconhecer seus direitos e deveres em relação ao assunto, o que acaba reforçando ainda mais o preconceito etário. “Se faz necessário a disseminação de informação sobre o envelhecimento, métodos de inclusão para essa população, uma desconstrução social dos estigmas da velhice, e com certeza, mais fiscalização e punição diante de atos preconceituosos”, afirma a profissional.

Ageísmo e a lei

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Ambas as profissionais afirmam que a discriminação contra o idoso é crime e possui punição. Conforme o artigo 96, do Estatuto do Idoso, prescrito sob a lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003, a discriminação mediante a idade, com atos de humilhação, desdém, menosprezo, intimidação, ou impedimento e dificultação do acesso a operações bancárias, meio de transporte, entre outras coisas, constitui-se como crime com pena de reclusão de 6 meses a 1 ano e multa.

Rebeka ressalta ainda que “para denunciar, a vítima ou demais pessoas que presenciarem os atos discriminatórios, pode entrar em contato com os concelhos municipais do idoso de cada município, ou realizar um boletim de ocorrência”. Além disso, para mais informações e esclarecimentos de dúvidas, também é valido entrar em contato com a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania da região em que você se encontra.

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Ademais, é preciso compreender que o envelhecimento não é um estigma ou uma doutrina. Envelhecer não significa perder seu propósito de vida, ou ter que deixar de ser quem você sempre foi por conta da idade. O envelhecimento é um acontecimento natural da vida de todos os seres humanos, e merece ser vivido da melhor forma, desconstruindo muitos tabus… Para isso, que tal dar um “chega pra lá” na autoestima baixa e fortalecer sua autoconfiança e amor-próprio?

Assuntos: Comportamento