7 ilusões que as comédias românticas ensinam

A ideia de que toda mulher precisa esperar por seu príncipe encantado, por exemplo, é transmitida na maioria das histórias

Escrito por Tais Romanelli

Foto: Thinkstock

Você acreditaria se alguém te dissesse que aquela última comédia romântica que você assistiu não é tão inocente quanto parece, e pode até oferecer consequências negativas à sua vida?!

Parece mesmo estranho, afinal, ler um livro, assistir a filmes em casa ou no cinema são hábitos superpositivos, além de agradáveis. Mas, para você ter uma ideia, a influência das comédias românticas na vida de algumas pessoas já foi tema de várias pesquisas importantes.

Um estudo da Universidade de Heriot-Watt, na Escócia, por exemplo, constatou que assistir a comédias românticas poderia deixar a pessoa com expectativas irreais em relação aos seus relacionamentos da vida real.

A pesquisa foi feita de forma bem divertida e, analisando 40 sucessos do gênero comédia romântica, identificou alguns conceitos comuns neste tipo de filme, como, por exemplo: “casais se apaixonam instantaneamente”; “no final, o destino sempre une as pessoas que se amam”; “existe apenas um par perfeito para cada pessoa”; entre outros.

Os pesquisadores colocaram, então, cerca de 100 voluntários para assistir a “Escrito nas Estrelas”, enquanto outros 100 assistiam a um drama de David Lynch. Em um questionário feito após a sessão, ficou claro que quem viu a comédia romântica demonstrou convicções muito mais fortes nos conceitos românticos – como a ideia de “destino” etc. – do que os outros.

Mas será que um estudo como esse deve mesmo ser levado a sério? As comédias românticas podem mesmo influenciar as opiniões e/ou os desejos de uma pessoa?

A psicóloga Thais Khoury, especialista do Personare, explica que tudo o que vem em forma de mídia (cinema, TV, impressos, música) influencia a visão de mundo, a opinião pública e o comportamento da maioria das pessoas, especialmente das mulheres – que, ao longo do tempo, se tornaram um alvo muito explorado pela publicidade.

Porém, acrescenta a psicóloga, seria injusto responsabilizar somente as comédias românticas por influenciar desejos e opiniões. “Elas são mais uma manutenção cultural do que uma produção cultural inovadora exatamente. Apenas mantêm um padrão de funcionamento social pré-existente de um tempo em que contos infantis, como Cinderela, Branca de Neve, Rapunzel, entre outros – muito difundidos há séculos no ocidente – já construíam a identidade da mulher e do homem sobre um modelo de relação perfeita e idealizada. Note que estamos focando na mulher, mas os homens não estão imunes a este modelo”, explica.

Abaixo você confere algumas ideias que a maioria das comédias românticas transmite como verdades absolutas e que, de certa forma, podem influenciar negativamente a maneira como as mulheres passam a enxergar uma relação amorosa real.

1. Toda mulher deve esperar pelo seu “príncipe encantado”

Foto: Thinkstock

Essa é, provavelmente, a ilusão mais comum que as comédias românticas criam em uma mulher e está relacionada à ideia de que existe um “par perfeito” para cada pessoa neste mundo.

Thais Khoury explica que esse tipo de ilusão pode interferir de maneira negativa nos desejos e até nos comportamentos de uma pessoa. “Mulheres e homens passam a vida sem experimentar o amor, pois ficam esperando seus príncipes e princesas, com toda a carga de perfeição que essas ideias implicam. Solitários, se tornam demasiadamente rígidos em relação à aparência, posses e jeito que a pessoa ideal deve ter. E, assim, se privam de relações mais verdadeiras e humanas”, destaca.

2. Só é totalmente feliz a mulher que se casa

Foto: Thinkstock

A maioria das comédias românticas termina em casamento, não é mesmo? O que, de certa forma, evidencia a ideia de que uma mulher só pode ser feliz se encontrar um homem para se casar.

“Embora hoje estejam nascendo novas formas de relação e, também, um olhar diferente para o que constitui um núcleo familiar, o casamento e a sexualidade, ainda há um longo caminho a ser percorrido rumo à libertação dessas referências e a possibilidade de ampliar a qualidade das relações”, destaca Thais.

A psicóloga explica que, atualmente, é possível observar um movimento feminino crescente que questiona e contesta de maneira bem direta a importância da relação com um homem, “que modelos ela segue, a ideia de ter ou não filhos, a maneira com esses filhos serão criados, dentre tantos outros setores da vida da mulher”, diz.

Ainda de acordo com Thais, a mulher que busca a relação com o “príncipe encantado” – que, certamente, se casará com ela – se põe numa armadilha que a impede de encontrar muitas vezes um companheiro para a vida ou até mesmo uma companheira.

3. Mulheres bem sucedidas profissionalmente demoram a encontrar alguém

Foto: Thinkstock

Histórias de jornalistas, advogadas, empresárias que trabalham demais e, por isso, não têm tempo para se relacionar, são mostradas em muitas comédias românticas. O que deixa subentendida a ideia que as mulheres devem escolher entre carreira e relacionamento amoroso, já que eles dificilmente podem andar juntos.

Porém, isso não pode ser visto, de forma alguma, como uma regra! Certamente existem por aí muitas pessoas bem-sucedidas que encontraram alguém especial, bem como outras que – independentemente da profissão e do tempo que dedicam ao trabalho – ainda estão solteiras (talvez, até por opção).

É preciso fugir de pensamentos como, por exemplo, “para encontrar alguém especial é preciso abrir mão do meu trabalho”, “homens não gostam de mulheres que trabalham demais” etc. É fundamental ter personalidade, correr atrás dos seus objetivos e nunca depositar seus sonhos e projetos exclusivamente em cima de um possível relacionamento perfeito.

4. Os opostos (sempre) se atraem

Foto: Thinkstock

Essa é uma frase popular e até pode fazer algum sentido. Mas o que não se pode acreditar é que esta seja uma regra. Achar que aquela pessoa com quem você tem dificuldades de conviver no trabalho deva ser seu “príncipe encantado” já que vocês vivem discordando de tudo; ou ainda, que você, que é mais sociável, gosta de sair etc., precisa encontrar um homem tranquilo, tímido, para que o namoro dê certo, entre outras ideias, são muito mostradas em filmes românticos, porém, nem sempre são reais…

Existe uma grande possibilidade de você se envolver com uma pessoa que tenha os mesmos gostos que você, que curta sair, que tenha facilidade para se comunicar etc., assim como você! Afinal, cada caso é um caso e não existem regras na hora de se relacionar e se apaixonar por alguém!

5. O ódio sempre se transforma em amor

Foto: Thinkstock

Boa parte das comedidas românticas começa com brigas, desentendimentos, entre um homem e uma mulher que – logo podemos perceber – são os protagonistas e terminarão juntos no final do filme!

Mas será que isso de fato acontece na vida real? Claro, podem existir casos isolados, mas, de forma geral, dificilmente um homem que você considera insuportável ou que, por algum motivo, te ofendeu numa briga ou discussão, se tornará “o amor da sua vida” em poucos dias.

6. Para ser amor, precisa também ter dor

Foto: Thinkstock

Muitos filmes mostram histórias de casais que se amam, mas se separaram (por um tempo) por diferentes motivos, como, por exemplo: porque moram longe; a família não aceita o relacionamento; a mulher precisa abrir mão do seu amor em prol de uma amiga que também é apaixonada por ele; porque brigam demais; porque um não aceita o trabalho do outro etc.

Mas a verdade é que o amor não precisa rimar com dor! É de se esperar que os filmes românticos exibam com frequência histórias desse tipo para que haja um drama interessante de se assistir… Mas, felizmente, viver um grande romance pode, sim, ser algo tranquilo e pacífico. Por isso, não fique esperando por complicações desnecessárias!

7. Se ele se apaixonar por você, pode mudar totalmente

Foto: Thinkstock

Quem nunca assistiu a um filme em que o protagonista – inicialmente, considerado o típico “homem galinha”, desinteressado em qualquer tipo de relacionamento sério – se apaixona e, do dia para a noite, muda totalmente sua personalidade?!

Não é impossível que um homem mude seus comportamentos a fim de se tornar uma pessoa mais comportada, que busque um relacionamento sério, porém, isso dificilmente acontece de uma hora para outra.

Afinal, nenhuma mulher tem o poder de mudar um homem. Assim como um homem não pode mudar uma mulher. Porém, é verdade que, caso seja do interesse de ambas as partes, os dois podem ser esforçar para ficar juntos, modificando certos comportamentos que poderiam impedir que o relacionamento desse certo, mas nunca mudando o jeito de ser de cada um.

Dicas importantes para assistir a uma comédia romântica sem se iludir

Foto: Thinkstock

Como já destacou Thais Khoury, seria injusto responsabilizar somente as comédias românticas por influenciar desejos e opiniões. E, assistir a esse tipo de filme não será um hábito negativo se a telespectadora souber separar o que é ficção do que é realidade!

A dica da psicóloga é: questionem. “O que é uma relação? De que maneira aprendi a me relacionar ao longo da vida? Essa maneira está satisfatória? Consigo me vincular e ter intimidade na minha relação afetiva, no meu casamento? O que seria uma relação perfeita para mim? O quanto idealizo minha relação e meu/minha parceiro(a)?”, exemplifica.

Thais destaca que, enquanto existir um ideal de perfeição, o vínculo ficará prejudicado e as expectativas, extremamente elevadas – o que, certamente, levará à frustração. “Se relacionar pode ser muito bom e muito enriquecedor sem a expectativa de perfeição. Podemos ser mais humanos, podemos errar e pedir desculpas, podemos ter dias tristes e mau humorados, com a certeza de que, mesmo assim, alguém nos ama e é amado por nós, apesar das diferenças”, explica.

Dessa maneira, fica claro que assistir a comédias românticas não é um problema. “O problema está em nunca nos questionarmos de onde vêm nossos valores culturais e sociais e se estamos satisfeitos com a maneira como fomos moldados em sociedade, família e relações afetivas. Precisamos nos questionar o que é afeto e como estamos expressando e recebendo isso”, destaca a psicóloga.

Pensando em tudo isso, fica uma questão importante a se pensar: nossas expectativas diante de uma relação amorosa são, afinal, nossas mesmo ou são as expectativas de nossos pais, amigos, comunidade e sociedade?! Vale a pena refletir!

Assuntos: Namoro, Relacionamentos

Dicas pela Web