Dicas de Mulher Dicas para Mães

Por que a ocitocina é conhecida como o hormônio do amor?

O hormônio é responsável pelas contrações uterinas de forma compassada, além de prevenir o sangramento

em 25/08/2016

Foto: Getty Images

Foto: Getty Images

Atualmente, existe uma atenção maior voltada à humanização do parto, no sentido de desconstruir a ideia de que o parto é algo dolorido ou “quase insuportável” para a mulher, e transformá-lo, assim, numa experiência única, saudável, instintiva, ou seja, ressaltar que este é um ato fisiológico e natural.

Neste contexto, a ocitocina está sempre em pauta, devido à sua importante relação com o momento do parto. Mas, o assunto, inevitavelmente, causa muitas dúvidas entre as pessoas. Por exemplo, muita gente acredita que a ocitocina está presente somente no corpo da mulher, mas isso não é verdade. Ou ainda, que a ocitocina sintética possa ser usada “sem problemas”.

Alberto Guimarães, ginecologista e obstetra pela Faculdade de Medicina em Teresópolis e mestre pela Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), defensor dos conceitos de Parto Humanizado, explica que a ocitocina é um hormônio produzido pela glândula hipófise, ou glândulas pituitárias. “É um hormônio que está envolvido em várias situações, e, vale destacar, ele não é envolvido somente na mulher, ou seja, não é somente a mulher que produz ocitocina, o homem também produz, claro que em quantidades diferentes”, diz.

A ocitocina é, inclusive, conhecida popularmente como “hormônio do amor”, pois está intimamente ligada à sensação de prazer, ao bem-estar físico e emocional e ao vínculo entre mãe e bebê.

Chave essencial para tornar mais forte o vínculo afetivo entre mamãe e bebê, a ocitocina tem seu ápice durante o trabalho de parto. “Ela é produzida pelo cérebro, podendo ter sua liberação aumentada durante as situações mais íntimas como abraçar, beijar e acariciar o bebê”, comenta Guimarães.

A ocitocina e o parto normal

Foto: Getty Images

Foto: Getty Images

Este hormônio tem um papel muito importante no trabalho de parto. É responsável pelas contrações uterinas, de forma compassada – o que faz com que o colo uterino sofra dilatação evoluindo para o parto, e provoque a descida do bebê ao canal da pelve feminina, além de prevenir o sangramento da mãe.

“A ocitocina é uma das razões para que haja uma contração uterina, e é essa contração que vai levar à dilatação do colo do útero e promover a saída do bebê pelo canal vaginal”, ressalta Guimarães.

O obstetra destaca que um parto normal, sem usar a ocitocina sintética, ou seja, sem colocar na veia um remédio ou uma substância produzida, é muito importante. “Porque assim a ocitocina é liberada de maneira lenta, como se fossem pulsos, e daí a própria contração uterina é como se fosse uma onda: ela tem um auge e ela para”, explica.

Guimarães comenta que a maneira que o corpo tem de liberar ocitocina é através de um mecanismo muito fino, que consegue controlar essa quantidade na liberação, de maneira que o próprio organismo vai se adaptando a esse esforço para, inclusive, tolerar a dor.

“E ainda, depois do parto, a ocitocina vai promover a contração do útero para evitar a hemorragia. Imagine que, com a saída do bebê, o útero poderia ficar mole, como, por exemplo, um ‘chuveiro ligado saindo água o tempo inteiro’. Para evitar isso, o útero contrai e o principal fator para esta contração é a ocitocina. Então o papel dela no trabalho de parto é extremamente importante”, acrescenta o obstetra.

O momento do parto, na expulsão do bebê, é descrito como uma “enxurrada de hormônios” e, dentro desses hormônios, está a ocitocina, a adrenalina, no momento final da saída do bebê do útero. “Esse momento é o que vai também muito hormônio, através da placenta, para o bebê. E muitos pesquisadores entendem que esse momento é extremamente importante, onde o bebê também vai estar cheio de ocitocina, esse hormônio que vai permitir depois que existam as relações sociais, uma relação entre a mãe e o bebê”, ressalta Guimarães.

Vale destacar que alguns fatores ajudam na liberação da ocitocina no trabalho de parto, o que faz com que o organismo comece a enviar sinais para o cérebro, liberando o hormônio para todo o corpo. Entre eles, de acordo com Guimarães, estão:

  • Promover um ambiente acolhedor e com pouca luz;
  • Privacidade;
  • Ambiente de confiança, de disponibilidade e de respeito;
  • Estímulo dos mamilos por meio de movimentos similares ao de amamentação.

A ocitocina e a amamentação

A relação da ocitocina com a amamentação justifica mais uma vez o fato deste hormônio ser chamado, muitas vezes, de “hormônio do amor”.

“Na questão da amamentação, é interessante imaginar que a ocitocina promove uma sensação de bem-estar na mulher. O hormônio ajuda a nascer o bebê, ajuda a contrair o útero e vai dar mais confiança para a mulher no trato do bebê, na relação da mulher com as pessoas à sua volta, na confiança da mulher que ‘vai dar conta’ de cuidar desta nova criança que acabou de chegar; e tudo isso pode refletir nesta questão do leite”, destaca Guimarães.

“Se a mãe fica segura, ela tende a produzir mais leite e, além disso, a ocitocina faz com que o leite saia da mama e vá para o bebê. É como se, quando o bebê fosse sugar, a ocitocina ajudasse o leite a sair da mama e ir até a boca dele, acontecendo a ejeção do leite”, acrescenta o obstetra.

Existem até algumas situações em que é utilizada a ocitocina sintética – um spray colocado na narina da mãe, que vai provocar essa ejeção de leite –, conforme lembra Guimarães.

Ocitocina sintética: em quais casos é utilizada

Foto: Getty Images

Foto: Getty Images

O obstetra explica que a ocitocina sintética é uma ocitocina que vai atuar em receptores específicos, nos mesmos receptores que a ocitocina natural atua, ou seja: no útero, nas mamas, na contração uterina e na prevenção da hemorragia.

“Então, podemos pensar que a ocitocina sintética substitui a natural, mas não é bem assim. Mas, sim, ela é extremamente importante em algumas situações… Por exemplo, a mulher está em trabalho de parto, mas as contrações são ineficazes e distantes, e essa mulher não produz a ocitocina natural de maneira adequada, aí podemos utilizar a ocitocina sintética para ajudar nessas contrações”, comenta Guimarães.

Em relação à amamentação, em algumas situações pode ser necessário o uso da ocitocina sintética em forma de spray, com o objetivo de ser colocado na narina da mãe para que isso provoque a ejeção do leite.

Porém, o grande problema está no uso indiscriminado da ocitocina sintética. O hormônio pode, por exemplo, ser injetado na veia em doses exageradas, podendo assim causar sérios riscos à mulher e ao bebê.

“Os riscos do uso da ocitocina de forma indiscriminada é de alguém pegar uma veia, pegar um tanto de ocitocina e injetar direto nessa veia, porque o efeito da ocitocina natural é o impulso. Então, a dificuldade é de você conseguir simular de maneira natural essa ocitocina. Então, se a pessoa está internada, com o soro, e sente uma dor terrível ao receber esse hormônio sintético, deve ser por conta de um gotejamento maior nas veias, e o útero vai sentir como uma contração muito forte e esse exagero na contração atrapalha a chegada de sangue no útero para oxigenar o bebê”, explica Guimarães.

“Assim, um dos riscos da utilização indiscriminada da ocitocina sintética é exagerar na dose e isso atrapalhar na oxigenação do feto, ou, isso levar a uma dor praticamente insuportável e levar a mulher ao desespero porque realmente a contração pode ter características muito fortes”, acrescenta o obstetra.

“Outro ponto importante é que, se no trabalho de parto a utilização da ocitocina vier com uma dose muito alta, durante um tempo muito grande, os receptores desta ocitocina já estão trabalhando e, em uma eventual hemorragia pós-parto, a gente perde essa arma que poderia ser útil para parar de sangrar. E, com isso, a ocitocina não faz mais efeito porque ela já foi muito utilizada em sua função. Então, em um momento em que eu precisaria de uma medicação que ajudasse nessa contração, eu já não posso contar mais, por conta da utilização na hora errada”, ressalta Guimarães.

Mas, esclarece o obstetra, é claro que a ocitocina sintética, assim como uma cesárea bem indicada, pode e deve ser utilizada. “Mas isso é, de maneira muito criteriosa e a seu tempo, assim ela pode, sem dúvida, ser útil”, destaca Guimarães.

Para o obstetra, é muito importante conhecer a fisiologia do parto. “Inclusive para reavaliar quais intervenções são justificáveis, entendendo o fino mecanismo envolvido neste equilíbrio hormonal, a fim de respeitar a fisiologia do parto, evitando consequências para o binômio mãe-filho”, finaliza.

Agora você já conhece um pouco mais sobre as funções da ocitocina e sabe da sua importância no que diz respeito ao parto. Mas, o mais importante de tudo, quando o assunto é parto, é estar segura e informada sobre suas escolhas. Para isso, é essencial conversar muito com seu médico de confiança, tirar todas suas dúvidas e deixar claro quais são suas vontades. A gravidez é uma fase que, naturalmente, exige aprendizado, e é, sobretudo, um momento mágico na vida da mulher (e de toda a família!) e deve ser vivido dessa maneira.

Comentários
Dicas relacionadas